LUIZ ROSSI

A análise será publicada em duas partes. A primeira publicada em 01/05/2022, diz respeito à análise do conflito Rússia-Ucrânia, mostrando na realidade como interessa aos EUA promoverem esta guerra, com vistas ao enfraquecimento da Rússia e da China. Na segunda parte, a ser publicada em 08/05/2022, o autor analisa a situação brasileira diante da disputa das potências mundiais.

“As fontes de energia não renováveis e a escassez de alimentos tenderão a mudar o mundo de como está hoje constituído”.

Antônio Turiel e Juan Bordera

PARTE 1

Dois acontecimentos de grande efeito acontecerão nas próximas décadas, repercutindo nas políticas das nações poderosas mas, principalmente, nas nações periféricas do sistema capitalista mundial. Migrações em massa se sucederão, a violência e a guerra acontecerão com mais frequência, governos autoritários estarão presente na vida das pessoas. A crescente diminuição das fontes de energia não renováveis como o petróleo, o carvão, o gás natural e o urânio e a escassez de alimentos no mundo são duas causas que devem tornar-se presentes no dia a dia das pessoas e dos governos [1].

A invasão da Ucrânia pela Rússia já sinaliza o nascimento de um mundo multipolar e a desglobalização já se descortina no horizonte.

A Rússia tinha “motivações geopolíticas e geoestratégicas” [1] para invadir a Ucrânia: anexar Donbas, região rica e com maioria russa; controlar os portos para o acesso ao Mar Negro, assegurando a saída estratégica para o Mediterrâneo. Para tal, era fundamental tomar Mariupol, atualmente já conquistada e Odessa, cidades com portos importantes para o acesso marítimo a todo mundo. Ademais, neutralizar ameaças futuras na região e instalar um governo dócil na Ucrânia, capaz de impedir a “expansão indecorosa da OTAN”. Esta aliança militar ocidental europeia, com hegemonia dos Estados Unidos tem historicamente como objetivo cercar a Rússia com bases militares próximas à fronteira, de forma a ser capaz de atingir Moscou com facilidade. Ademais, também representa a possibilidade de um melhor posicionamento, no futuro, quanto à produção mundial de cereais e minerais. Ademais, outra motivação era a de deter maior controle energético, pois as reservas de fontes de energia não renovável da Rússia tendem a decrescer nas próximas décadas.

Em 2018, a Rússia constituiu, com a Ucrânia, os maiores exportadores de trigo do mundo [2;3]. . A Ucrânia constitui o terceiro produtor e o primeiro exportador de óleo de girassol e o quarto produtor de milho do mundo. Rússia e Ucrânia são considerados o “celeiro do mundo”. Desta forma, ao controlar a Ucrânia, a Rússia passa a deter o controle do maior celeiro do mundo.

As perspectivas apontam para o fato de que os grandes compradores de cereais, como a Europa ocidental, devem passar a sentir a escassez de alimentos. Com as sanções impostas pelos Estados Unidos e aceitação, “com timidez”, pela Europa ocidental e central, esse quadro deverá piorar. Certamente os países europeus procurarão outros fornecedores, o que elevará os preços do mercado mundial. Ademais, a dependência destes países por petróleo, carvão, gás e urânio provenientes da Rússia complica ainda mais a sua situação.

A possibilidade de agitação e de guerras, devido à falta alimentos e de fontes de energia não renováveis, acarretará o aumento dos preços de alimentos, e das fontes não renováveis de energia para a Europa e tanto mais para a periferia do sistema capitalista. A agitação social tende a se espalhar e o surgimento de governos militarizados será apenas um, entre vários problemas que as populações terão que enfrentar.

A Alemanha, que importa grandes quantidades de gás e petróleo da Rússia a preços módicos, já vê a crise nos calcanhares. Ela deve receber o gás liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, muito mais caro do que o petróleo russo e, além disso, para seu uso, terá que realizar “grandes investimentos em usinas de regaseificação para receber o gás do amigo estadunidense” [1] (grifos nossos).

As fontes de petróleo, carvão, gás e urânio que “fornecem 90% da energia primária consumida no mundo comecem a diminuir não (constituem) bom presságio”. Haverárecessão, desemprego e até tumultos. Mas está ficando cada mais claro que também se tratará de mais guerras. Guerras para tentar aproveitar os recursos vitais e guerras para ajudar, mas que o outro vá para o inferno[1]. (grifos nossos).

A guerra atual constitui uma disputa mundial pelo acesso aos alimentos e às fontes de energia não renováveis. Existe, porém uma diferença clara entre a política russa e a americana. A primeira luta defensivamente para não ser cercada. Os EUA desejam a aprovação do governo do presidente ucraniano Voldimir Zelinsky para implantar as instalações da OTAN na fronteira russa.

A maior potência mundial fornece à Ucrânia financiamento e armas, com o objetivo prioritário de enfraquecer a Rússia reduzindo seu poder e tornando-o um país de segunda categoria do ponto de vista político-militar. Assim é que, infelizmente, a defesa dos interesses da população ucraniana não constitui objetivo prioritário.

