Luiz Rossi

                                                        Omar dos Santos

                                                       Nonato Menezes

Palavras iniciais. Publicaremos nesta edição, a análise do capítulo 2 do livro de Jason Stanley – “Como funciona o fascismo” (Porto Alegre, L&PM, 2020, 4ª edição). A análise será realizada por capítulos, além  da introdução e do epilogo. Publicaremos um texto por semana. Cada texto publicado constará de uma primeira parte com os principais conceitos e pontos levantados por Jason Stanley. A participação dos autores analistas, nessa parte, será mínima. A segunda parte é de exclusiva responsabilidade dos autores desta análise. Trata-se de compreender o governo do presidente Bolsonaro a partir dos conceitos e opiniões de Jason Stanley: responder até que ponto o presidente Bolsonaro, lentamente e com segurança, está construindo um governo fascista no Brasil.

Palavras de organização. Não mudamos os negritos ou itálico do livro. Faremos a nossa citação quando necessário. Na segunda parte do texto, todos os negritos, aspas, itálicos e outros sinais são de responsabilidade dos três analistas. Encontram-se publicados nas edições anteriores, a Introdução e o Capítulo 1: O passado mítico.

Propaganda (p. 37-47)

Os movimentos fascistas divulgam notícias falsas, acusando os adversários de serem corruptos, mas uma vez no governo, tendem a ser mais corruptos ainda.

Para Jason Stanley, “divulgar falsas acusações de corrupção enquanto se envolvem em práticas corruptas é típico da política fascista. Assim as campanhas anticorrupção estão frequentemente no centro dos movimentos políticos fascistas.

Políticos fascistas geralmente condenam a corrupção no Estado que querem assumir, o que é bizarro, uma vez que os próprios fascistas são invariavelmente muito mais corruptos do que aqueles que eles procuram suplantar ou derrotar” (p. 38).

O historiador Richard Gruberger afirma:

A corrupção, era de fato, o princípio organizador do Terceiro Reich, e, no entanto, muitos cidadãos não apenas ignoravam esse fato como, na verdade, consideravam os homens do regime como austeramente dedicados à probidade moral” (p. 38-39).

Compreender “a intenção não democrática por trás da propaganda fascista é fundamental”. A propaganda fascista tem como objetivos: desarticular o Estado de Direito; substituir o Estado de Direito por chefes de partido ou governantes individuais; atacar duramente o Poder Judiciário acusando-o de ser indulgente e parcial (o que se configura como um tipo de corrupção); e, por último, substituir no Judiciário pessoas independentes por pessoas “fechadas” (p. 40-41).

Em nome da erradicação da corrupção e da suposta parcialidade, os políticos fascistas atacam e desqualificam as instituições, que, já que essas poderiam cercear seu poder”. A política fascista promete “proteger a liberdade geral e as liberdades individuais, mas para isso ela, a política dos fascistas, defende a necessidade do uso da opressão a alguns grupos sociais como recurso legítimo na defesa de tais liberdades”. (p. 41)

Para Jason Stanley, “um princípio central da política fascista é o de que o objetivo da oratória não deve convencer o intelecto, mas influenciar a vontade”. Jason Stanley anota que um autor anônimo, em 1925, escreve em uma revista fascista italiana:

O misticismo do fascismo é a prova do triunfo. O raciocínio não atrai, a emoção sim” (p. 64)

Ele continua:

Hitler escreve que é um grande mal-entendido considerar a linguagem simples como estúpida. Ao longo de Mein Kampf, Hitler deixa claro que o objetivo da propaganda é substituir o argumento fundamentado pelos medos e paixões irracionais”.

Steve Bannon, citado pelo autor, guru de Trump e de Bolsonaro, no momento preso nos EUA por desvio de dinheiro, afirma:

A raiva e o medo é o que leva as pessoas às urnas” (p. 65)

A política fascista procura degradar e rebaixar a linguagem da política; a política fascista procura, assim, mascarar a realidade”. Jason Stanley, citando Victor Klemperer em livro de 1947, afirma que “Adolfo Hitler foi muito explícito sobre a importância de empobrecer o discurso público dessa maneira”. Nesse livro, chamado A Linguagem do Terceiro Reich, Klemperer denomina a linguagem do nacional nacionalismo de “LTI (abreviação de Língua Tertii Imperii)”. Afirma, o autor que a “LTI é destituída recursos elaborados. Sua pobreza é crítica: é como se tivesse feito voto de pobreza” (p. 63).

Klemperer, segundo Jason Stanley, afirma:

Toda linguagem capaz de se afirmar livremente preenche as necessidades humanas, serve tanto à razão quanto à emoção, comunicação e conversação, solilóquio e oração, pedido, comando e invocação. A LTI serve apenas à causa da invocação (…). O único propósito da LTI é tirar todo mundo de sua individualidade, paralisá-los como personalidades, convertê-los em gado irracional e dócil num rebanho conduzido e perseguido numa direção específica, transformá-los em átomos num enorme bloco de pedra. A LTI é a linguagem do fanatismo de massa” (p. 64).

