MARIA SÍLVIA ROSSI

Ao contrário da crença geral, a ciência confirma que as mulheres não são mais emotivas que os homens, confirmam também que as mulheres são mais suscetíveis de morrer quando o cirurgião é um homem. Sexismo nas práticas profissionais ? Sim, desde sempre, e agora, evidências de sexismo até mesmo nas cirurgias. Pesquisadores canadenses analisaram em mais de um milhão de cirurgias entre 2007 e 2009 para chegar a este resultado alarmante.

A relação entre variações hormonais e comportamento constitui um campo recente de pesquisa no encontro de áreas da ciência. Por décadas, as mulheres foram excluídas de ensaios clínicos biomédicos, neurológicos e sociais, devido às supostas “flutuações hormonais que guiam suas emoções”.

Um estudo recente (1) chamou minha a atenção e mostra, mais uma vez, que é tempo de superar definitivamente um velho clichê sexista que se perpetua há gerações, no qual as mulheres supostamente teriam maior tendência a serem emocionais devido aos seus hormônios. Esta crença, que tornou-se um preconceito enraizado nas sociedades, discrimina gêneros com base em leituras diferenciadas, mais duras ou mais amigáveis, segundo o sexo das pessoas.

De fato, afirma-se que portadores do cromossomo Y podem se controlar, enquanto as do cromossomo X estariam sujeitas por sentimentos muito fortes, o que não lhes permitiriam tomar decisões “racionais” ou “razoáveis” ou ainda “responsáveis”. No entanto, o estudo mostra que não há bases científicas para tais afirmações. “Quando as emoções fortes fluem em um evento esportivo, o homem é qualificado de “apaixonado”, mas quando é uma mulher que apresenta emoções fortes, ela é taxada de “irracional””, diz Adriene Beltz, professora de psicologia e autora do estudo.

Os resultados de pesquisas científicas mostram que, embora haja diferencias hormonais entre os gêneros, não há variabilidade afetiva entre homens e mulheres. Nas mulheres assim como em fêmeas animais, as principais variabilidades são diárias, conforme o momento e variam conforme a origem destes desafios. Cerca de 6 mil dados sobre ratos, em mais de 300 estudos realizados foram mobilizados e analisados e mostram que não há nenhuma diferença nos estudos comportamentais, electrofisiológicos, histológicos e neuroquímicos entre machos e fêmeas. Estudos mais recentes, com camundongos, analisaram a variabilidade intra-individual (como os indivíduos variam entre si), além da variabilidade inter-individual (como fêmeas variam umas com as outras).

O estudo, publicado na revista “Scientific Reports”, apresenta os resultados dos pesquisadores da Universidade de Michigan, EUA, que analisaram o tema das “flutuações hormonais”. Eles acompanharam 142 homens e mulheres na faixa etária de 18 a 38 anos durante 75 dias, para analisar as suas emoções – positivas ou negativas, no quotidiano. As mulheres foram divididas em quatro grupos. O primeiro não tomou nenhum hormônio anticoncepcional (estabilizadores de flutuações hormonais) enquanto os outros 3 grupos de mulheres tomaram diferentes tipos de anticoncepcionais orais.

Os pesquisadores apoiaram-se em três índices: volatilidade, inércia emocional e ciclicidade para buscar estabelecer relações entre flutuações hormonais e comportamento afetivo, em bases estatísticas. Em comparação dos resultados dos dois sexos, eles concluíram que houve pouca ou nenhuma diferença entre os homens e as mulheres, sendo que variavam os elementos disparadores das flutuações. Tampouco encontraram diferenças significativas entre os grupos de mulheres em relação ao anticoncepcional. “Isto mostra que os altos e baixos emocionais não são devidos apenas aos hormônios”, concluiu a pesquisadora Adriene Beltz.

De fato, passou da hora das piadas de mal gosto sobre TPM das mulheres, dentre tantos recursos para desqualificar o discernimento e a capacidade de decisão feminina, sobre as assuntos pessoais, familiares, profissionais e coletivos.

No entanto, o problema da discriminação de gênero não se resume a mitos e piadas alimentadas principalmente (mas não exclusivamente, infelizmente) por homens. De fato, este traço cultural resguarda e amplia o papel de superioridade masculina tanto desejado e exercido por este gênero. O preconceito está tão entronizado que costuma ser praticado nos espaços profissionais com maior ou menos intensidade.

Na saúde, os preconceitos não se limitam à histórica figura do médico e da enfermeira, na divisão historicamente perversa entre o “curar” e “cuidar”. Um estudo meticuloso, de grande amplitude (2), mostrou recentemente que 32% das pacientes apresentam maior risco de morrer quando operadas por um médico (homem) ao invés de uma médica (mulher). 16% das pacientes podem sofrer complicações após operações quando esta é realizada por um cirurgião do sexo masculino.

Este foi realizado em Ontário, Canadá, entre 2007 e 2009 e foi publicada na revista médica “Jama Surgery”. Os pesquisadores analisaram 1,3 milhões de cirurgias envolvendo 3.000 cirurgiões. O sexo do paciente e do profissional foram levados em conta, envolvendo os desdobramentos da cirurgia no prazo de 30 dias, inclusive morte, readmissão e complicações.

Segundo a médica Angela Jerath, em entrevista ao jornal inglês “The Guardian” (3): “Quando uma cirurgiã opera, os resultados para os pacientes são geralmente melhores, particularmente para as mulheres, mesmo tendo considerado e ajustado as análises quanto às diferenças do estado crônico de saúde, idade e outros fatores, nos mesmos tipos de intervenções cirúrgicas”. Os resultados mostram que em cirurgias do cérebro ou cirurgias vasculares, 1,2% das mulheres operadas por um cirurgião falecem contra 0,9% quando uma cirurgiã. O resultado é o mesmo para cirurgias cardiotorácicas: 1,4% das pacientes morrem nas mãos de um homem contra 1% se for mulher.

O que explica resultados distintos entre gêneros se “Os dois sexos seguem exatamente as mesmas formações médicas” ? Segundo a médica e pesquisadora Angela Jerath, neste estudo, a diferença de resultados está atribuída, por um lado ao impacto negativo do sexismo – no desempenho masculino, e por outro pela maior de confiança inspirada a pacientes quando a médica é mulher. Seriam os “preconceitos sexistas implícitos, atitudes e estereótipos profundamente enraizados” que levariam os cirurgiãos a diferenciar os seus níveis de responsabilidade em relação aos pacientes, motivadas segundo o sexo. Segundo a pesquisadora, o contato entre cirurgião e paciente é fundamental para o desempenho e resultados da intervenção cirúrgica. As mulheres teriam maior facilidade de estabelecer, antes da operação, uma relação de confiança para com o paciente. Esta hipótese foi objeto de um segundo estudo, conduzido com uma amostra ainda maior em outros países e cujos resultados estão em análise.

Em síntese, temos muito o que evoluir nas relações de gênero. A justiça social e a democracia que tanto ouvimos falar, e tanto falamos, ainda carecem de sociedades equilibradas, capazes de valorizar todxs individuos, independentemento do gênero. O mundo está mudando e, em que pesem movimentos reacionários e conservadores, estamos caminhando historicamente para re-equilibrar os direitos das Mulheres nas sociedades humanas.

REFERÊNCIAS CONSULTADAS: