MARIA SÍLVIA ROSSI

A China é a segunda maior economia do mundo e o país mais populoso, com 1,38 bilhão de habitantes. Este gigante asiático vem aumentando agressivamente a sua participação no cenário internacional nos últimos anos. A mais ambiciosa das iniciativas e investimentos chineses no mundo atual é o projeto da Nova Rota da Seda, também chamada Iniciativa do Cinturão e Rota, One Belt, One Road – OBOR ou ainda Belt and Road Initiative – BRI.

A Rota da Seda carrega um forte simbolismo histórico. Há mais de 2.000 anos atrás, a China era o grande centro da economia da eurasiática (Europa e Ásia) e a rota interligava a Ásia à Europa para o estabelecimento de uma rede comercial entre os mercadores e de uma rede multi-cultural entre seus países membros, tendo a seda como principal e mais valioso produto transportado e comercializado.

Fonte: https://investin.pk/17/01/2017/one-belt-one-road/:

Há muito discute-se a importância da região da Eurásia como “Área de Pivô”; com potencial de tornar-se a sede do grande poder do mundo. Esta teoria foi formulada por Mackinder em palestra intitulada “The Geographical Pivot of History” e publicada, em 2019, em seu livro “Democratic Ideals and Reality”.

De lá pra cá, esta visão vem se confirmando. Em 2013, o principal líder da República Popular da China, Xi Jinping, apresentou pela primeira vez, o ambicioso plano de infraestrutura e transporte regional e global que deve envolver diretamente 78 países. É a Iniciativa do Cinturão e Rota ou Nova Rota da Seda. Este plano tem em 2049 – ano do centenário da Revolução Chinesa – o momento de celebração de sua implementação.

Na Nova Rota da Seda, há previsão de conectar as regiões de maior importância geopolítica – Europa, o Oriente Médio, a Asia e a África – de forma terrestre e marítima, esta última passando pelo Oceano Pacífico, atravessando o Oceano Índico e alcançando o mar Mediterrâneo.

Imagem de Roman Wilhelm/ MERICS – The Diplomat (2015)

OBSAs linhas pretas, verdes e vermelhas representam os projetos para a rota terrestre e a linha azul os projetos de rotas marítimas.

Fonte: politize.com.br/nova-rota-da-seda-chinesa/

Segundo discurso do líder Xi em 2014, há previsão de conectar todas as obras já realizadas pela China na África e replicar o modelo de investimento vencedor para outros continentes. E para tal, já estava em curso a coordenação de várias iniciativas como a União Econômica Eurasiana da Rússia; o Plano Master de Conectividade da ASEAN; a Bright Road Initiative do Cazaquistão, a Development Road Initiative, na Mongólia; a iniciativa Dois Corredores, Um Círculo Econômico, no Vietnam, entre outras. Esta coordenação deve permitir a implantação de um corredor de gasodutos e oleodutos na Ásia central além de uma infraestrutura de redes de telefonia, internet, rodovias e ferrovias atravessando a Ásia e Europa. No entanto, ao contrário de uma coordenação multilateral, a coordenação e liderança irá manter-se com a China, que consolida sua liderança com uma série de acordos bilaterais realizados paulatinamente.

Coerente com esta meta, o investimento chinês em crescido agressivamente no mundo. Apenas entre 2005 e 2018, a China investiu nos cinco continentes da ordem de US$ 1,9 trilhão. Isso equivale a nada menos do que 13(treze) vezes o valor total investido pelo mundialmente famoso “Plano Marshall” – aquela ajuda financeira dos Estados Unidos, da ordem de U$ 18 bilhões, para a reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, evitando o avanço soviético no Ocidente. O Plano Marshall visava manter e ampliar o domínio dos Estados Unidos sobre a Europa obtendo o apoio dos países beneficiados. A implantação do plano ocorreu durante o governo Truman (1948 a 1951), e foi viabilizado por meio da criação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tendo como consequências a aproximação dos países europeus ocidentais dos Estados Unidos e a sua abertura econômica para os produtos norte-americanos.