Klemperer sintetiza o capítulo do livro Mein Kampf sobre propaganda da seguinte forma:

Toda propaganda deve ser popular e deve adaptar seu nível intelectual à capacidade receptiva do mesmo intelectual daqueles a que se deseja abordar. Assim, deve afundar sua elevação mental em proporção aos números da massa que deseja agarrar (…). A capacidade receptiva das massas é muito limitada, e sua compreensão é pequena; por outro lado, elas têm um grande poder de esquecer. Sendo assim, toda propaganda eficaz deve limitar-se a pouquíssimos pontos que devem ser destacados na forma de slogans”(p. 63-64)

Jason Stanley cita o discurso de Frederick Douglass, ex-escravo norte-americano, que fala em homenagem ao dia da Independência dos EUA (4 de julho), iniciando com as homenagens à liberdade que devem ser celebradas nesse dia. Na segunda parte do discurso afirma:

Arrastar um homem em grilhões para o grande templo iluminado da liberdade e convocá-lo para se juntar a vocês em alegres hinos era uma zombaria desumana e uma ironia sacrílega. Vocês pretendem zombar de mim, cidadãos, pedindo-me para falar hoje?” (p. 42)

Douglass chama a atenção para a hipocrisia de um país (os EUA) que pratica a escravidão humana enquanto celebra o ideal da liberdade”. Os negros e indígenas ianques (para Jason Stanley) “não eram recipientes adequados para os bens da sociedade. Eis uma ideologia fascista clássica, com uma hierarquia de valor entre as raças” (p. 42)

Qual é o papel da propaganda para Bolsonaro?

Como aprendiz de fascista, a propaganda do presidente Bolsonaro não serve para tornar o humano mais completo, mais digno, mais inteligente, mais íntegro. Não é para defender a democracia. Não é, também, para louvar as três palavras mágicas: liberdade, igualdade e fraternidade, que enobrecem e tornam o ser humano mais humano. Para o presidente, estas palavras são perigosas e devem ser banidas do ideário fascista.

Ao contrário, é muito interessante observar que o seu discurso é caracterizado pela presença, sempre exagerada, do uso de gírias grosseiras, ditados do senso comum e anedotas de mau gosto. É possível que o presidente se utilize desse tipo de linguagem por acreditar, e isso é próprio dos fascistas, que assim se comportando conseguira capturar a simpatia do povo mais simples e se tornar um líder das massas.     

Os brasileiros que acompanham atentamente as falas em forma de propaganda do presidente e não sucumbem aos ódios espalhados pelas mídias sociais e por manipulações religiosas sabem que a linguagem presidencial é pobre, rasteira, plena de ressentimentos, vazias de gratidão e amor. Servem para espalhar petardos virulentos contra jornalistas, fazer insinuações sexuais contra as mulheres jornalistas, distorcer as decisões de prefeitos e governadores sobre o controle da Covi-19 e, por último, para adular militares da reserva e da ativa para governarem o país em seu nome, através de uma junta militar informal.

Não só pelo discurso, mas muito mais pela ação, o presidente Bolsonaro procura separar o Nós, os “virtuosos” como ele, do Eles, os “parasitas” como negros, indígenas, quilombolas. Essa postura, que se efetiva na linguagem e na ação serve para consolidar dois tipos de sociedades: a “pura”, representada por seus seguidores e a “impura”, definida como aqueles que se lhe opõem, como os antifascistas, os indígenas, os quilombolas, os negros e, não se podendo esquecer, as mulheres, que no mundo patriarcal, devem gerar e cuidar das crianças, cuidar da casa e satisfazer os desejos sexuais do homem.

Muito importantes também são os sintomas de fascista evidenciados pela conduta do presidente em relação à população mais pobre, aos deficientes e aos indigentes do país. Em vários momentos ele tem manifestado, tanto por palavras quanto por atitudes, sua insensibilidade, que chega a quase a ódio, pelo destino desses segmentos sociais. Em algumas falas, o presidente dá a entender que o fracasso da administração deste país é culpa desses cidadãos, o que caracteriza uma completa inversão de responsabilidade, já que como sabemos todos, esse estado de coisas é fruto de governos com o dele.     

Bolsonaro tem utilizado o medicamento cloroquina, mil vezes dito ineficaz para a cura da Covid-19 pela ciência, como propaganda. Esta postura tem provocado enorme desinformação e tremenda incerteza no povo brasileiro. Essa é uma das razões, dentre outras, das mais de 143 mil mortes provocadas pelo Coronavírus, que deve ser creditada ao presidente da República. Vejamos abaixo algumas citações que caracterizam esse tipo de propaganda. Serão apresentadas pela ordem: das mais antigas para as mais recentes.

O Jornal do Comércio de 7 de março de 2020 reporta informações sobre propaganda do presidente.

Propaganda do Planalto pede fim de isolamento, e Bolsonaro posta vídeo de carreata ‘auto confinamento’”. (acesso em 26 de agosto de 2020).

