Crônica política

            LUIZ ROSSI

Nos anos de Lula-presidente, me lembro, o Pedro, simples funcionário da portaria do prédio em que morava em Brasília viajou para visitar seus parentes no Piauí. De repente, chegou ao destino. Limpo, alegre. Qual foi a satisfação vivida pelo Pedro naquele momento? Não sei, mas acredito que se sentiu altivo e alegre.

Me lembro também de uma empregada doméstica, a Vilma, que, com a família, dirigindo o pequeno carro, foi ver o pai doente no Maranhão. Parava onde queria e dormia onde era fosse possível. Dormia mal, às vezes, mas o que importava era a liberdade conquistada. A viagem estava envolvida em muitas surpresas agradáveis e, também, desagradáveis, o pneu furou. Mesmo nesse momento, de parada forçada, a viagem era retomada em pouco tempo.

 Foi um momento em que a população, fruto da política econômica e social do governo federal, podia ter um supérfluo para viajar, o que não acontecia antes pois, quando uma pessoa queria viajar, era obrigada a varar dia e noite de ônibus a fim de chegar ao destino, no caso, o Nordeste brasileiro.

Naqueles anos, as pessoas mais pobres e desprovidas de recursos, podiam adentrar um shopping, todas vestidas com roupas buscadas no fundo da mala, usada. Para essas pessoas, naqueles anos, passear em um shopping, ver lojas, comprar um tênis, um sapato, um óculos era possível. Ou mesmo, simplesmente vadiar pelo espaço bonito e organizado em que a maioria das mercadorias estavam com preço muito além da possibilidade de comprar. Mas, essas pessoas achavam que, definitivamente, o espaço era delas também, não apenas da classe média e dos ricos.

As antropólogas Rosana Pinheiro-Machado e Mori Scalco acompanharam grupos de jovens, em visita a shopping de Porto Alegre, nos anos Lula, com o objetivo de estudar o comportamento desses rapazes e moças. Felizes por terem ganho o seu próprio dinheiro, adentravam para passear, comprar algum tênis ou outra coisa qualquer. Consideravam que esse espaço passava a ser deles, não apenas da classe média e dos ricos. Agora tinham dinheiro para mostrar aos vendedores, normalmente agressivos, de que possuíam recurso para comprarem o que quisessem. Esses grupos de jovens, no ato de ir a um shopping, eram chamados de rolezinhos.

Mas, como era um espaço exclusivo de classe social, mesmo com a última roupa passada e reluzente, com tênis moderno, óculos escuros, os vigilantes não os aceitavam, expulsava-os do estabelecimento. Tinham dinheiro, eram ordeiros, não roubavam e não atrapalhavam as pessoas de “bem” poderem comprarem, mas mesmo assim, eram enxotados.

Pesquisa feita na época mostrava que a população “de bem”, isto é, a das classes mais abonadas e ricas, não queriam esses jovens no shopping. Empregavam a polícia para dar cobro a essas andanças e ousadias em local tão “exclusivo” e “nobre”. Essa presença de moça e moço no naquele local, gente pobre, era um “atentado” aos olhares tão “inocentes” dos frequentadores habituais. Era necessário não manchar esse espaço de gente que tinha dinheiro, sabia se vestir, andava perfumada, cheirava a perfumes caros, viajava para todos os cantos do mundo e tinha consciência de seu poder econômico e político. Por isso, era impossível tal presença no shopping.

Outra política do governo, nesse mesmo período, foi a aprovação das cotas para jovens de origem negra ou indígena. Essa política exitosa possibilitou a milhares de jovens das periferias e das florestas entrarem em universidades públicas. E, como não esperavam os críticos, eles tinham um desempenho semelhante aos dos alunos vindos dos vestibulares, embora enfrentando imensas dificuldades, principalmente quando não tinham acesso à bolsas de estudo e ao alojamento gratuito. Mas, com todas essas dificuldades, a juventude mais pobre apoderou-se do espaço, mostrando que a capacidade de pensar é comum a todo ser humano, sendo negro ou indígena, ne não apenas às classes sociais de cor branca. Devido a essa política do governo Lula, houve uma revolução em muitas universidades públicas, tornando-as mais coloridas e plurais.

A grande crítica de setores da classe média e dos ricos é de que esses jovens não tinham acessado à universidade por mérito, mas por uma espécie de apadrinhamento do governo. O que houve, de fato, foi o esforço governamental em resgatar o/a jovem da pobreza, da miséria e da escravidão e dar a ele/a a condição de superar-se como ser humano. A jovem e o jovem das classes sociais com posse não podem reclamar! Nascem, crescem, estudam e viajam, pois são oriundos de famílias de classes sociais com poder econômico e político.

A ascensão dessa população mais pobre a um patamar minimamente digno via melhoria das condições econômicas, sociais e culturais não foi digerida pelas classes médias e pelos ricos. Houve muita crítica na época pelo fato de que o “farofeiro” tivesse a ousadia de viajar de avião, esquecendo que esse espaço já era sinônimo de distinção de classe e, por isso, não poderia ser utilizado por gente com menos “finesse”. Situação semelhante aconteceu com os jovens da periferia, principalmente de origem negra, agora com emprego e dinheiro, que iam ao shopping comprar e se divertir e, por que não, só se divertir?

Por último, esse/a jovem, também tinha, e continua tendo, condições adversas para estudar em comparação com filha e filho de famílias de classe média, para não falar dos ricos, que, na maioria dos casos, começa trabalhar somente ao término da universidade, lá pelos 22 anos. E, veja, estou sendo muito bondoso. As críticas explícitas era de que esses jovens com menos posses recebiam uma “benesse” do governo ao entrar na universidade.

A razão maior dessas críticas devia-se ao fato de que as famílias de classe média e rica, perdiam nesse caso também o espaço de classe, construído numa sociedade extremamente desigual. Quando um número significativo de adultos e de jovens das periferias brasileiras ascende econômica, social e culturalmente entra em choque com os espaços tradicionais, com caráter de classe, legitimados pela herança escravocrata, ocupados principalmente por famílias brancas.

A partir dos governos Temer e Bolsonaro, Pedros e Vilmas e outros milhões de brasileiras e brasileiros mais pobres perderam as conquistas alcançadas, após décadas de muita luta e combate. Milhões são os desempregados e outro tanto de trabalhadores de bicos. A pandemia ceifou milhões de empregos e os dois governos preocuparam-se apenas em garantir mais recursos para as empresas poderosas e para os ricos. Milhares morreram devido à pandemia por incúria do governo federal. Este está retirando recursos das universidades públicas, o que beneficia as instituições de ensino privadas sendo, a maioria, de grandes grupos econômicos.

Para essa população mais pobre, o avião vai continuar o espaço exclusivo de classe social mais abastada e rica. A solução é viajar de ônibus durante muitas horas. Embora as cotas permaneçam, as dificuldades continuam pois o dinheiro ficou mais curto para comer e morar. As dificuldades aumentaram durante a pandemia, já que parte importante dos estudantes pobres não têm recursos para comprar computador para estudar remotamente. Bolsas de estudo são cortadas. O governo quer que sobre dinheiro para pagar os juros das dívidas com os banqueiros, além de aumentar os salários dos militares das Forças Armadas, a todo momento. Moça e moço, com menos ou nenhum dinheiro, são considerados “perigosos” ao entrarem no shopping; isso facilita a maior repressão dos vigilantes e da polícia.

Brasília, 22 de agosto de 2021