LUIZ ROSSI

Palavras iniciais. Publicaremos nesta edição, a análise do capítulo 6 do livro de Jason Stanley – “Como funciona o fascismo”. (Porto Alegre, L&PM, 2020, 4ª edição). A análise será realizada por capítulos, al[em da introdução e do epílogo. Publicaremos um texto por semana. Cada texto publicado constará de uma primeira parte com os principais conceitos e pontos levantados por Jason Stanley, momento em que a participação dos analistas será mínima. A segunda parte é de exclusiva responsabilidade dos autores desta análise. Trata-se de compreender o governo do presidente Bolsonaro a partir dos conceitos e opiniões de Jason Stanley: responder até que ponto o presidente Bolsonaro, lentamente e com segurança, está construindo um governo fascista no Brasil.

Palavras de organização. Não mudamos os grifos em negrito ou itálico e outros pontos presentes no livro. Fizemos a nossa citação quando precisarmos. Quanto à segunda parte, todos os negritos, aspas, itálicos e outros sinais são de responsabilidade dos três analistas, como não poderia deixar de ser.

A Introdução e os capítulos 1, 2, 3, 4 e 5 do livro de Jason Stanley foram publicados nas edições anteriores do TDED.

Vitimização (97-110)

Há uma ideia por parte dos brancos nos EUA, que a igualdade racial cresceu muito nos últimos tempos, quando, de fato, os negros ainda permanecem em situação de inferioridade, como a cem anos atrás. Isso provoca nos brancos uma sensação de que eles, brancos, são discriminados, o que é simplesmente um processo de vitimização, segundo Jason Stanley (p. 98).

Pesquisa realizada por Maureen Craig e Jennifer Richeson mostra a sensação sentida pelos brancos de que serão minoritários nos anos 2050, nos EUA. Os brancos tenderão a se aproximar de posições à direita. Para Jason Stanley, “a exploração do sentimento vitimização de grupos dominantes frente à perspectiva de ter que dividir cidadania e poder com grupos minoritários é um elemento universal da política fascista internacional contemporânea” (p. 99).

Kimmel, citado pelo autor, afirma: “uma característica curiosa nessas novas legiões de homens brancos raivosos: embora os homens brancos ainda tenham a maior parte do poder e do controle do mundo, esses homens brancos em particular se sentem vítimas” (p. 104).

Para o autor, “a propaganda fascista normalmente apresenta hinos pungentes diante de sentimento de angústia que acompanha a perda do status dominante. Esse sentimento de perda, que é genuíno, é manipulado na política fascista, transformando em vitimização e ressentimento e explorado para justificar formas de opressão passadas, atuais ou novas” (p. 102).

Kate Manne, no livro “Down girl” faz a distinção entre patriarcado e misoginia. De acordo com ela, “Patriarcado é a ideologia hierárquica que engendra expectativas irracionais de alto status. A Misoginia é o que enfrentam as mulheres que são culpadas quando as expectativas patriarcais não são cumpridas” (p. 105).

Os movimentos de libertação nacional ocorridos, principalmente após 1945, não são fascistas, são nacionalistas. “Essas formas de nacionalismo, em suas formações originais, são movimentos nacionalistas orientados para a igualdade”. Jason Stanley cita como exemplos, o nacionalismo negro nos Estados Unidos que surge “como resposta ao racismo. A luta de Mahatma Gandhi contra o império britânico”. Cita, também, o movimento pela independência do Quênia cuja religião do povo mau-mau – gikuyu – era tratada pelos colonialistas britânicos como primitiva e selvagem. A insurgência mau-mau considerava que a religião e tradição gikuyu deveriam ser respeitadas. “Esse tipo de nacionalismo, portanto, não é, em nenhum sentido, contrário à igualdade; na verdade, apesar de parecer o oposto, a igualdade é seu objetivo” (p. 100).

No cerne do fascismo está a lealdade à tribo, à identidade étnica, à religião, à tradição ou, em última palavra à nação. Mas, em acentuado contraste com uma versão do nacionalismo que tem a igualdade como meta, o nacionalismo fascista é um repúdio ao ideal democrático liberal; é o nacionalismo a serviço da dominação, com o objetivo de preservar, manter ou conquistar uma posição no topo de uma hierarquia de poder e status (p. 101, negrito nosso).

O autor mostra   exemplos de vitimização. Numa sociedade em que o homem considera-se superior à mulher, as mudanças históricas no sentido de que as mulheres passam a ter os mesmos direitos que os homens, esses poderão sentir-se vítimas. O autor conclui: “A retificação de injustas desigualdades sempre trará sofrimento àqueles que se beneficiaram de tais injustiças. Esse sofrimento será inevitalvelmente vivenciado por alguns como opressão” (p. 102).

