Antônio Sergio Borba Cangiano

Bacharel em Economia e Ciência de Computação pela Unicamp

Mestre em Engenharia de software pela USP

Mestrando em Filosofia pela UnB

“As lagrimas jorram, a terra tem-me novamente”  – Fausto

Incrível como em pleno século XXI, com toda a tecnologia disponível, principalmente nas tecnologias de comunicação, não conseguimos estar à altura dos acontecimentos relativos à pandemia. Fake News, mentiras, fatos distorcidos, negação da ciência, falsos conflitos, juntos com uma práxis fora da normalidade onde os problemas vitais afloram e se multiplicam em todos os planos existenciais, como saúde, emprego, renda, e sobrevivência, não se consegue criar alternativas fora do modo usual que produz a gaiola sistêmica[1] que nos tem levado ao abismo da exaustão do planeta e de nossa própria vida. Após quase um ano de anormalidade pandêmica, ainda não se configuram dispositivos alternativos fortes o bastante para mudanças estruturais que possam-nos mostrar novos rumos sustentáveis, para uma vida plena, livre dos medos que nos afligem, ou seja, não estamos capazes de aproveitar as rachaduras expostas de um modo de viver condicionado pelo capitalismo em seu movimento ilimitado de acumulação injusta, se ainda podemos conceber fortes conceitos relacionados à justiça.

Criamos ao longo de nossa vida percebida, culturas baseadas em crenças abstratas, colhidas em percepções cotidianas, que nos fazem crer que outros modos de existência não estão ao alcance enquanto vivermos. As revoltas, transgressões, desobediências, mesmo quando são formas de reação às ameaças à vida, são produzidas apenas por minorias que não conseguem a amplificação necessária na mídias, nos relacionamentos em redes, que possam influir em consciências coletivas, que possam fertilizar o pensamento e constituir-se em amplos planos de mudanças políticas, do direito, da economia, que possam renovar nosso modo de vida apontando um outro plano de evolução com rumo e potência suficientes para sair das crises provocadas pelo próprio capitalismo, e apropriadas por ele. 

O neoliberalismo, face exposta do capitalismo, perpetua as causas e efeitos em nossa existência temerária presa nessa gaiola que nos esgotam (HAN, 2017). Será que outro modo de vida é possível? Ou é preciso que emergências maiores que a pandemia do Covid-19 estejam presentes para ainda com mais virulência ameaçar nossos corpos e mentes, para que consigamos romper essa gaiola sistêmica que nos empurra rumo ao abismo. O corpo resiste à morte, mas na abstração do corpo, o aculturamento em falsas crenças de progresso técnico, de criatividade, inovação, empreendedorismo, liberdade, nossos corpos nos parecem imortais, mas novas doenças afloram, e demonstram que algo não está bem.

Para pensar nossa vida imanente, a nossa existência, é preciso voltar-nos para pensadores contemporâneos como Foucault com os conceitos de biopolítica[2], governamentalidade[3], ou Deleuze com os conceitos de Sociedade de Controle, Máquinas Desejantes, Corpo sem Órgãos, Devir mundo (DELEUZE GILLES, 1992). Desses filósofos da vida poderemos ter pistas dos porquês estamos presos nessa gaiola capitalista, em sua face neoliberal, que produz tsunamis de acontecimentos que mais nos amedrontam, que nos permitem pensar livremente para inovar nossa democracia, nossas instituições, o direito, a política e a economia. Somos bombardeados até ao esgotamento (HAN, 2018) pelo trabalho, família, informações, entretenimento, notícias. Estamos inevitavelmente plugados nas redes. A face neoliberal do capitalismo financeiro associado ao poder de Estado unificados, produz a conduta de nosso comportamento, acusamos o estado dos problemas do desemprego, da saúde precária, da educação insuficiente, das instituições falidas ou corrompidas, restando que as utopias estão mortas. A nossa mentalidade está governada por uma constante produção da falta, produzida e injetada em nós, pelo marketing moderno fundado no big data, na psicometria, na estatística processada por inteligência artificial em algoritmos rodados em fantásticos processadores em rede (HAN, 2014).

