LUIZ ROSSI

Análise do artigo de Evgeny Morozov – “Socialismo digital: reimaginando a social-democracia para o século XXI”. In Revista Margem Esquerda, nº 36, 1º semestre de 2021, p. 70-75.

Comentários: 1. Os subtítulos são de responsabilidade do autor. 2. Os grifos assinalados são de responsabilidade do analista.

Evgenu Morozov afirma que os socialistas e social-democratas perderam o rumo quando se trata de enfrentar a dinâmica da economia digital e do capitalismo digital. Para ele, quando se trata de big techs e do Vale do Silício, os socialistas e democratas não enfrentaram esses poderes,

Embora seja verdade que sociais-democratas e socialistas se preocuparam tradicionalmente com questões de poder, Estado de direito e legalidade, isso nunca foi prioridade na agenda social-democrata e socialista. Os valores que, na verdade, conduzem o projeto social-democrata e socialista sempre foram a igualdade, justiça social e, diria eu, a inovação institucional. (p. 70 – itálicos nosso)

O autor chama a atenção para o fato de que a social-democracia,

inventou novas instituições e novas práticas (como) o Estado de bem-estar-social e a codeterminação dos trabalhadores, assim como instituições que se encontram entre o capitalismo e o setor público.(p. 70-71)

Morozov cita o exemplo das biblioteca, cujo parágrafo elucidativo cito abaixo, a fim de esclarecer as relações entre sistemas público e mercado,

Tomemos o sistema de bibliotecas. É uma instituição que trabalha com um ethos e uma razão diferente daqueles do mercado. Não estimulamos a concorrência entre cinquenta bibliotecas a fim de produzir melhores resultados. Reconhecemos que as bibliotecas são um bem público que requer uma infraestrutura e financiamento adequado. Usamos esse bem público para promover um conjunto de valores, alguns dos quais têm a ver com a solidariedade, cooperação e igualdade. Admitimos que nossa trajetória e nossa classe não devem ser obstáculos para o acesso a certos recursos. (p. 71 – negrito nosso)

Morozov é crítico em relação à perda de protagonismo da social democracia frente ao capitalismo digital ao não defender adequadamente o Estado de Bem-estar-social, a codeterminação e as instituições públicas. Para ele, o Estado de Bem-estar-social criou as condições de funcionamento em ambiente democrático, mas também facilitou o acesso da população aos bens públicos, além de permitir a essa população participar das decisões políticas, mesmo indiretamente. A contribuição social-democrata e socialista:

foi quase esquecida. Nas últimas décadas, porém, a social-democracia reconheceu como sua principal tarefa a defesa do que restou dessas instituições após o ataque neoliberal. Por mais necessário que tenha sido esse processo, o resultado foi limitar a capacidade das forças social-democratas e socialistas de pensar a mudança tecnológica e os tipos de inovação institucional necessários para colocar a dinâmica econômica num caminho não apenas mais igualitário, como também mais eficiente e produtivo – como fez a social-democracia no passado. (p. 71 – negrito nosso)

O FOCO ESTREITO DO NEOLIBERALISMO NA CONCORRÊNCIA.

Para o autor, os valores da social-democracia estão sob ataque. Afirma que a infraestrutura existente está defasada. É necessário, pois, tomar providencias. Afirma:

Atualmente, essa infraestrutura, em geral, está em mãos privadas. Isso se aplica aos dados, que aplicam à inteligência artificial e à robótica. Sem uma intervenção estrutural maciça, que pode não nos agradar porque cheira a corporativismo ou algo do tipo, não temos mais controle alguma sobre a situação. (p.72 – negrito nosso)

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ALÉM DO CAPITALISMO DIGITAL

Morozov afirma que os Estados europeus têm dificuldades de “coordenar políticas fiscais e industriais”. Se porém, os europeus tiverem dificuldades de realizar a inovação estrutural e social,

