ANA ROSSI

Agradeço o meu pai, Luiz Basílio Rossi, pela sua inquietação que, na minha interpretação, conduziu-o a me pedir “um texto de reflexão sobre o futuro”, texto esse a ser publicado no site fundado por ele  em 2020 intitulado Todo Dia É Dia. Pai, eis o texto abaixo. Obrigada!

Ao contrário do que eu achava que seria o ano de 2020, e também ao contrário do que vivi e, também apesar dos pesares que vivenciamos como humanidade, vivi intensamente esse ano de 2020 que está prestes a terminar de uma maneira que apenas agora começo a compreender. E que terá repercussão na minha vida nos anos vindouros. Muitas coisas difíceis aconteceram, situações nunca dantes imaginadas transformaram a minha rotina. Colocaram-me contra a parede. Mas hoje, sem mágoas, confirmo que as minhas janelas abertas abriram-se para o futuro e para o mundo. Com a minha experiência de vida, aprendi que as (grandes) mudanças sempre foram geradas com (grandes) dores e uma dose importante de sofrimento. A pandemia fez-se norma e os meus sonhos, conseguiu alterar. Mas não apagar. Assim, o que eu achava que era eu, alterou-se. Paradoxal. Talvez tenha chegado no limiar que consiste em conciliar paradoxos que, antes, acreditava impossíveis de serem conciliados.   

Essa (difícil) alteração de mim mesma, ao invés de me abater, viu-me mais forte, trouxe-me mais coerência, fincou-me mais em mim mesma.  Busca infinita para viver a vida tirando as camadas que antes me sufocavam e que eu desconhecia.

Hoje, ao final desse ano de 2020, tão estranho e bizarro, minhas expectativas de como a vida deveria ser sofreu grandes alterações. Desde muito cedo, fui construída com projeções de como a minha vida deveria ser, de como ela deveria estar. Um grande caminho pela frente que nem sempre dialogava comigo. O grande legado de 2020 para mim foi o aprendizado que me fez sair do que considerava como mais ou menos certo ou mais ou menos errado, para trilhar outros caminhos inimagináveis, e, no entanto, mais condizentes comigo mesma. Fronteiras abriram-se em mim. Sou uma pessoa que gosta de fronteiras. Já cruzei várias por esse mundão afora. E agora cruzo a mais difícil de todas, a que está em mim.

Hoje, sei na carne que posso alterar os planos antes projetados sobre mim e, às vezes, por mim mesma. Também aprendi (e aprendo) que esses (novos) planos não são necessariamente menores, nem menos valiosos. Eles pertencem à própria vida, aos seus contornos e entornos, às suas quebradas, às suas viradas, como aprendi nesse ano de 2020. Nada perdeu seu encanto, nem sua cor, muito pelo contrário. Agora, confirmo que olho para o copo meio cheio, ao invés de focar no copo meio vazio. É (também) uma questão de opção. Estou mais sábia, mais descansada e mais alinhada no meu ritmo. Acolho a calma que brota em mim, com um pouco mais de sabedoria.

Miro a sociedade e vejo que as possibilidades estão todas aí. Potenciais. Vejo que a verdade está estampada em todos os lugares. Ela saiu do porão. Está à vista, e não mais escondida nos olhares que desviamos, nas angústias que calamos, nas situações que não queremos ver. São muitas. O impensável que carregamos como grupo emergiu da escuridão, e ocupou o seu lugar ao sol. Na frente de todos nós. Aquilo que somos está cada vez mais estampado no que somos, no que fazemos, no que falamos, no que mostramos. Acredito de verdade que esse seja um novo e intenso caminho para conhecermo-nos mais, enquanto seres humanos, mas também enquanto sociedade que, por definição, é plural. Assim, apesar de não gostar muito (ainda tenho que trabalhar isso dentro de mim!), sei que a sociedade não é o que eu quero, e que essa mesma sociedade não conta apenas com pessoas que pensam como eu. A sociedade é construída por um conjunto de pessoas que vem de caminhos diferentes, que escolhem diferentes caminhos, que pensam de maneira diferente, que agem de maneira contrária, e que tem projetos diferenciados, que podem chocar os meus.

Enxergar e aceitar isso é difícil, embora eu reconheça a minha dificuldade em acolher (ainda!) plenamente essa visão das coisas. Esse ano de 2020 trouxe-me a complexidade do mundo. A dificuldade está em cada um de nós, está na nossa dura maneira de considerar o outro como inimigo. Da mesma forma, como na lei da ação e da reação, isso volta, e nós também somos considerados como inimigos pelos outros.

Acredito que essa visão da sociedade, dos seres humanos que a compõem encontra-se em um processo de revisão. As reivindicações brotam em todas as partes. A violência, o ultraje, a morte, o desrespeito, o racismo, o machismo, as relações tóxicas, a soberba estão aí, estampadas em todos os lugares. Tudo isso saiu do porão, como dito acima. O que as pessoas são é o que elas fazem e como elas agem. Isso está visível. Cada vez mais. Chegou a hora de vermos isso, e de fazermos propostas inovadoras para continuar com as alterações que vieram. As máscaras caíram, não apenas para alguns, mas para todxs. É difícil. Mas vamos lá! Propor, falar, gritar, embelezar-se, distanciarmo-nos, aproximarmo-nos. Não tenho respostas prontas. Mas sinto e sei que o caminho é por aí.

Ano Novo (Brasília), 1° de janeiro de 2021