JAIME BRASIL

Há 26 anos, em 1995, escrevi um artigo para um jornal local, aqui de Roraima, sobre a então nascente visão ideológica que se tornava hegemônica diante das mudanças econômicas pelas quais o Brasil passava e pela grande novidade na época. A internet que dava os seus primeiros passos nas periferias do país, juntamente com a abertura do mercado brasileiro aos produtos importados, pavimentava o caminho para a construção do discurso da “Globalização”.

Vejamos o que o tal artigo nos trazia:

“A Aldeia Exterminada

Fala-se muito em “aldeia Global”, na integração não só dos povos, mas dos indivíduos. A internet, a fibra ótica, a Tv tridimensional (holográfica) e interativa. São mecanismos e novidades tecnológicas que já estão e estarão a nossa disposição para nos interligarmos ao mundo.

Queremos entender e conhecer os povos “vizinhos” da “Aldeia”, a 10.000 km de distância. Buscamos atingi-los inteiramente nas latitudes em que estejam, mas evitamos a proximidade com a realidade que nos cerca. Ninguém quer entender a forma de viver dos nossos vizinhos Yanomami ou integrar as crianças abandonadas e marginalizados  que perambulam pelas ruas.

Chegamos ao fim do milênio dominando geneticamente a vida, passeando no espaço. Temos trens que flutuam, aviões invisíveis e pipocas que crescem como que por mágica na tela do microondas. Mas, afastamo-nos dos limites do corpo, da realização concreta dos sentidos, esquecemos de perceber a chuva, o vento, a lua. Tudo é fabricado para além da realidade. Somos observadores de pequenas e grandes ilusões, não chegamos a participar.

Quem conectará o Brasil e o mundo fictícios com o real?

Quando estaremos preocupados em aplicar a “tecnologia” do amor?

Que “aldeia”é essa?

Há teorias que desmentem a idéia da “Aldeia Global”. Aldeia quase não produz lixo e o que é produzido é biodegradável. É onde existe completa democracia no acesso à informação. Como nos fala Washington Novaes: “Entre os índios o que um sabe, todos sabem”.

Na nossa “Aldeia”, não. Essa desperdiça seus recursos, sua energia. Nossa “Aldeia” livra-se todos os dias dos lixos materiais e sociais que estão em desconformidade com seus interesses. Para manter as aparências e nossa ilusão, ela nos dá todo o periférico, o adorno, toda criatura e nos nega o central, a arte, a criação.

Ficamos sem a essência e a consciência que realmente importam.

É o lixo! É o ser!

Tratamos a natureza e nossos semelhantes como depositários da verdade que queremos esquecer. É cultural: o que é ruim jogamos no “mato”. A natureza é o mato, nossos semelhantes também. Jogamos neles nosso lixo interior, nossa indiferença, nosso silêncio, o desejo dissimulado de que seria melhor que não existissem.

É só olhar ao redor e os exemplos nos refletem: durante todo o verão enchemos o rio Cauamé de lixo, toneladas de latas de cerveja, mas depois nos esquivamos em lá retornar por considerá-lo muito sujo. O Cauamé é o “El Dorado” de nossas consciências. É o crime sem culpado. O erro sublimado. O lixo sartreano: o lixo “dos outros”.

Um dia o mundo real nos devorará. O homem de verdade nos fará sentir como Padre Caleri, impotente, sendo devorado por um mundo maior que nossa ilusão. Sem fantasia, seremos devorados cruamente.

Nosso desperdício e falta de empatia cobrarão seu preço. Os milhões e milhões de pobres e miseráveis deixarão de ser estatística e acabarão com a farsa.

A internet, as pipocas mágicas, os objetos voadores constituirão a nossa sucata, simbolizarão não mais a nossa grandiosidade, mas nossa pequenez.

Um grande Godzila-Makunaima surgira nos nossos campos, no lavrado, se ele ainda existir, e nos dará a exata dimensão do que fizemos.

A ilusão de plástico se desmanchará ante a poesia em carne viva. Como cantou Caetano: “Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante.”

Um dia todos faremos parte de uma grande Aldeia.

2 de novembro de 1995. Boa Vista/Roraima”

Pois bem, de lá para cá o que temos?

Temos o aprofundamento e a aceleração vertiginosa dos processos de exploração do ser-humano e de destruição na natureza. A humanidade e a biosfera estão sob ataque, fustigadas pela ambição desmedida insana.

Brasil perde 16% do volume de água desde 1990;

44º Celsius em Vancouver, no Canadá, com mais de um bilhão de seres vivos mortos devido ao calor descomunal;

Mais de um bilhão de arvores vítimas das queimadas na Amazônia, e, segundo especialistas, ela já emite mais gás carbônico do que absorve;

chove pela primeira vez no ponto mais alto da Groelândia, onde antes só caia neve;

relatório da ONU aponta que já chegamos a uma fase sem precedentes no aquecimento global causado pela ação humana.

Essas são algumas manchetes deste mês de agosto de 2021.

O fato é que necessitamos urgentemente de uma profunda e radical mudança no curso da existência humana neste planeta, sob pena de sucumbirmos.

Infelizmente já não podemos escolher entre civilização e barbárie, pois já vivemos a barbárie. Cabe-nos tentar combatê-la e destruí-la.

A Revolução social, econômica, política e comportamental não é mais uma missão para apenas melhorarmos o mundo, mas sim para impedirmos que o planeta, e nós juntos, sejamos todos destruídos.

A Revolução agora é uma questão de sobrevivência.