Isso significaria a ascensão que o projeto neoliberal teria sucesso em seu objetivo final: impedir a ascensão de quaisquer outras formas de coordenação não mercantil. Podemos coordenar quanto quisermos a família, a igreja ou qualquer outra unidade de organização, independente do mercado. Mas, no momento que passamos a representar uma ameaça à acumulação capitalista, cortam as nossas asas. (p. 72 – negrito nosso)

Para Morozov, o neoliberalismo:

tenta evitar que formas de coordenação social que nada têm a ver com o mercado e a concorrência ocupem o espaço que instituições como as bibliotecas ocupam na sociedade. Imagine a alternativa neoliberal ás bibliotecas: os leitores recebem kindles de 24 empresas diferentes e pagam por cada palavra que leem, os invés de pagar uma taxa anual e poder pegar emprestados quantos livros quiser – pagar por isso via impostos. Em última análise, o projeto neoliberal trata de reduzir nosso variado repertório de intervenções a apenas uma: a concorrência. Como se resolve um problema? Introduzindo mais concorrência. (p. 72-73 – negrito nosso)

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO UM BEM PÚBLICO

Morozov afirma que:

Os neoliberais conseguiram encolher nossa imaginação e nos deixar de mãos atadas. Eles nos convenceram a acreditar que problemas podem ser resolvidos com mais concorrência. Isso não quer dizer que a concorrência é ruim per se ou não deve ser parte da solução. O problema é que ela é vista como solução padrão.(p. 73 – Negrito nosso)

O autor continua:

E quando se trata de big techs, grande parte do debate que fazemos nesse momento encontra-se profundamente enraizada nessa episteme neoliberal. As soluções viriam das bigh techs ou das startups. (p. 73)

Chama a atenção que há:

pouco espaço para se imaginar configurações alternativas de forças sociais, seja sindicatos, cooperativas de trabalhadores, municípios ou forças nacionais. (p. 73)

Afirma também que:

pouco esforço para se refletir sobre que tipo de infraestrutura jurídica, política ou tecnológica nos permitiria, juntos, criar projetos equivalentes ao Estado de bem-estar social ou às muitas instituições semelhantes a ele. (p. 73 – negrito nosso)

E termina esse parágrafo com a seguinte afirmação:

Pode parecer abstrato, mas a abstração é exatamente do que precisamos para fazer o balanço da hegemonia neoliberal. (p. 73 – negrito nosso)

Morozov afirma que não se perdeu a batalha frente às big techs. Considera, porém, que o neoliberalismo “tratou de roubar nossa imaginação e amarrar nossas mãos”. Propõe discutir uma série de instituições para confrontar as big techs, com o objetivo de construir novos conhecimentos, com a implantação “de um novo tipo de bem público”. O objetivo seria “não apenas (…) promover a solidariedade, a justiça e a igualdade”, mas também, impulsionando uma sociedade “mais eficiente e eficaz”. (p. 73)

Existem, para ele, 5 empresas chinesas e 5 norte-americanas que estão investindo maciçamente, cada uma, de 10 a 12 bilhões de dólares por ano em pesquisas sobre a inteligência artificial (IA). Essas empresas, na corrida para ter o controle da inteligência artificial, investem, todas, com o mesmo padrão científico, o que é perda imensa de recursos.

Todas estão treinando seus sistemas para reconhecer fotos de gatos a partir de fotos de cachorros, fotos de luzes de trânsito a partir de fotos de pessoas de pele clara. Todas estão repetindo o mesmo conjunto de funções. Não há melhor argumento contra o desperdício do capitalismo do que a atual corrida pela IA. (p. 73-74 – negrito nosso)

Para Morozov, a inteligência artificial (IA):

é quase um bem público clássico: é desenvolvido uma única vez e, depois, deve se tornar acessível a todos. Isso não só reduz drasticamente seus custos, mas também aumenta potencialmente sua qualidade, porque é possível tirar proveito do efeito em rede. (p. 74egri – negrito nosso)

