JAIME BRASIL

O refúgio é a última opção do imigrante e a xenofobia é o último refúgio do fascista.

Quem não é imigrante neste mundo?

Por acaso a história das civilizações não é exatamente a história das movimentações dos povos sobre a crosta terrestre e através dos mares? Entre os rios Tigre e Eufrates, lembram? A Mesopotâmia nasce do ajuntamento de gentes vindas do extremo oriente, do sul da África, da Europa, do oeste saariano. Ali nasceu o que chamamos de cultura ocidental.

Pois é, é assim que nascem as grandes civilizações: com a troca de conhecimentos entre diferentes povos. Mas, também troca de experiências, de linguagens, percepções, de vida. Todas nasceram da permuta e da mistura.

A história do mundo é a história dos que caminharam e navegaram, dos que andam e flutuam, dos que se encontram nos entroncamentos, nas encruzilhadas. Essa é a nossa história, a única que há.

Mas, o xenófobo só pensa na sua pequenez, na sua mediocridade existencial, no seu falso conforto de quem acha que é “daqui”, e acredita que o mundo acaba ali no seu muro, no seu cartão de crédito, no seu espelho.

Quem é daqui? E quem apenas está aqui? Ser e estar são possibilidades incríveis, mas são verbos que somente existem separadamente em poucos idiomas, como o português e o espanhol. Em inglês, francês e alemão, por exemplo, estar é ser.

O que chamamos de civilização é justamente essa tentativa de irmos para além dos nossos instintos primitivos, do nosso ID cego, dos nossos impulsos egoístas e dominadores. Civilização é a tentativa de construções de valores que façam do mundo humano algo melhor do que o mundo natural onde, quase sempre, o mais forte e adaptado vence e destrói o mais fraco. Em uma civilização verdadeira mais vale as qualidades (competitivas ou não) de cada um, mas vale o organismo social com seus princípios do que os interesses mesquinhos e cínicos de um ou de outro.

É justamente por isso que o xenófobo tenta atacar os valores civilizatórios: a solidariedade, a igualdade, o reconhecimento da importância do outro, a empatia, o acolhimento, o amor.

Todo fascista é xenófobo, e, por ser xenófobo, é também canalha.

O xenófobo é canalha porque joga as sua mesquinhez, mediocridade e frustrações nas costas de alguém: do “outro”. Assim fizeram Hitler, Mussolini, Franco e todos os nazifascistas. Escolher alguém que está mais fraco para pôr a culpa do que está indo mal na sociedade, pois bem, essa é a lógica clássica dos canalhas.

O xenófobo é canalha porque crê-se diferentemente superior. Ele procura diferenças em cada detalhe. Ele olha para a cor da pele, para o idioma, para os trejeitos, as roupas e não sabe se enriquecer com as diferenças dos “outros”.

O xenófobo é canalha porque é covarde. Atrás de discursos políticos, sociais, falaciosamente comparativos e até religiosos, o canalha finge bom senso para destilar o mais raso egoísmo. É covarde porque não assume que é xenófobo. Assim como o xenófobo nunca se acha semelhante ao imigrante, ele também nunca se acha semelhante a outro xenófobo. O xenófobo sempre acha que o “outro lá” é que é. 

A xenofobia é o pior dos preconceitos, porque nele o canalha consegue somar muitos outros: a cor da pele, a crença religiosa, o idioma, os costumes, a etnia. Tudo serve para que o xenófobo justifique dissimuladamente sua covardia e sua canalhice.

Você acha, realmente, que algo material, físico, pertence a você?

Nem tempo, nem espaço, nem nada que exista e ocorra em um e no outro, nada é nosso. Nem seu.

Como bem pode-se tirar do velho ditado: os cachorros ladrarão e junto com eles os canalhas, covardes e xenófobos ladrarão, mas as caravanas cheias de gente e de vida passarão e criarão novos jeitos, novos sonhos, novas línguas, novos sons, novos sabores. Novas vidas.

Nós também somos refugiados. Refogados nos suores frios da madrugada, afogados no destempero da angústia em conserva.

Estamos presentes nos hiatos, nos intervalos, no instante adormecido, nas palavras a tempo guilhotinadas, nas paradas bruscas, nos lusco-fuscos, nos moluscos mais moles, naquilo que engolimos sem mastigar.

Percorremos o caminho traçado pela emenda do azulejo que estilhaçara, pelas folhas secas que cruzaram oceanos.

Não ansiamos por termos vidas exemplares, para não nos saturarmos de caridoso tédio à beira mar. Eles são desses.

Somos daqueles outros.

De calcanhares rachados e pelos saindo das narinas, de indisposição fraterna e misantropia gregária, buscamos manter as mãos sobre os sexos alheios e os olhos no infinito.

Somos os párias da certeza, o desgarramento da dúvida, a incredulidade esculpida no sabão.

Porque nascemos, estamos à deriva.”

Jaime Brasil

Novembro de 2020