Os recursos da Nova Rota da Seda são da ordem de US$ 40 bilhões para os investimentos necessários e advêm do Fundo da Rota da Seda – fundado em 2014, a partir da articulação de quatro instituições, com as seguintes proporções de participação.

Tabela 1 – Fonte dos investimentos do Funda da Rota da Seda

InstituiçãoPercentual de Investimento
Administração Estatal de Política Externa65% do investimento
Corporação de Investimento da China15% do investimento
Banco de Desenvolvimento da China5% do investimento
Banco de Exportação e Importação da China15% do investimento

No Fórum Internacional sobre a Rota da Seda, em 2017, a China comunicou o investimento de US$ 70 bilhões adicionais, sendo US$ 15 bilhões advêm do Governo chinês e US$ 55 bilhões dos bancos participantes do Fundo. Ademais, há previsão da mobilização de financiamentos internacionais, envolvendo recursos do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura – AIIB, do Banco de Desenvolvimento dos BRICS e do Banco Mundial. Dentre os países mais ricos do mundo, membros do G7, a Itália foi o primeiro a embarcar neste plano.

A adesão de países de fora do eixo principal é possível, uma vez que a China abriu a perspectiva de adesão para quem se interessar. Neste sentido, ao contrário do Brasil, o Chile fez-se presente no Fórum Internacional da Rota da Seda em 2017. A então presidente do Chile, Michelle Bachelet, afirmou aquele era o maior projeto econômico da atualidade e “adequado a novos horizontes”.

MAS QUAL IMPACTO SOBRE O BRASIL ?

A China é o principal parceiro econômico brasileiro: é o país para o qual o Brasil mais exporta e o segundo de quem mais importa, apenas atrás dos EUA. Em 2017, foi criado o Fundo China-Brasil, buscando incrementar as relações econômico-financeiras entre os dois países.

A 11ª Reunião de Cúpula de Chefes de Estado do BRICS, grupo formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul aconteceu no Brasil, em 2019, com o Brasil exercendo a presidência rotativa. O Brasil congrega 42% da população do bloco, 23% da economia,30% do território e 18% do comércio mundial. O tema principal foi “crescimento econômico para um futuro inovador”. Estiveram presentes os líderes da Rússia – Vladimir Putin, da China – Xi Jinping, da África do Sul – Cyril Ramaphosa e da Índia – Narendra Modi. A cúpula dos BRICS debateu, entre outros, as iniciativas da “Nova Rota da Seda” ou “Iniciativa Cinturão e Rota”, com o fomento de projetos estratégicos nos países. Um dos principais assuntos orbitou em torno da necessidade de reforma para fortalecimento dos sistemas multilaterais e organizações internacionais (ONU – incluindo o Conselho de Segurança, OMC, FMI, entre outros) demandam reformas urgentes e abrangente de forma a se tornarem “mais inclusivas, democráticas e representativas”, modulando uma “ordem internacional multipolar mais justa, imparcial, equitativa e representativa”. A declaração com 73 tópicos sobre o futuro do grupo econômico e da política internacional foi assinada pelos líderes. Nesta, o Brasil aceitou a inclusão de alguns tópicos prioritários para a China, desagradando os EUA, pois envolvem medidas unilaterais e protecionistas contrárias às regras da Organização Mundial do Comércio – OMC, a exemplo da guerra tarifária implementada pelos EUA contra a China.

As críticas ácidas à China, exaradas pelo governo brasileiro, em início da gestão em 2019, foram superadas, antes e durante a 11ª reunião, com o pedido de desculpas formal nos encontros privados do presidente brasileiro e o líder Xi. No esteio das desculpas, a China socorreu o governante brasileiro em momentos internacionais importantes, a exemplo das críticas internacionais contra a política ambiental de Bolsonaro para a Amazônia, quando a representação da embaixada da China no Brasil informou que a política ambiental do Brasil era uma das mais rigorosas e que a crise era “fabricada”. Por outro lado, foi graças à China que o megaleilão do pré-sal não naufragou, após pedido direto do presidente brasileiro ao líder chinês, durante visita da delegação brasileira à China em outubro de 2019. Neste leilão, 17 grandes petroleiras mundiais não quiseram participar e foram as petroleiras CNOOC e CNODC, controladas pelo governo chinês que possibilitaram o arremate do Campo de Búzios com a participação de 5% cada.

