O que está acontecendo no mundo é um massacre. A mais completa destruição de todas as formas de vida em todos os ambientes que podem contê-la. Eu, nascido na Amazônia, Roraima, há 50 anos, posso dizer: não há nenhum ambiente natural de beleza ou importância da minha infância que não tenha sido degradado ou simplesmente destruído. Nenhum!

Aqui estão alguns que não me fugiram à memória neste instante: rio Cauamé (onde aprendi a nadar), lago dos Americanos, igarapé Azul, igarapé Mirandinha, igarapé Pricumã, igarapé Caxangá, igarapé Ai Grande, rio Au Au, igarapé Água Boa de Cima, igarapé Água Boa de Baixo, igarapé da “Maclaren”, rio Mucajaí, Rio Branco.

Ao vermos no que se tornaram e estão se tornando, a vontade é de morrer ou de matar. É a revolta diante do assassinato premeditado e sem chance de defesa. É olharmos impotentes para a ação do único deus até hoje intocado deste mundo: o dinheiro.

Nossa geração não tem sequer a desculpa da ignorância, do desconhecimento das consequências da ação humana na natureza e nas sociedades como no passado havia. Sabemos há muito que não existe sociedade saudável em um ambiente doente. Não temos desculpa.

Quando nasci, nos anos 1970, já havia conhecimento suficiente para sabermos que estávamos indo pelo caminho errado. Contaminação, poluição, destruição, é assim que o capitalismo se impõe em todos os lugares, apesar de todas as normas, multas e penas que jamais se impuseram como freio real a absolutamente nada do que aconteceu e continua a acontecer. O capitalista não vai embora, não se assusta com sistemas administrativos e judiciais nascidos da estrutura criada pelo próprio capital. É só uma questão de tempo e oportunidade para que a sua sanha destruidora retorne ainda com mais força, mais rápida e mais destrutiva que antes. O lucro, que é o combustível do capital, como um monstro que é, vem devorando tudo que há de vital e belo no planeta.

Se olharmos bem, nunca houve freio desde 1500, no máximo uma ou outra desaceleração. Mas, parar? Nunca! Vejamos o desmatamento na Amazônia. Jamais aconteceu algum recuo. Reflorestamento de árvores nativas ? Nem pensar. Apenas anos em que desmataram menos e em outros mais, mas o desmatamento jamais cessou. Esse é o capital!

E o que estamos fazendo? Nós que nos arvoramos árvores da resistência e de um tal mundo possível? Qual tem sido o nosso proceder? Denunciamos? Protestamos? Reivindicamos? E isso basta?

Nós, que nos colocamos como pequenos elos de luta pela salvação da vida no planeta, não passamos de meros coadjuvantes de luxo no filme da morte dirigido pelo capitalismo.

Jamais poderemos mudar nada enquanto não entendermos que não há o que administrar de forma humanista no capitalismo, porque o capitalismo é essencialmente desumano.

Lutar para ocuparmos postos nas estruturas de administração do Estado burguês poderá, como já disse, desacelerá aqui ou ali a destruição de tudo, mas não parará o processo.

Ser contra a produção de bens que podem nos trazer conforto não é ser marxista, ser contra as tecnologias usadas para a produção de alimentos não é ser de esquerda, ser contra as tecnologias que podem dar aos trabalhadores mais tempo livre e que necessitem cada vez menos de mão-de-obra humana não é ser revolucionário.

Temos que defender uma outra forma de vida onde toda a tecnologia produzida pelos trabalhadores, acumulada em milênios, possa oferecer comida farta e saudável; bens de qualidade duráveis, de fácil manutenção, com baixo consumo de energia e sem obsolescência programada; um jeito de existir em que o trabalho não seja um meio de sobrevivência mas um fim prazeroso, onde toda a humanidade possa ter qualidade de vida sem destruição da própria vida. Mas, é claro, nada disso acontecerá dentro do jogo capitalista, dentro das balizas do lucro, dentro das raias deste sistema a que todos nós estamos submetidos.

Temos que ter clareza de que os processos cíclicos do capitalismo não são cíclicos em relação à natureza. Não houve retrocesso nos processos de destruição da vida na Terra. O capital tem apenas um objetivo em relação à vida no mundo, transformá-la em mercadorias, destruindo-a.

Águas nascentes de silêncio absoluto, caules crespos, textura de teias, colunas curvas e casulos de seda; cipós após cipós, cordéis em caos, cílios do olho d’água que contornam a placidez: pequenas árvores à beira da lagoa.

Água: denso fluxo doce que transparece em movimentos, ritmo das cores submersas, algo como algas, pedras e areia, entorpecimento fluido. Veias, vias dos vales, onde passeiam flores flutuantes.

JAIME BRASIL