O jornalista Augusto Fernandes, do Correio Braziliense, na edição de 21 de maio de 2020, faz as seguintes observações sobre a propagando do presidente.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem dito que a onda de desemprego causada pela crise sanitária será mais grave do que a própria pandemia em si”.

Durante vídeo conferência com líderes católicos e deputados da Frente Parlamentar Católica Apostólica Romana nesta quinta-feira (21/05), o presidente disse não haver motivo para tanto alarde da doença. De acordo com Bolsonaro, a Covid-19 deveria causar preocupação apenas a idosos e às pessoas com doenças pré-existentes” (acesso em 26 de agosto de 2020).

O jornalista Leonardo Sakamoto, do Portal UOL, em 24 de junho de 2020, traz as seguintes informações sobre as atitudes do presidente.

Ao não usar máscara e lutar pelo privilégio de não usá-la, ele menospreza o tamanho da crise e as ações que devem ser tomadas para mitigá-la”.

Um médico socorrista do SAMU me disse que toda vez que vê Bolsonaro lançando perdigotos sobre aglomerações de seguidores na capital federal, sente-se como se o presidente lhe desse um forte soco no estômago”.

E jornalista Sakamoto complementa a fala conclusiva do socorrista:

Estou arriscando minha vida pra que, se, do outro lado, o chefe da nação está em campanha pelo Coronavírus”. (acesso em 26 de agosto de 2020).

O jornalista Flávio Murakawa do jornal Valor Brasil, na edição do dia 19 de julho de 2020, divulgou várias informações sobre a propaganda do presidente Bolsonaro em relação à cloroquina, que podem ser vistas em seguida, destacando o desapreço e o desprezo que ele tem pela saúde das pessoas. Escreve ele:

Em determinado momento, Bolsonaro retirou uma caixa com Cloroquina, remédio que adotou como bandeira política no combate ao Coronavírus, e a ergueu como um troféu para a plateia”.

Em várias ocasiões, baixou a máscara facial para falar, o que anula a proteção oferecida pelo dispositivo para evitar que uma pessoa infectada transmita doença”.

O presidente baixou a máscara para falar com apoiadores, contrariando recomendações de autoridades sanitárias, e fez propaganda de Cloroquina, remédio que não tem comprovação científica para tratamento da doença”(acesso em 26 de agosto de 2020).

O jornalista Breno Altman, editor do Ópera Mundi, declarou ao Portal Brasil 247, em 23 de agosto de 2020, que dois fatores explicam a melhoria da aprovação de Bolsonaro nesses últimos tempos.

O primeiro refere-se, segundo Altman, à “renda mínima emergencial” e o segundo à perda do emprego. A população mais pobre vivia e vive uma grave crise em duas dimensões: de um lado, o agravamento da precariedade da situação econômica pela perda de renda, e de outro, o desemprego galopante. Esses dois fatores na opinião do jornalista, suplantaram o medo da pandemia que já matou mais de 143 mil pessoas e causou uma incomensurável tragédia.

Ele afirma que “a chegada de uma renda mínima de R$ 600,00, que não é pouca coisa nesses setores, fez aparecer ali o Bolsonaro com um cantil de água para quem estava morrendo de sede”. Com essa água emergencial, que não foi iniciativa dele, o chefe do governo federal ganhou o apoio dessas pessoas.

O jornalista afirma que o medo de morrer não provocou um choque na sociedade e ela justifica sua posição:

Com 130 mil mortes as pessoas estão indo aos bares, aos restaurantes, às praias, saindo às ruas. É a naturalização da pandemia. O Bolsonaro apostou na naturalização da pandemia e ganhou a aposta, porque ele imaginou, e corretamente, que o medo das pessoas em relação a perda de renda e de emprego seria maior do que o medo em relação a Covid 19” (acesso em 23 de agosto de 2020). (negrito nosso).

Bolsonaro se utilizou, já em janeiro de 2018, propaganda feita em outdoor na cidade de Paulo Afonso, Bahia, segundo o últimosegundo.ig.com.br/politica/2018.01.27, com os seguintes dizeres:

Brasil, acima de tudo. Deus acima de todos.                                       Bolsonaro pela honra, moral e ética.”

Pelos exemplos vistos acima, Bolsonaro emprega propaganda para enganar as pessoas. Negacionista que é, não se importa com a morte de brasileiros devido à Covid 19, preferindo lançar-se desvairadamente na defesa dos interesses do mercado e do capital adotando posturas radicais como: propagação de medicamento que, segundo especialistas, não têm eficácia comprovada; exigência constante para que as atividades econômicas funcionassem normalmente, mesmo com o aumento das mortes; estimulação para que a população se rebele contra as diretivas de prefeitos e governadores no combate ao vírus, contrariando as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Diante deste quadro, o pensamento e a conduta do presidente Bolsonaro podem ser identificados como um dos mais fiéis retratos de aprendiz de político fascista de nossa história, merecendo ele ser reconhecido como um aluno muito aplicado. Pena que lhe atrapalhe muito sua inépcia para tal desafio.

Aracaju e Brasília, 25 de setembro de 2020