LUIZ ROSSI

A análise está sendo publicada em duas partes. A primeira foi publicada em 01/05/2022 e diz respeito à análise do conflito Rússia-Ucrânia, mostrando na realidade como interessa aos EUA promoverem esta guerra, com vistas ao enfraquecimento da Rússia e da China. Nesta segunda parte, publicada em 08/05/2022, o autor analisa a situação brasileira diante da disputa das potências mundiais.

“As fontes de energia não renováveis e a escassez de alimentos tenderão a mudar o mundo de como está hoje constituído”.

Antônio Turiel e Juan Bordera

PARTE 2:

Como fica o Brasil nessa disputa entre potências globais?

O sociólogo português Boaventura Souza Santos afirmou que o Brasil é um país em disputa. “Nitidamente caminhamos para dois sistemas financeiros paralelos, um elaborado pela China e outro pelos Estados Unidos. Acontece que o Brasil pertence aos BRICS e, portanto, será um dos países que estará no olho do furacão financeiro. Ao mesmo tempo, está na América Latina, e agora já não é o pátio traseiro, mas é o jardim de frente dos Estado Unidos como diz o Biden”. Para o autor, “Nesse momento (o Brasil) está no olho do furacão” [7].

O Brasil não tem nenhuma condição para competir no mercado internacional com produtos de maior valor agregado, a exemplo dos produtos que incorporam as novas tecnologias. Historicamente, compete apenas com produtos de menor ou pouco processamento industrial como a exportação de soja, milho, carnes, e outras commodities tais como ferro e outros minérios.

Com o atual governo, não há nenhuma possibilidade de melhora da situação. No governo do presidente Bolsonaro, aumenta a destruição ativa das bases industriais assim como a depredação do patrimônio nacional tanto ecológico quanto social a exemplo da devastação das florestas, a ação dos garimpos ilegais e criminosos e os ataques a povos originários. As reservas indígenas estão sendo atacadas em todo o Brasil e tem sido continuo o assassinato de lideranças indígenas e de ativistas que defendem o meio ambiente. As desigualdades sociais aumentaram fortemente como resultado da politica econômica em vigor e agravadas pela pandemia. Da ordem de 50% da população brasileira vive na pobreza, quando não na miséria. A educação e a saúde pública, acompanhadas da área ambiental têm sido prioridades de desconstrução das políticas públicas e colegiados com participação pública.

No fundo, a burguesia brasileira nunca foi realmente “liberal”, mas sim uma classe social subordinada aos interesses estrangeiros e ao imperialismo. Nunca sequer propôs um projeto para um Brasil soberano. Ademais, a persistência de tutela pelos militares das Forças Armadas brasileiras enfraquece a ainda jovem democracia no país. O histórico de pressões, ameaças e efetivos golpes ao longo de nossa história brasileira é vasto. O primeiro foi um golpe militar para depor o Imperador Pedro II, mas o poder foi oferecido de “graça” para a burguesia agrária dos estados de São Paulo e Minas Gerais. Os historiadores denominam esse período de República Velha. Os golpes militares continuaram a golpear a República ao longo de nossa história. O último foi a deposição da presidente Dilma Rousseff em 2016, sendo que a maioria do Congresso decidi pelo golpe. Os militares não apareceram porque os parlamentares resolveram a situação. Existem duas intervenções dos militares das Forças Armadas mais recentes. A primeira, pelo Supremo Tribunal Federal impedindo que o ex-presidente Lula participasse das eleições de 2018. Naquele momento houve general que “sugeriu” que o Supremo Tribunal Federal (STF) impedisse a aprovação de um habeas corpus elaborado pelos advogados do ex-presidente Lula, para permitir que ele participasse como candidato das eleições presidenciais de 2018. Esta é uma das razões que possibilitou a Jair Bolsonaro ser eleito presidente da República. Durante o mandato, o novo presidente colocou em torno de 6.000 militares no centro do poder republicano e em órgãos do governo. A segunda intervenção acontece atualmente com o presidente Bolsonaro fustigando o STF, com o objetivo de tumultuar as eleições presidenciais de 2022, apontando mais um golpe Estado, apoiado pelos militares.

Neste cenário de depauperação do Estado e da população brasileira, aumenta a distância em direção a uma nação soberana. No atual governo, o Brasil perdeu a liderança internacional em temas como mudanças climáticas, a questão ambiental, os mecanismos para retirar o Brasil do mapa da fome do mundo e aqueles relativos à inserção da população de baixa renda em universidades, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde e as excepcionais taxas altas de vacinação brasileira, dentre vários marcos brasileiros.

Neste cenário mundial, a próxima gestão presidencial deverá posicionar-se acerca de grandes temas, que podem ampliar o fosso de desenvolvimento ou, ao contrário, sinalizar a retomada dos esforços de fortalecimento do Estado, superação da fome e da miséria,e redução da pobreza. Também deverá posicionar-se sobre esta guerra e as alianças internacionais necessárias.

Neste cenário de incertezas, o Brasil pode voltar a exercer algum papel, ainda que como participante menor, no Mercosul e nas alianças estratégicas com as potencias, contribuindo, ainda que timidamente, para a definição da nova geopolítica mundial historicamente caracterizada pelos 2 blocos ideológicos no mundo.

Aracaju, 1° de maio de 2022

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (partes 1 e 2):

[1] Turiel, A. e Juan Bordera, J. 2022. “A primeira guerra na era do Descenso”. Instituto Humanitas / Unisinos – Adital, 21 de abril de 2022.

[2] https://howmuch.net/articles/world-map-wheat-exports

[3] https://intracen.org

[4] NATO – Topic: Founding treaty

[5] sítio eletrônico The Guardian. Solomon Islands PM suggests Australia’s reaction to China security deal is hysterical and hypocritical | Asia Pacific | The Guardian

[6] sítio eletrônico Folha de São Paulo, em 02 de junho de 2021.

[7] sítio eletrônico “Brasil 247”, de 20 de abril de 2022