A atual gestão presidencial brasileira sinaliza dois objetivos Brasil-China: (i) aumentar o valor agregado das exportações brasileiras para a China, já que hoje estas continuam concentradas em commodities – para o qual o governo chinês não se manifestou; (ii) atrair investimento chinês em infraestrutura. No entanto, a relação com a China ainda continua sem uma linha clara face às pressões negativas do núcleo ideológico da atual gestão que prega o alinhamento automático e incondicional aos EUA, o qual, por sua vez, pressionam para que o Brasil barrasse a gigante de telecomunicações chinesas Huawei no leilão do 5G, com prazo de vigência da outorga (direito de exploração das faixas) de 20 anos. A China, que ofereceu o pacote mais barato na comparação com os concorrentes Ericsson e Samsung pode retaliar o Brasil em várias áreas com forte impacto econômico sobre o país.

NOVA ROTA DA SEDA: AS PARCERIAS, O ALCANCE, A GOVERNANÇA E A LIDERANÇA

É espantoso como China está redesenhando a geopolítica mundial de maneira silenciosa e continuada. Seu projeto de protagonismo mundial avança por meio do Sonho Chinês, consubstanciado na Nova Rota da Seda. Os investimentos, que já passam de U$110 bilhões, sinalizam infraestrutura e interligação de continentes com criação de valor e novos mercados.

Este plano constitui uma oportunidade de desenvolvimento estrutural única, dada a abundância de recursos e com base nos casos de sucesso chinês nas obras na Ásia e África. Ademais, o tom tem sido dado de cooperação internacional sem utilização militar.

O projeto não deixa de ser uma forma discreta porém eficaz de expansão da influência chinesa no mundo. As vinculações comerciais e econômicas advindas do projeto devem ampliar poder chinês sobre a Eurásia, região geopoliticamente estratégica além de ampliar o controle da China, sobretudo sobre as regiões mais pobres.

Se e quando consolidada, a Nova Rota da Seda deve levar à criação de novos mercados e zonas de livre comércio, gerando novas zonas de abastecimento e distribuição de produtos, facilitando os deslocamentos terrestres e marítimos e proporcionando grandes avanços na integração dos países participantes e de suas populações. Ou seja, a Rota deve ampliar e redesenhar o comércio e as regiões de produção de riquezas no mundo.

Muitos países participantes, como Quirguistão e Tadjiquistão, apoiam o projeto graças aos maciços investimentos chineses em projetos de comunicação e transmissão local. O Nepal, por exemplo, que não tem litoral, juntou-se recentemente ao projeto assinando um acordo que o ajudará a melhorar a conectividade transfronteiriça com a China. Já o Paquistão deve beneficiar-se diretamente do Corredor Econômico China Paquistão (CPEC) com investimento da ordem de US$ 46 bilhões. Neste trecho o sudoeste da China se conectará ao Paquistão, e através dele, permitindo acesso às rotas do Mar Arábico.

Este redesenho geopolítico, a partir da infraestrutura torna-se ainda mais importante com a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico (Trans-Pacific partnership – TPP) e seu consequente enfraquecimento. A Nova Rota representa uma alternativa aos países da região do Pacífico. O TPP constitui um tratado de livre-comércio firmado por onze países, para aumentar a integração das economias do Pacífico, como forma de expansão de um bloco econômico formado em 2005 pelo P4, ou seja, Nova Zelândia, Chile, Cingapura e Brunei. O TPP constitui um dos acordos comerciais mais importantes das últimas décadas uma vez que o PIB dos países envolvidos totalizam cerca de 45% de toda economia mundial, ou seja, da ordem de U$ 50 trilhões, no momento de sua criação, envolvendo, além do P4, a Austrália, Malásia, Peru, Vietnã, Canadá, México, Japão e EUA. Atualmente, Coreia do Sul, Taiwan, Colômbia, Indonésia, Filipinas e Tailândia estão em negociação para ingressar no bloco.

