Jaime Brasil

“Há uma religião a divisar no capitalismo, isto é, o capitalismo serve essencialmente à satisfação das mesmas preocupações, tormentos e inquietudes aos quais outrora davam respostas as chamadas religiões.” Walter Benjamin (1892/1940).

Para muito além das religiões e igrejas que combatem as esquerdas e os socialistas, temos no próprio capitalismo a maior de todas as religiões.

E se o capitalismo é uma religião, como sugeriu o filósofo Walter Benjamin, certamente é uma religião que levará a humanidade ao inferno real, aqui mesmo na Terra.

O que leva um ser-humano a desejar ser bilionário? Sendo o mesmo ser físico em todo o planeta, com os mesmos cinco sentidos e as mesmas 24 horas ao dia para viver, pergunta-se: qual a justificativa para se querer acumular cada vez mais riquezas se o acumulador já nem sequer consegue usufruir de um milionésimo do que possui?

Precisamos denunciar a aberração que é o modo de produção capitalista. Não apenas uma aberração objetiva, mas também uma aberração que naturaliza aberrações subjetivas.

O que sustenta um sistema que deteriora a imensa parte dos tecidos sociais dos povos do mundo e que leva a biosfera ao colapso? É quase unânime a percepção de que a maneira que estamos vivendo tem nos tornado cada vez mais infelizes. Mesmo os considerados muito ricos padecem de transtornos mentais que há 50 anos eram exceção, a exemplo da depressão e da ansiedade. Assim, por que a humanidade segue adoecendo e não rompe com a fonte de suas mazelas?

Neste mês de outubro, entramos de cabeça no jogo eleitoral das eleições municipais, onde sabemos que iremos sair derrotados, mesmo se vencermos, pois se vencermos teremos como máxima missão humanizar o capitalismo, algo que, diga-se de passagem, é impossível.

A esquerda precisa voltar a ser internacionalista, revolucionária e socialista.

Internacionalista porque Marx anteviu que não há como derrotar o capitalismo isoladamente. No máximo, como no caso dos valorosos revolucionários zapatistas do México, conseguiremos viver na periferia do sistema, com dignidade, mas com enormes dificuldades de avançar e até mesmo de sobreviver. Internacionalista, porque absolutamente todas as experiências socialistas até hoje acabaram por ceder aos interesses nacionalistas-expansionistas, como no caso da União Soviética ou foram bombardeadas até a morte pela imensa máquina ideológica e econômica dos países capitalistas ricos; quando não, transmutaram-se em tiranias ou mesmo em modelos perfeitos da exploração do homem pelo homem, a exemplo da China.

Talvez os povos do mundo tenham percebido, até inconscientemente, que nós da esquerda erramos e temos insistido no erro de querer destruir o sistema que nos destrói alimentando-o com a nossa pacífica participação gerencial e reformista. Talvez os povos do mundo estejam esperando, e gestando, os verdadeiros transformadores e salvadores da existência humana neste planeta que ainda virão.  

O consagrado filósofo Slavoj Zizek declarou em uma de suas entrevistas: “O capitalismo é uma categoria ética/religiosa pra mim…um capitalista ideal está pronto a apostar a sua vida, a arriscar tudo só para produzir crescimento, aumento e circulação de capital. Sua felicidade pessoal é totalmente subordinada a isso. Acho que era isso que Walter Benjamin, grande companheiro e pensador da Escola de Frankfurt, tinha em mente ao dizer que o capitalismo é uma religião…O que me choca é que a maioria dos críticos do capitalismo se sentem mesmo envergonhados, embaraçados, quando você coloca a seguinte questão: ‘Ok, nós ouvimos sua história…protestos, grandes bancos nos privando de bilhões, centenas, milhares de bilhões do dinheiro do povo. Ok, mas o que vocês realmente querem? O que deve substituir o sistema?’ e então entram em uma grande confusão, você recebe uma resposta moralista genérica…ou algum tipo de keynesianismo vago, social-democracia…”  

Nós temos como propor um novo mundo. Com a tecnologia disponível hoje, temos como defender e efetivar a construção de um mundo confortável para todos, desde que os esforços científicos sejam voltados para a durabilidade dos produtos e para a redução da necessidade do tempo a ser trabalhado pelos seres-humanos. Podemos nos valer dos robôs, dos sistemas integrados, da inteligência artificial etc., tudo isso que foi construído pelos trabalhadores e trabalhadoras em milênios e colocá-lo a serviço da coletividade e da humanidade e não apenas deixá-lo a serviço da acumulação de capital de uma meia dúzia de fanáticos religiosos, donos das grandes corporações, e que tem o dinheiro como único deus intocável.

Não devemos defender o pleno emprego, mas sim a vida plena; não devemos querer uma renda mínima, mas sim a renda máxima; não é papel da esquerda justificar institucionalmente a vitória do capitalismo, seja nas eleições, seja em qualquer outro sistema em que as orações dos devotos capitalistas seduzem incautos companheiros e companheiras e que muitas vezes acabam por convertê-los aos propósitos destrutivos do capitalismo, sem que muitos notem.

Zizek segue: “O momento é de reflexão. Eu mesmo provoquei alguns amigos da esquerda quando eu disse que a famosa fórmula marxista era: ´filósofos apenas interpretaram o mundo até aqui, é hora de mudá-lo, tese 11 de Feuerbach’ …talvez hoje devamos dizer que no século XX tentamos mudar o mundo rápido demais, a hora é de interpretá-lo novamente, começar a pensar.”

Quando tivermos a consciência necessária e as propostas certas para a libertação dos povos e para a preservação da vida no planeta, seremos ouvidos e teremos o apoio dos povos do mundo novamente.                                                                        

Boa Vista, Roraima, outubro de 2020