LUIZ ROSSI analisa

Sergio Amadeu da Silveira. “O mercado e o intelecto geral”. Revista Margem Esquerda, 36, 1° semestre de 2021, p. 32-39.

Observações. 1. Como a análise tem um objetivo mais didático, o número e as citações mais extensas procuram facilitar a leitura e a compreensão das pessoas que desejam compreender as mudanças qualitativas que estão acontecendo no capitalismo digital ou de plataformas. 2. Enquanto as citações do analista serão assinaladas, as do autor sim.

Sergio da Silveira começa o artigo com uma pergunta: “As tecnologias digitais estão mudando a qualidade do capitalismo?

Ele responde que, “Aprendemos com Marx que o capitalismo é extremamente dinâmico, desigual e combinado. As operações do capital têm sido resilientes na extração e na apropriação de valor e têm gerado novos mercados e modelos de negócios.” (p. 32)

O capitalismo industrial está ficando para trás. Permanece dependente do capitalismo informacional ou capitalismo digital. Com o novo capitalismo, “os produtos de maior valor seriam baseados em tecnologias de informação” e não mais em produtos industriais. (p. 32)

Nick Srnicek, citado pelo autor, afirma que importantes pesquisas identificaram a noção de capital imaterial e de capitalismo cognitivo.

O conhecimento se converteu em força produtiva direta, o que consolidou a primazia do capital imaterial. A lógica da reprodução em larga escala foi substituída pela lógica da invenção ininterrupta e da criatividade. (…) assim, o conhecimento ao adquirir grande relevância econômica, leva o capital a tentar se apoderar não somente do trabalho diretamente empregado na produção, mas da imaginação coletiva, do trabalho cooperativo que gera avanços científicos, tenta, enfim, dominar e conduzir o intelecto geral. (p.33)

Para o autor, o mercado de dados já existia na era analógica, mas sua produção era relativamente restrita. Com os dispositivos digitais, o mercado de dados muda radicalmente e por

Serem cibernéticos geram automaticamente dados de controle de uma atividade. Um usuário na internet, por exemplo, produz uma grande quantidade dados enquanto navega. Esses dados reunidos durante vários dias permitem compor um padrão de comportamentos, informações sobre gostos, cores preferidas, imagens repulsivas ou elementos atrativos da atenção do usuário. A comercialização desses dados pessoais gerou um gigantesco mercado a partir da segunda década do século XXI.  (p. 34)

Megleva Kuneva afirma, citada pelo autor, “dados pessoais são o novo petróleo da internet e uma nova moeda do mundo digital”. (p. 34)

Os dados pessoais apresentam “complexidade, velocidade e alcance global sem precedentes. O mundo hoje está todo conectado em tempo real. Para isso, é necessário, a existência de uma infraestrutura confiável”. (p.34)

O acúmulo de conhecimento é vital para a reprodução do capital, principalmente no âmbito financeiro. (p. 34-35)

As redes informacionais cobriram o planeta e consolidaram a digitalização extrema da economia, dos mercados e das instituições, principalmente dos Estados. Em 2016, as empresas com maior faturamento nos Estados Unidos eram empresas digitais: Apple, Amazon, Google, Facebook. Poderíamos incluir também Microsoft, IBM, Oracle e Cisco, entre outras. (p. 35)

A presença maciça dos usuários na internet com a digitalização de bens e serviços simbólicos propiciou o surgimento das plataformas de relacionamentos nos primeiros anos do século XXI.

Em menos de 10 anos, as corporações de tecnologia embaladas pelo ideal de competividade neoliberal transformaram-se em empresas de dados. (…) O objetivo era obter o máximo de dados de cada pessoa para extrair padrão de consumo, de comportamento, e até os humores e os sentimentos, microssegmentos sociais e indivíduos.  (p. 35)

Essa tecnologia permite às empresas a “concentração de dados, o poder de rastreamento e análise, possibilitando novos cruzamentos de informações que aprimorem a extração de padrões de cada usuário. Assim, as plataformas serão mais capazes de oferecer amostras eficazes, muitas vezes em tempo real, para os departamentos de marketing de qualquer empresa, com fins comerciais ou políticos”. (p. 36)

O dataísmo é a crença absoluta de empresários nos dados que, para eles, estão “disponíveis na natureza e com o poder de desvendar o processo de dataficação da sociedade, segundo os pesquisadores Victor Meyer Schömberger e Keneth Cukier, (citados pelo autor), cujo processo é a redução de toda ação social em dados que podem ser quantificados, rastreados em tempo real, possibilitando análises preditivas. (p. 36).