Outrossim, com a possibilidade de uma rota por terra, cria-se outra saída para além do estreito de Malaca, contribuindo para redução dastensões na região do mar do sul da China e aumento da estabilidade na região.

Por outro lado, em virtude de obras na Caxemira, – região dividida e em disputa entre Índia, Paquistão e China – a Índia não aderiu à Nova Rota. A Índia constitui o 2º país mais populoso do mundo e tem grande importância na região asiática.

SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DO PROJETO

Em que pesem os U$ 110 bilhões já disponibilizados pela China, não se sabe a ordem de recursos necessários anualmente para a consolidação das áreas. Ou seja, a viabilidade financeira ainda não está muito clara.

Investimento entre 2014-2018 por país, em bilhões de dólares
ConstruçãoInvest. ConstruçãoInvest.
 Paquistão31.9Singapura24.3
Nigéria23.2Malásia14.1
Bangladesh17.5Russia10.4
Indonésia16.8Indonésia9.4
Malásia15.8Coreia do Sul8.1
Egito15.3Israel7.9
UAE14.7Paquistão7.6
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Belt_and_Road_Initiative

Contribuindo com a dificuldade de estimar mais claramente os gastos, há de se considerar que alguns trajetos previstos para implantação da infraestrutura estão localizados em áreas de conflitos e contendas militares – a exemplo da Caxemira, o que dificulta e encarece sobremaneira a implantação das infraestruturas, sua manutenção e a consolidação destas áreas para o comércio.

Ademais, a questão do endividamento dos parceiros também precisa ser aprofundada, particularmente para países africanos e os asiáticos historicamente em conflito, como o Paquistão. Considerando o financiamento ser chinês, grande parte das obras deve ser realizada por construtoras chinesas, sendo uma forma de ampliação do seu poderio em detrimento de construtoras locais.

Enfim, ao sinalizar tornar-se a maior rede de infraestrutura mundial já implantada na história da Humanidade, a Nova Rota da Seda alimenta e reposiciona o Sonho Chinês, agora como o Projeto do Século, trazendo objetivamente a discussão das novas potências, novas concentrações geográficas de poder e as suas implicações, neste século XXI. Há de se aprofundar os impactos sociais, econômicos e ambientais de tamanha iniciativa.

REFERÊNCIAS:

  1. Bloco de Reportagens: DW (Itália e a Rota da Seda) – El País (Aprofundamento sobre o projeto) – Época (Avanços digitais) – G1 (Sobre o fórum multilateral; vencedoras do Leilão 5G) – Le Monde (Opinião sobre a Rota) – Superinteressante (Algumas possíveis obras) – Discurso de Xi 2013Discurso Xi Fórum 2017Discurso Xi 2018The Economist (Brasil na presidência dos BRICS) – Folha de SP (Bolsonaro se retrata por críticas a China)
  2. https://www.aei.org/think tank estadunidense American Enterprise Institute for Public Policy Research,
  3. China’s ‘Silk Road’ Initiative Is at Risk of Failure – The Diplomat – reportagem do Jornal The Diplomat, em 2015
  4. Integra da Declaração de Brasilia – 11ª Cupula do BRICS
  5. https://www.politize.com.br/nova-rota-da-seda-chinesa/, reportagem 2019
  6. https://www.academia.edu/6389105/Democratic_Ideals_and_Reality_by_Halford_John_Mackinder
  7. Ferdinand, Peter. Westward ho—The China dream and ‘one belt, one road’: Chinese foreign policy under Xi Jinping. International Affairs, v. 92, n. 4, p. 941-957, 2016.
  8. Kotz, Ricardo Lopes. A Nova Rota da Seda: a fundamentação geopolítica e as consequências estratégicas do projeto chinês.
  9. Stuenkel, Oliver. 2018. Livro: O mundo pós – Ocidental: Potências emergentes e a nova ordem global. 246 p.