         Não existe mais o fora do sistema, fora da gaiola, dezenas de milhares de satélites estão, como olhos a ver-nos do espaço além da estratosfera, com olhos que vêm, conecta e processa trilhões de nossos dados, em um mundo onde se perdeu o conceito de justiça. Em um mundo de iniquidades, intolerante às diferenças de raças, à orientação sexual, entre as religiões, onde se mata, se agride, se produz afetos tristes contrários à nossa potência e contra o conceito de amor divino. Os conceitos que deveriam constituir bases filosóficas do pensamento contemporâneo, estão apropriados pelo merchandising, ligados à circulação da mercadoria, produzindo falta, vazios de consumo desejos inatingíveis pela imensa maioria dos sete bilhões de viventes (LYOTARD, 2012). O planeta é constantemente esgarçado pela extração, emissão de poluentes, o ar,  a água a terra frequentemente consumidas pelo fogo, apropriados pela ganância, todos elementos sob impactos tristes do momento antropocentrista contemporâneo em que estamos metidos, estamos perdidos em nossa fragmentação dispersa sem vislumbrar linhas de fuga possíveis que possam gestar um devir mundo com toda a potência natural de criação humana de afetos alegres, baseados no amor, no amor mundi, no amor fati, que possa romper a gaiola e proporcionar rumos de compreensão, respeito às diferenças culturais, liberdade de pensar e de expressar, de respeito ao outro, independente de cor, da pobreza, de diferenças  culturais quaisquer, refundar a democracia, hoje apropriada pelos negócios, pelas finanças nacionais e internacionais.

Em uma obra de juventude, Diferença entre os sistemas filosóficos de Fichte e de Scheling, (1801), Hegel escreve: “Quando a força de unificação desaparece da vida dos homens, quando as oposições perderam sua relação e sua interação vivas e adquiriram autonomia, nasce a necessidade da filosofia”,  No século XVIII, Hegel, que viveu a Revolução Francesa, nos dizia da fragmentação em que vivemos hoje, sofremos da Síndrome da Fadiga da Informação, SFI, o cansaço da informação (HAN, 2017), toda a comunicação marketeira, produtora de falsos conceitos, a totalidade do que é veiculada nas redes sociais, tem como maior objetivo, chamar a atenção, bizarrices, falsos humores, falso erotismo, falso romantismo, causam a enfermidade do século, o excesso de informação, geralmente inúteis. Alguns reclamam da profusão das variadas análises, reclamam do déficit de atenção, a que renegam pelo esforço de se manter informado, em um oceano de conspirações, fake news, pela aparente velocidade do tempo, que acompanha a fragmentação sem fios condutores que possam no mínimo promover análises contextualizadas, que possam produzir conhecimento, ou seja, pensar. Certamente o pensar pode melhor contribuir para o devir humano criativo de transformações.

Pensar não é possível nessas condições de disputa de atenção nas redes, é preciso tempo, é preciso esvaziar a mente para criar. Os debates de opiniões, para Deleuze, é uma conversa de idiotas, o pensar é muito mais que isso. Talvez precisemos de mais tempo, de mais silêncio, de menos redes sociais, para então podermos pensar. Hoje mais que nunca é preciso que estejamos capazes de alcançar os acontecimentos que nos empurram para o abismo, visualizar as rachaduras provocadas pela pandemia, e sermos capazes de reagir, de alterar o curso de nossas existências futuras.


[1] Gaiola sistêmica é um termo que designa os acontecimentos sistêmicos que produzem crenças que se realimentam e não oferecem saídas ou alternativas que possam dar conta efetiva dos problemas que ofendem a todos e ao planeta.

[2] Biopolitica foi usado por Foucault em conferencias para mostrar que a politica governa a vida, a impacta, inclusive com a pena de morte, infligindo punições aos corpos domesticados – Vigiar e Punir.

[3] Governamentalidade foi criada por Foucault para designar o governo que gesta a mentalidade, ou seja que rege a conduta de seus cidadãos, de acordo com interesses dominantes.


 Bibliografia

DELEUZE GILLES, G. F. Conversações. 1992. ed. [s.l: s.n.]

HAN, B. Psicopolitica – O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. 1a. Edição ed. Belo Horizonte: Pedro Fonseca, 2014.

HAN, B. Sociedade do Cansaço. 1a. reimpr ed. Petropois: Gilberto Gonçalves Garcia, 2017.

HAN, B. No enxame – Perspectivas do Digital. 2019 reimp ed. Petropolis: Editora Vozes, 2018.

LYOTARD, J.-F. Por Que Filosofar. 1a. edição ed. Paris: Marcos Marciolino, 2012.