NAIR FÁBIO DA SILVA

Conto, ou escrevo o conto? Mais que conto eu quero contar? Conto de réis não é, porque não sou desse tempo, embora tivesse ouvido falar muito desse conto, quando se contava que com ele até se comprava muita coisa. Mais o conto que quero e vou lhe contar é bem outro, e diz respeito a mim, nessa pandemia. Aliás, o que essa pandemia tem trazido à superfície não cabe em um conto só. Mas vamos lá.

Eu, diferente das minhas irmãs, nunca fui chegada a prendas domésticas. No pouco que me propunha era sempre rechaçada e não adiantava me esforçar, porque era tida e havida como lerda, demente, fazia as coisas muito devagar. Tomavam sempre para fazer a tarefa que me propunha, dizendo: nesse ritmo, você só vai acabar a noite.  

Eu até que me incomodava …. com o tempo passei a me incomodar só um pouquinho, fingindo que me incomodava muito. E como não tinha nem gosto nem talento, nunca denunciei o bullying.

Até hoje elas agem assim. Portanto, de quem é a culpa? Delas, naturalmente. Eu não era prendada, mais até que me esforçava. Deus tá vendo… Uma vez, uma professora admirada com a minha performance culinária, assim falou: “você não sabe cozinhar, como assim, uma moça pobre”? Pensei com meus botões: tô campada mesmo, eu vou é estudar e me formar. Observe se não é perseguição: sabe o que meu primeiro namorado – aquele que como na propaganda do primeiro soutien ninguém esquece, ou pelo menos sabe que foi o primeiro – me deu de presente? um ferro de engomar, assim mesmo. É muito trauma. 

E o que meu filho respondeu quando estava se queixando de fome e só tinha nós dois em casa. E eu, tadinha, preocupada disse: eu faço seu sanduiche. Rapidamente ele: “não Nair, eu prefiro fazer o meu e o seu”. Dito e feito.

Passados alguns anos, eu praticamente curada de tantos traumas domésticos, meu neto queixando de fome – ou povo que se queixa de fome – falou: “vó a Bisa não tá aqui, quem vai fazer minha comida?” e eu alegre e faceira, respondi: “Eu”. E ele, querendo me agradar, “olha vó não é por nada não, mas eu ouço aqui dizer que você não sabe fazer nada”. Doeu na alma. 

Não é demais, traumatizar até uma pobre criança. Vocês têm que saber o que falam e onde falam essas coisas, quem já ouviu dizer que uma vó não sabe fazer uma comidinha gostosa pra seus netinhos?

Isso é coisa de Comunista, vou apelar para a Justiça ou abrir uma CPI, por todos esses embargos infringentes de que tenho sido vítima. Eu que sei ferver água tão bem, fritar ovo?….tanto que não frito, cozinho na água, muito mais saudável.

Sim, mas onde você quer chegar ? O que essas histórias têm a ver com a pandemia? Nada, e ao mesmo tempo, Tudo. Eu sei que tenho que focar no que desejo discorrer, contar, ter objetividade e não ficar me perdendo em considerações abstratas. Ainda bem que não sou da academia: nem universitária, nem de letras, nem mesmo de exercício físico.

Então, conte logo esse conto, mulher, tá esperando o quê ? Entrar para a Academia Baiana de Letras? Conseguir vaga na Academia Baiana de Enfermagem? Lá vai você divagando de novo…E sobre você e a pandemia, que imbróglio é esse?

Vou contar. É que essa pandemia, além de todo horror, crueldade e sofrimento que tem causado a todos nós – afinal são mais de 500 mil brasileiros mortos – fruto da irresponsabilidade das autoridades federais, mormente do impronunciável, cursa com um quadro de fome, desemprego, desalento.

Para barrar a propagação do vírus, o SARS-COV-2, proteger as pessoas de contrair a doença – a Covid 19 – o procedimento efetivo é a Vacina – embora a política deliberadamente adotada tenha sido a imunidade de rebanho, “porque gado a gente mata”.

Contudo, outras Medidas Sanitárias Básicas igualmente importantes, também tiveram que ser adotadas: lavagem das mãos com água e sabão, uso do álcool em gel, uso de máscara, manter isolamento e distanciamento social, evitar aglomerações e ficar em casa. Em várias oportunidades também se utilizou o lockdown.