Esse sentimento de vitimização relaciona-se à ideia ainda vigente de um passado mítico patriarcal, isto é, onde é homem era o senhor e o provedor da família. Kimmel afirma:

 “Essas ideias também refletem um anseio um tanto nostálgico pelo mundo passado, quando os homens acreditavam que poderiam simplesmente tomar seu lugar na elite da nação trabalhando duro e se esforçando. Infelizmente, tal mundo nunca existiu; as elites econômicas sempre conseguiram se reproduzir apesar dos ideais de uma meritocracia. Mas, isso não impediu os homens de acreditarem nisso. É o sonho americano. E quando os homens fracassam, são humilhados, sem ter para onde dirigir sua raiva” (p. 104).

Aqueles que empregam táticas fascistas, segundo Jason Stanley, aproveitam deliberadamente essa emoção, produzindo um sentimento de vitimização e ressentimento na população, direcionando-a a grupo que não é responsável por ele e prometendo aliviar esse sentimento com a punição desse grupo”. No caso dos Estados Unidos, os fascistas orientam os homens brancos “vítimas” a dirigirem sua raiva para a população negra e de imigrantes que, finalmente, não são responsáveis pela situação (p.105).

Jason Stanley chama a atenção para a direita israelense que utiliza o fato de que judeus foram violentados e oprimidos durante séculos para, na condição de vítima, Israel utilizar todo seu poder político e militar, violentando e oprimindo os palestinos, desalojando-os de suas terras seculares. Como vítimas no passado, a direita israelense agora utiliza os mesmos meios violentos para subjugar a população palestina. Segundo o autor, quando utiliza tal expediente, a direita “está recorrendo ao sentimento de vitimização para obscurecer a contradição entre uma luta por direitos iguais e uma luta por dominação” (p. 108).

Para concluir com Jason Stanley: “O nacionalismo está no cerne do fascismo. O líder fascista emprega um sentimento de vitimização coletiva para criar uma noção de identidade de grupo que é, por sua natureza, oposto ao ethos cosmopolita e ao individualismo da democracia liberal. A identidade do grupo pode se basear em diversos elementos – na cor da pele, na religião, na tradição, na origem étnica. Mas é sempre contrastando com um “outro”, contra o qual a nação se define. O nacionalismo fascista cria um “eles” perigoso, contra o qual devemos nos proteger, às vezes combater, controlar, a fim de restaurar a dignidade do grupo” (p. 109).

Como acontece a vitimização no governo Bolsonaro?

Jason Stanley afirma acima: “o nacionalismo está no cerne do fascismo”. Bom, pelo jeito da carruagem deslocar-se, tendo como comandante Jair Bolsonaro, o fascismo brasileiro é um fascismo às avessas. Ou melhor, é um fascismo cujo comandante é o presidente dos Estados Unidos, país com tradição ferreamente nacionalista. Bolsonaro, nos colocou de joelhos frente àquele país. Não temos nenhuma autonomia. Sendo assim, não somos nacionalistas durante o governo do Messias. Temos assim, um governo entreguista que oferece as nossas empresas públicas estratégicas às empresas ianques e a empresas capitalistas de outros países por preços camaradas.

A verdade precisa ser dita. O entreguista não é apenas Bolsonaro, embora em seu governo essa submissão aos Estados Unidos tenha se ampliado. Temos vários entreguistas à frente das principais instituições brasileiras. As Forças Armadas, com militares chefiando altos cargos do governo, a Câmara Federal e o Senado, cujos presidentes Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, aprovando leis contra a população brasileira. Ministros do Supremo Tribunal Superior dando cobertura jurídica a um conjunto de decisões claramente entreguistas. Esses personagens transformaram o Brasil em vassalo dos Estados Unidos.

O programa de treinamento de negros para ocuparem cargos de direção no Magazine Luiza (Magalu) foi objeto de ataques racistas. Os racistas afirmam que “o programa seria ilegal e racista”. A juíza do Trabalho Ana Luiz Fischer T. S. Mendonça, “afirmou no twitter que o programa era inadmissível”.  Ela afirma “Não vamos desistir”. Em: Brasil 247, de 22/09/2020 (acesso em 22/09/2020).

Pode se interpretar essas manifestações como o “perigo” da ascensão de pessoas negras em cargos da Magalu. Essa é uma manifestação clara de que essas pessoas sentem-se vítimas devido à possibilidade de que jovens negros competentes possam ocupar cargos na empresa e, é evidente, em outras empresas.