A OTAN e a polarização dos blocos militares mundiais

Ao término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, havia duas potências nucleares vencedoras: os Estados Unidos (EUA), capitalista e a União Soviética (URSS), comunista. A primeira aumentou a supremacia sobre a Europa ocidental, a América Latina, a África e da maioria dos países do sul da Ásia. A segunda, principalmente dos países da Europa oriental. Com o avanço e a dinâmica capitalistas e a formação de um Estado burocrático a URSS dissolveu-se e muitos povos conseguiram desvencilhar-se do poder soviético. Este é o caso da Estônia, a Lituânia, a Hungria, a Polônia, Bulgária e Romênia.

Após a guerra é fundada a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, em 4 de abril de 1949 [4]. Esta é uma a aliança militar sob a liderança dos Estados Unidos, com a participação de países da Europa ocidental como Alemanha, Inglaterra, Canadá, França, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Grécia. Após 1989, com o desmonte da União Soviética, acordos de todo tipo foram feitos para que a OTAN instalasse bases militares nesses países em direção à Rússia. A partir de então, ainda em 1989, a Rússia sempre propôs acordos aos países da aliança ocidental para que a Europa se tornasse uma área de paz e não de guerras.

É conhecida a posição histórica da Rússia na defesa de uma Ucrânia desmitalitarizada e desnazificada. O presidente Victor Yanucovich governava a Ucrânia mantendo relações estáveis com a Rússia, tendo sido apeado do poder, em 2014, por um golpe de Estado financiado pelos Estados Unidos. Houve uma caça aos simpatizantes do ex-presidente e dos pró-russos. Neste contexto, unidades paramilitares milicianas, sob o comando da extrema direita nazista, tomaram a praça Maidan, em Kiev, matando 89 pessoas da oposição. Alguns jornais da época afirmam que foram mais de 100 pessoas executadas. Em seguida, Petro Yanucovtch foi alçado a presidente da Ucrânia, em 2014. Em 2019, Volodimi Zelinsky o sucedeu. (Grifos nossos)

O atual governo de extrema direita, governado por Zelinsky com apoio nazista, aprovou no parlamento a instalação de bases militares da OTAN, desrespeitando os acordos internacionais entre os países, para esta região. Essa decisão foi a gota d´água para que o governo da Rússia protestasse contra essas instalações na fronteira do seu país. Em não havendo perspectivas de diálogo ou recuo por parte dos Estados Unidos e dos governos da Europa ocidental, a Rússia tomou a decisão de invadir a Ucrânia e assim foi feito pelas forças armadas russas.

Quais foram as razões dos Estados Unidos e da Europa ocidental proporem a instalação de bases militares da OTAN na Ucrânia? Em anos anteriores, o governo russo, como já vimos, havia alertado sobre o perigo dessas instalações provocarem um conflito. Do ponto de vista da estratégia norte-americana essa ação ofensiva representava a oportunidade concreta de cercar a Rússia, procurando colocar o país na defensiva, principalmente do ponto de vista militar. Contando com instalações da OTAN na Ucrânia, a Rússia seria vigiada e paulatinamente controlada.

Trata-se de um jogo de estratégia mais amplo. Ao neutralizar a Rússia, o poder norte-americano conseguiria seu objetivo estratégico de contenção da China pelo norte. É preciso lembrar que a China atualmente é a segunda potência econômica mundial e continua crescendo militarmente. A China foi capaz de enviar, recentemente, naves tripuladas ao espaço e a volta à terra foi exitosa.

Diante do crescimento do poder da China, em 15 de setembro de 2021, os Estados Unidos, a Austrália e Reino Unido firmaram um acordo denominado AUKUS (as primeira letras dos países signatários) [5] com o objetivo de conter a China. O objetivo do tratado é o de enfraquecê-la pelo sul, além do enfraquecimento pelo norte, como vimos acima.

As tentativas, por parte dos EUA, de conter e neutralizar a Rússia e a China mostram o receio norte-americano de perder sua liderança mundial. Esta é a razão do aumento de acordos com vários países para instalar bases militares norte americanas. Os EUA têm dado mostras de que são um império em declínio. Atualmente, os Estados Unidos contam com 742 bases militares pelo mundo: 119 no Japão, 118 na Alemanha, 44 na Itália, 12 no Panamá, 9 na Colômbia, 8 no Peru. O restante encontra-se espalhado pelo mundo, além de bases secretas.

A Rússia possui 21 bases militares. A intenção era construir 20 novas bases militares na fronteira do país com a Europa, com o objetivo de estabelecer um tampão estratégico entre a Rússia e a Europa. A impressão é de que a eminência da construção de bases da OTAN, forçou os russos a invadir a Ucrânia como uma forma de conter o expansionismo ocidental [6].

Na segunda parte, a ser publicada em 08/05/2022, o autor analisa a situação brasileira diante da disputa das potências mundiais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PARCIAIS – Referente à Parte 1:

[1] Turiel, A. e Juan Bordera, J. 2022. “A primeira guerra na era do Descenso”. Instituto Humanitas / Unisinos – Adital, 21 de abril de 2022.

[2] https://howmuch.net/articles/world-map-wheat-exports

[3] https://intracen.org

[4] NATO – Topic: Founding treaty

[5] sítio eletrônico The Guardian. Solomon Islands PM suggests Australia’s reaction to China security deal is hysterical and hypocritical | Asia Pacific | The Guardian

[6] sítio eletrônico Folha de São Paulo, em 02 de junho de 2021.