Adverte que socialistas e social-democratas:

têm a estrutura mental (…) dominada pelos pecados diários dessas empresas – evasão fiscal, interferência no processo legislativo, vigilância de atividades e críticas (…). Não tenho nenhuma dúvida de que o projeto social-democrata ou socialista que construirmos sobre as ruínas das bigh techs ou do Vale Silício terá de resolver um grande problema: a propriedade e o controle da infraestrutura que então poderá ser adaptada a projetos diferentes. (p. 74 – negrito nosso)

Para ele a construção de um sistema de bem-estar social foi fundamental e decorreu de uma:

suposição fundamental: certos serviços são tão importantes para o bem-estar da sociedade e dos seres humanos que devem ser desmercantilizados. É por isso que temos assistência médica, educação, transporte e alguns outros serviços desmercantilizados.  Infelizmente, o capitalismo encontrou uma forma de invadir os domínios mais íntimos de nossa existência. Segundo uma expressão frequentemente usada na filosofia alemã, “ele colonizou o mundo da vida” (…) Tem havido um esforço sistemático para mercantilizar cada parte de nossa vida cotidiana, cada interação nossa, seja com pessoas que pensam como nós, seja com grupos políticos ou instituições. Urge que haja uma reação. Essas relações sociais mediadas digitalmente precisam ser desmercantilizadas a ponto de poder, de fato, construir e promover as relações solidárias e igualitárias.(p. 73-74 – negrito nosso)

APENAS REGULAR NÃO É SUFICIENTE

Morozov considera que os europeus, no caso, a Comissão Europeia, não têm nenhum plano de construção de uma infraestrutura que faça frente aos ataques do capitalismo digital. Continua afirmando que a construção de uma infraestrutura é:

um imenso desafio político-econômico e cultural posto pela digitalização. (..) Esse encontro com a tecnologia digital (…) oferece uma oportunidade única, porque tem (…) permitido reimaginar de ponta a ponta qual deveria ser a postura social-democrata, para além da mera defesa das conquistas do século XX. (p. 75)

O autor chama a atenção para o tempo curto que tem a social-democracia europeia a fim de romper a lerdeza em confrontar as plataformas digitais. É uma tarefa hercúlea pois a Europa conta apenas “com 2 ou três anos de experimentação digital não liberal”. Isso significa “embarcar numa ambiciosa jornada intelectual” (…). Os partidos social-democratas da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina “estão mergulhados numa inércia ideológica e intelectual que acaba inibindo a invenção de novas formas de associação institucional e social” (…). (p. 76-77)

A CONTRADIÇÃO NEOLIBERAL

Morozov alerta para a existência de:

dois fios (que) precisam ser combinados. Primeiro, Bruxelas necessita constituir urgente “um fundo europeu de tecnologia” para evitar que as empresas de tecnologia europeia “não acabem nas mãos da Arabia Saudita”. Para ele, é necessário que a Comissão Europeia reaja rápido a fim de contar com os meios, não apenas os financeiros, para fazer frente a essa situação. Segundo, a social-democracia necessita buscar no passado valores importantes a fim de conectá-los com instituições importantes, necessárias para confrontar o capitalismo digital. Acentua que as empresas digitais como o Uber, o Google e outras, embora estejam batalhando para “consolidar a ideia de empreendedorismo e concorrência, os custo para manter o sistema são muito altos”. Atualmente, os neoliberais têm dificuldades de resolver essa questão. A cada dia, mais problemas se acumulam. (p. 77 – negrito nosso)

Para concluir, afirma que que socialistas e social-democratas não podem subestimar os adversários.

A causa dos nossos problemas não é a confusão sobre as big techs, é a confusão sobre o papel, o significado e o futuro da social-democracia (…). Nossa confusão sobre a indústria da tecnologia é consequência e não a causa dos nossos problemas. (p. 77)

Os socialistas e os social-democratas têm um desafio a vencer que se expressa hoje na economia e no capitalismo digital.

Aracaju, 12 de setembro de 2021