É claro que essas medidas imprescindíveis e necessárias, trazem consequências. Para que uma delas pudesse ser cumprida à risca, foi necessário ficar sem o trabalho das domésticas (a quase totalidade mulheres) para que elas e nós pudéssemos ser protegidas. Não necessariamente nessa ordem.

Ainda bem que foi instituído um instrumento legal – a suspensão do contrato – para que seus empregos pudessem ser preservados. Não tendo mais Ela aqui, quem vai realizar a prenda doméstica e suas malfadadas tarefas? EU !!!!! Porque esse tipo de trabalho é definido socialmente como da Mulher, da Mãe.

Ela, e por isso acredito, é que chamam de “Prenda“. Trabalho tem horário. Agora, vê se pode, eu a essa altura da vida, Meu Deus, ser instada a essa situação, mesmo tendo essa parte da minha porção mulher até aqui resguardada…… fazer o quê?

Observe como essa prenda são várias: lavar pratos, talheres e panelas, lavar a casa, roupa, banheiro, regar plantas, passar ferro na roupa – assim mesmo – fazer comida, que por sua vez se desdobra em um sem fim de tantas outras coisas, etc. e etc. e tal…

Gente !!!, aí é onde o bicho mais pega. Comemos demais: de manhã, de tarde, de noite – e nos intervalos desses espaços – e quando acordamos, já entramos no campo de batalha com tarefas que se estendem até a noite – e olhem lá – e se repetem a toda hora, todo dia, diariamente, numa série de sucessões sucessivas.

Não é Alucinante? Um Estrupício! Castigo! Verdadeira Tortura! Até a netinha de 4 anos já percebeu o que lhe espera, tadinha, quando disse para a mãe: “a gente come todo dia não é mamãe? lava prato todo dia ..” Com isso ela me deu o mote e me encorajou a contar esses fatos. Já a neta de uma amiga (a do peito), de apenas 2 anos, enquanto os adultos explicavam ao seu irmão para que servem os insetos e ao perguntarem e os humanos? Ela, que estava brincando e parecia não prestar atenção à conversa, respondeu, “pra comer”. Ainda bem que essas Meninas de agora são safo, espertas que só. 

E o massacre continua. E faz e limpa e lava e cozinha, recebe mercado, faz pedido, observa e relaciona o que está faltando, e vai… Nem termina já começa, é sempre, é nunca…Aí acendeu uma luzinha e lembrei do “Mito de Sísifo”. Mas em que consiste esse mito? 

Uma das mais incríveis narrativas da Mitologia Grega diz que devido à esperteza de Sísifo ao enganar os deuses, ele foi condenado a um trabalho sem fim: Zeus condenou-o a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte. Uma vez no cimo do monte, a pedra tombaria para o outro lado e rolaria encosta abaixo.Sísifo teria de descer o monte e empurrar novamente a pedra até ao cimo e foi condenado a fazer este trabalho durante toda a eternidade. 

Alguma semelhança com esse “nosso” trabalho doméstico? Não é o retrato perfeito das tarefas que executamos todos os dias e que ainda dão o nome de “Prenda”? Por Deus, que tipo de desobediência e enganação foi essa que fizemos aos deuses? Será que foi por causa da maça? Ou é complô de gênero?

Conhece algo mais parecido com a tortura de Sísifo do que isso? Existe algo que se repete tanto assim e nunca chega ao fim? É ou não torturante? EXAGERO? Sabe como Simone de Beauvoir se expressou ao se referir ao trabalho doméstico?

“[…] é uma repetição sem fim, a limpeza se torna sujeira, a sujeira é limpeza, uma e outra vez, dia após dia. A dona de casa se desgasta com o passar do tempo: ela não faz nada, apenas perpetua o presente. Comendo, dormindo, limpando, os anos já não se levantam para o céu, eles se espalham adiante, cinzas e idênticos. A batalha contra a poeira e a sujeira nunca é vencida” (BEAUVOIR, Apud GLAMOUR, 2019).

E ainda ousam chamar isso de “Prenda Domestica”. “Prenda” é objeto que se oferece como prêmio, presente ou dádiva.

Convencidas de que essa prenda é um castigo?

Eu não tenho dúvidas. Nem Sísifo.

EU – Nair Fabio – Exausta.

Salvador, abril/maio de 2021 da Pandemia Covid-19