 “A ação afirmativa em sua melhor forma, foi concebida para reconhecer e lidar com a desigualdade estrutural” (Jason Stanley, p. 103). Quando os governos do PT adotaram a política de cotas (que é uma ação política afirmativa), a fim de possibilitar o acesso dos jovens negros e indígenas às universidades públicas brasileiras, tendo como objetivo principal superar a desigualdade histórica e estrutural vivida por eles, a reação de parte da classe média, e mesmo dos ricos, foi de que o governo estava privilegiando esses jovens, sem levar em consideração o mérito de cada um. Utilizando a conceituação do autor, podemos concluir que essas famílias que tinham a universidade como território de classe social, se sentiram “vítimas” dessa política governamental.

 Houve uma revolução em muitas universidades públicas, tornando-as mais coloridas. Essa política exitosa possibilitou a milhares de jovens das periferias e das florestas entrarem em universidades públicas e, como não esperavam os críticos, terem um desempenho igual aos alunos vindos dos vestibulares. A grande crítica de setores das classes médias e, diga de passagem também, dos ricos é que esses jovens não tinham acessado à universidade por mérito, mas por uma espécie de apadrinhamento do governo.

A ascensão dessa população mais pobre a um patamar minimamente digno não foi digerido pelas classes médias e pelos ricos via melhoria das condições econômicas, sociais e culturais. Houve muita crítica na época pelo fato de que “farofeiro” tivesse a ousadia de viajar de avião, esquecendo que esse espaço já era sinônimo de distinção de classe e, por isso, não poderia ser utilizado por gente com menos “finesse”. Situação semelhante aconteceu com os jovens da periferia, agora com dinheiro, que iam aos shopping comprar e se divertir e, por que não, só para divertir?

Por último, esse jovem enfrentava condições de adversas para estudar em comparação com filhas e filhos de famílias de classe média para não falar dos ricos, cujo filhos começavam a trabalhar somente ao término da universidade, lá pelos 22 anos e, veja, estou sendo, muito bondoso.

As críticas explícitas era de que recebiam uma “benesse” do governo ao entrar na universidade. A razão maior dessas crítica do fato de que as famílias, principalmente de classe média, perdiam nesse caso, também, o espaço de classe, construído numa sociedade extremamente desigual. Quando um número significativo de adultos e de jovens das periferias brasileiras ascendiam econômica, social e culturalmente entrava em choque com os espaços tradicionais, legitimados pela herança escravocratas, ocupados principalmente por famílias brancas.

As ações afirmativas, descritas acima, beneficiando negros e indígenas com as cotas; a possibilidade que pessoas pobres pudessem viajar de avião; jovens das periferias, entrando em shoppings para se divertirem e mesmo comprarem, eram ações que as populações de classe média e mesmo as ricas, sentissem-se incomodadas. Sentiam-se vítimas com essa intrusão, já que o espaço da universidade pública, do avião e dos shoppings eram espaços classe de classe e não comportavam pois a presença de pessoas pobres das periferias. A vitimização acontece nesse momento.

Será que o feminicídio, perpetrado no Brasil principalmente pelos maridos e amantes, até certo ponto não constitui uma revanche pelo fato de que as mulheres têm adotado cada vez mais posições contra o mundo patriarcal – isto é, lutam contra o domínio exclusivo do homem na casa e no trabalho? Sentindo-se vítimas e não sabendo canalizar esse sentimento, os homens apelam para a violência contra a mulher.

Veja abaixo, trecho da reportagem sobre o feminicídio cujo título é “Brasil é o 5º país em morte violenta de mulheres no mundo”. A reportagem é de responsabilidade de Carolina Cunha, da Novelo Comunicação, publicado no Portal UOL, s/data (acesso em 31 de outubro de 2020).

Você já ouviu a expressão ´o machismo mata`? Poucas vezes nos questionamos sobre o que está por trás da morte violenta de uma mulher. A palavra ´feminicídio` se refere ao assassinato de mulheres e meninas por questões de gênero, ou seja, em função do menosprezo ou discriminação à condição feminina. Isso não indica, no entanto, que toda mulher assassinada é vítima de feminicídio. Trata-se de um crime de ódio, no qual a motivação da morte precisa estar relacionada ao fato de a vítima ser do sexo feminino”.

As mortes violentas por razões de gênero são uma fenômeno global e vitimizam mulheres todos os dias, como consequência da posição de discriminação estrutural e da desigualdade de poder, que inferioriza e subordina as mulheres aos homens”. 

O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. Em comparação com países desenvolvidos, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes mais que a Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia”.

Com a pandemia e a política ou a ausência de uma política coerente do presidente Bolsonaro, o feminicídio acentuou-se no Brasil. A obrigação do isolamento social durante a pandemia obrigou que o casal permanecesse trancado dentro do ambiente familiar, ocasião em que, em muitos casos, o ódio patriarcal se manifestasse com o assassinato da mulher, esposa ou namorada. Muitos homens não conseguem superar a condição de vítimas, com a perda de seu papel de exclusividade do controle do corpo feminino e partem para a violência extrema e final.

                                                      Aracaju, novembro de 2020