O autor continua:

Assim, o neoliberalismo arregimentou as tecnologias digitais para construir um gigantesco mercado de dados com a crença de que a corporação conseguirá superar ou anular a competição pela predição”. (p. 36)

A dataficação permite às big techs, ou com mais clareza, as plataformas digitais a colonização da vida. Houve uma expansão colossal da busca de dados pelo planeta. (p. 36)

O autor afirma que as “Plataformas são mediadas ou criadoras de mercados. Colocam-se entre a oferta e a demanda de um produto ou serviço que não necessariamente possuem. Extraem o máximo possível das interações que viabilizam e dos agentes que interagem entre si a partir de seus dispositivos. Sua posição estratégica se dá pela obtenção de dados de todos os envolvidos em um segmento do mercado. Essa dataficação acentuada e vigorosa que tenta converter tudo em dados foi denominada colonialismo de dados. (p. 36-37, destaque nosso)

Mais adianta o autor afirma, “Dados não são naturais, são forjados a partir de dispositivos inventados, dependem de criações humanas, direitas ou objetivadas. São um ativo produtivo a partir de dispositivos de captura de sinais que podem ser o olho humano, uma câmara de alta resolução ligada a algoritmos de reconhecimento facial ou um link/botão de uma rede social criado para captar um comportamento, estado emocional, preferência, posição ou descrição quantificável. Também podem ser gerados a partir de algoritmos (criação objetivada) que constituem novos dados a partir do cruzamento e tratamento de dados anteriores. São produtos que adquirem valor de troca no mercado de dados e podem ser armazenados em um ciclo de reprodução e valorização, operando no circuito do capital”. (p. 37)

Marx alerta, citado pelo autor, em uma passagem dos Grundisse que a “circulação do capital é ao mesmo tempo seu devir, seu crescimento, seu processo vital. (…) A entrada em cena dos muitos capitais não deve aqui perturbar o exame (…) a relação de muitos capitais se esclarecerá após ser considerado aquilo que todos têm comum, ser capital”. (p. 37, destaque nosso)

O autor continua:

O dinheiro e a própria máquina se convertem em capital. (…) Assim como uma máquina é trabalho objetivado, os dados armazenados pelos algorítmicos e softwares desenvolvidos pelos trabalhadores e cientistas assalariados são produtos do trabalho humano direto ou indireto. São ativos que podem participar de vários momentos do processo de reprodução do capital no cenário informacional”. (p. 37)

Abaixo transcrevo um importante parágrafo do autor sobre o caráter e a funcionalidade da economia datificada, “O principal modelo da economia datificada operado pelas plataformas pode ser descrito como a oferta de acesso gratuito ou barato a serviços e informações diversas, necessárias ou supérfluas, como o objetivo de capturar dados dos usuários, aliás o máximo de dados possíveis. Quanto mais tempo o indivíduo utilizar a plataforma, mais dados ele gera sobre seu comportamento intenções e vontades. Sistemas algorítmicos de aprendizado em máquina ou de aprendizado profundo, modelos probabilísticos e estocásticos são projetados para extrair padrões e predições desses dados. Desse modo, é possível estruturar amostras diversas cujo acesso a elas será vendido a quem quiser comprar”.

Em outro parágrafo, o autor continua a explicitar o caráter desse tipo de economia e afirma:

Uma plataforma não compartilha os dados que captou de seus usuários com outra plataforma, a não ser que seja do mesmo conglomerado. Na economia de dados, o grupo Alphabeth (que controla o Google), o Facebook, a Amazon, a Microsoft e o Baidu são concorrentes. Todos precisam manter a coleta de maciça de dados para “melhorar a experiência de seus usuários” e oferecê-los em amostras para que os outros setores da economia possam atingi-los com mensagens, propaganda, promoções e serviços.” (…) (As legislações existentes) “fizeram aumentar os custos de transação com dados (…) beneficiando ainda mais as corporações que possuem capital para investir. Mesmo regulações que têm o objetivo de proteger a privacidade e delimitar as transações com dados pessoais beneficiam quem tem mais capital, além de gerar novos negócios que visam à proteção do mercado de dados, entre eles o seguro sobre dados armazenados”. (p. 38)

E o autor continua:

Curiosamente, a barreira de entrada para coleta massiva, armazenamento e tratamento de dados foi elevada, o que fortalece as estruturas das plataformas já consolidadas.” (p. 38)

O neoliberalismo robustece “A transformação do conhecimento sobre os fluxos da vida em dados concentrados em grandes corporações, gerenciadas por algoritmos e sistema de inteligência artificial. A geração de valor a partir do uso que a sociedade faz das plataformas (…) opera a tentativa do capital de controlar o intelecto geral em uma sociedade baseada no conhecimento”.

Com o objetivo de compreender o caráter do sistema capitalista e sua dinamicidade, o autor cita Marx, na seguinte passagem:

À medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza efetiva passa a depender menos do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado que do poder dos agentes postos em movimento durante o tempo de trabalho, poder que – sua poderosa efetividade -, por sua vez não tem nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa sua produção, mas que depende, ao contrário, do nível geral da ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência à produção”. (p. 38-39)

Sérgio Amadeu da Silveira conclui o artigo da seguinte forma:

O capitalismo atual coloniza a vida a partir de sua conversão em fluxo de dados, precariza o trabalhador e extrai valor da ampla modulação social organizada com a plataformização, que pretende capturar o intelecto geral  pela dataficação”. (p. 39)

Aracaju, 19 setembro de 2021