JAIME BRASIL

Há 100 anos, a Semana de Arte Moderna rompeu com o eurocentrismo enquanto percepção de fonte e de referência únicas do que podia ser considerado ou não arte e cultura no Brasil. 

Quase na mesma época, a Escola de Frankfurt desnudava e denunciava a produção cultural no capitalismo como formadora e manipuladora das subjetividades dos povos, como instrumento de controle das mentes e almas a serviço do capital. 

Nada mais dialético, ao tempo em que começávamos a abandonar a imposição oficializada da cultura colonizadora o capitalismo incrementava, com cada vez mais voracidade, seus instrumentos de colonização cultural, e que hoje, com plataformas de streaming, de games e uma avassaladora produção de conteúdo, só comprova e reafirma a atualidade e demonstra a relevância e a necessidade de mantermos esse espírito revolucionário do começo do século passado. 

Makunaima é um deus criador dos povos indígenas do tronco linguístico caribe. Foi por meio do naturalista alemão Theodor Koch-Grünberg e seu trabalho “Do Roraima ao Orinoco”, que Mário de Andrade teve acesso às façanhas, manhas e artimanhas da grande força geradora e transformadora dos campos gerais e florestas do que hoje são partes da Guiana, Venezuela e Roraima, produzindo, assim, o seu seminal livro Macunaíma

Justamente um membro do povo caribe Macuxi, Jaider Esbell, levou ao mundo, desde as veredas do vale do Rio Branco, não somente o espírito autóctone da nossa cultura, como também a ruptura da imposição industrial e capitalista da cultura que a todos oprime. Na última Bienal de Arte de São Paulo, em 2021, quando sua obra foi a principal estrela dentre todos os pavilhões no Ibirapuera, Jaider nos deixou, mas também deixou a semente da luta e o exemplo de que é possível existirmos criando nossas próprias façanhas, manhas e artimanhas, e que todos nós podemos ser Makunaima, como ele foi. 

No próximo dia 27 de março de 2022, Jaider será homenageado por vários artistas que o acompanhavam em sua trajetória, e para esse evento escrevi o texto abaixo: 

“ Causa e Efeito 

Jaider Esbell foi, como os elementos naturais que nos cercam, causa e efeito. O próprio movimento. 

Pedras, capim, caimbés, buritizeiros, Jaider era a descendência humana e social das forças vivas do Lavrado, da ancestralidade telúrica. 

Conheci Jaider, ele ainda muito jovem, em reuniões sociais despretensiosas que em nada indicavam o que estava por vir. Talvez, apenas Parmênio, seu grande amor, sabia à época do poder revolucionário represado naquele jovem rapaz. 

Em um dado momento de sua vida deu-se o arrebatamento, como um vendaval incontrolável na Serra do Maruai. A criação fez-se criatura, a criatura fez-se criador. Carregava em si a aura daqueles que chegam à revelação ao se revelarem, o convencimento daqueles que se encontram totalmente convencidos de seu caminho e objetivos e que a todos convencem. 

Desde o início de sua ação como transformador da cena cultural roraimense e brasileira, agiu como poucos artistas agem: pôs a arte como prioridade real, material e espiritual de sua vida.

Mas a arte de Jaider Esbell não era pessoal, intimista, como costumamos ver. Era o alçamento dos povos indígenas, do povo Macuxi, sobre a ignorância e desprezo de séculos da chamada arte civilizada, dos cânones mumificados e dos vanguardismos esnobes e vazios. 

Jaider se pôs e contrapôs, atrás e adiante, de toda invisibilidade que parecia determinada a condenar eternamente a arte dos povos indígenas a um segundo plano. Sobre as sombras Jaider lançou luz e cores! 

Artes plásticas, escrita, teatro, em tudo ele foi expressão. 

Sua mais importante obra foi revelar ao mundo os espíritos guerreiros e criadores dos povos nascidos das entranhas da nossa natureza. 

A partida de Jaider não nos traz apenas um vazio subjetivo, de sentimentos interiores, de saudade; a lacuna deixada por Jaider é também, e principalmente, objetiva, política, visual e tátil. Sua ausência traz alívio aos conservadores de plantão e nos incomoda a todos nós que pensamos, sentimos e vivemos as revoluções necessárias de cada segundo neste mundo em decadência. 

A trilha aberta por suas ações deve ser usada pelos que ficaram e dele tiveram o exemplo, essa sim é a melhor homenagem que se pode oferecer. 

À sua transcendência presente a nossa imanência cotidiana! 

Que Jaider permaneça vivo em nossas insurgências sensoriais, nas nossas emergências criativas, nas nossas revoluções existenciais. 

Viva Jaider Esbell.” 

Jaime Brasil

TDED indica alguns sitios eletrônicos para maiores informações sobre Jaider Esbell;

  1. http://www.jaideresbell.com.br/site/ – site autoral de Jaider Esbell
  2. https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2015/04/artista-indigena-roraimense-defende-cultura-viva-em-suas-obras.html
  3. https://nutricaovisual.art.br/historia/jaider-esbell/