JAIME BRASIL

Toda e qualquer ação desprovida de um filtro crítico está sujeita a resultar nos efeitos contrários aos inicialmente desejados. Sabemos, por exemplo, que a acumulação do capital aprofunda a pobreza de muitos mas, mesmo entre os privilegiados, isto é, dentre aqueles que se beneficiam com o crescimento da geração de riquezas, a abundância não tem se transformado necessariamente em satisfação. É que a dialética não pode apenas ser percebida objetivamente. Afinal, somos, antes de tudo, seres culturais capazes das maiores belezas e das mais terríveis atrocidades, justamente porque os valores culturais, as nossas subjetividades, são a base da construção das relações humanas.

A subjetividade é definidora do que chamamos de realidade.

Inebriados e iludidos estávamos nós e outros, bilhões de seres-humanos com nossas telas eletrônicas diante dos olhos, absorvidos pelas luzes, cores e sons que vinham construindo uma subjetividade até há pouco tempo indiscutível e arrebatadora. Tampouco estávamos satisfeitos e felizes com isso, pelo contrário, mais e mais homens e mulheres tornaram-se reféns de outros artifícios, desta vez necessários à manutenção de um mínimo de sanidade mental e motivação para viver. Daí que as fluoxetinas, paroxetinas, diazepans e afins tornarem-se nomes tão íntimos e comuns, como flores no jardim. As máquinas eletrônicas exigem mais do que uma atenção passageira, elas consomem a nossa existência em suas mais essenciais matérias-primas: o tempo e o espaço.

O consumismo, o entretenimento puro e simples, a informação aos borbotões, as notícias aos cântaros, toda essa “abundância” dispersava os sentidos, e tudo isso já parecia incontornável no cotidiano dos povos do mundo, absorvidos que estávamos pela dita internet. Era como se todos fôssemos robôs, parte dos sistemas eletrônicos e autômatos, sem tempo e nem espaço, flutuando em uma dessas “nuvens” de memória virtual. Mas, então, veio a pandemia…

A pandemia do Covid-19 é a consequência dialética da relação descontrolada do ser humano com a natureza. É a evolução tecnológica do homem sobre a natureza fazendo com que ela reaja. Cada vez mais voraz e destruidora, a humanidade tem conspurcado os últimos ecossistemas ainda intocados e, com isso, milhares de microrganismos até agora desconhecidos são ” libertados“, isto é, são lançados em novos ambientes, inclusive nas grandes cidades.

No século XIX, ainda tão distante que estávamos de imaginar que o capitalismo colocaria a biosfera em vias de colapsar, Friederich Engels escreveu:

Não fiquemos demasiado lisonjeados com nossas vitórias humanas sobre a natureza. Esta se vinga de nós por toda vitória desse tipo. Cada vitória até leva, num primeiro momento, às consequências com que contávamos, mas, num segundo e num terceiro momentos, tem efeitos bem diferentes, imprevistos, que com demasiada frequência anulam as primeiras consequências. As pessoas que acabaram com as florestas na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e em outros lugares para obter terreno cultivável nem sonhavam que estavam lançando a base para a atual desertificação dessas terras, retirando delas, junto com as florestas, os locais de acúmulo e reserva de umidade”. (Dialética da Natureza)

Da mesma forma, dialeticamente, esse terrível flagelo do Covid-19 nos fez lembrar e nos submeteu à nossa já aparentemente esquecida condição humana, biológica. Fez-nos recordar de que somos carne que verte lágrimas e reima, que a morte é, enfim, incontrolável, e que não há força artificial ou subjetiva que possa remediá-la.

O coronavírus, como consequência dialética da nociva objetividade humana, fez-nos redimencionar a nossa frágil subjetividade.

Se antes era certo que o mundo caminhava para o abismo com a sua busca de crescimento econômico ilimitado e a absurda e colossal acumulação de capital que o sistema capitalista proporcionava, agora está claro que precisamos ter uma outra relação existencial, de ação social e política para que possamos desviar definitivamente o planeta do colapso aparentemente irreversível.

E é de socialismo que precisamos, de ruptura e de utopias. Precisamos imaginar como podemos construir um outro mundo para que a vida prevaleça sobre a morte.

As derrotas das experiências socialistas aconteceram justamente como consequência dialética das escolhas objetivas que foram encaminhadas. Usaram dos mesmos valores, critérios e moldes para “concorrer” com as sociedades capitalistas e, claro, foram derrotadas pois não há como construirmos um mundo melhor e mais justo se usarmos a mesma régua que os capitalistas usam para medí-lo e julgá-lo.

As tentativas de construção do socialismo não tiveram sucesso até hoje porque nós ainda não entendemos a natureza da dialética, que os resultados de uma ação objetiva aparentemente positiva podem ser danosos no campo das subjetividades.

Pepe Mujica disse em entrevista sobre os anos recentes de ascensão da esquerda na América Latina: “Conseguimos, até certo ponto, ajudar a gente pobre a se tornar bons consumidores. Mas não conseguimos transformá-los em cidadãos.” Pois é.

Temos que parar de debater o mundo que queremos a partir dos horizontes impostos pela classe dominante. Nos limites das perspectivas dos conservadores não há saída, não há salvação, não há vida. Não podemos cometer os mesmos erros.

Os fascistas, e, por extensão, os negacionistas da ciência e da história, os condutores da morte, esses têm que ser expostos, denunciados e combatidos.

2021 nos dará a chance de saírmos dos escombros de um mundo que visivelmente não está dando certo nem objetivamente e bem subjetivamente. Um mundo em que a exploração e a desigualdade entre os seres humanos aumenta, onde as tensões bélicas se avolumam, onde a natureza é destruída ao ponto de, dialeticamente, vingar-se da humanidade liberando agentes patológicos na biosfera como no caso do novo coronavírus.

2020 é o registro definitivo do grande erro humano em explorar seus semelhantes, destruir a natureza, é a marca indelével da essência do capitalismo.

A natureza está doente por nossa culpa e, assim, fez-nos adoecer com ela, porque também somos natureza. Somos a causa e o resultado constante e dialético das nossas ações e das contradições que lhe são consequentes.

Façamos de 2021 a dialética revolucionária e necessária para a permanência da vida no planeta terra e para o futuro digno da humanidade.

Devemos ser mais que a negação de tudo o que está errado, devemos, em 2021, ser a síntese da esperança em um novo e melhor mundo para todos.