LUIZ ROSSI

Análise do Prefácio do livro de Evgeny Morozov “Big Tech – A ascensão dos dados e a morte da política”. São Paulo, UBU Editora, 2018. Tradução de Claudio Marcondes.

Prefácio à edição brasileira (p. 7-12)

Antes era pensamento corriqueiro de que as plataformas tecnológicas globais chegaram para ajudar as pessoas como instrumentos inofensivos. Mas, com o tempo, a situação ficou mais clara. Evgeny Morozov afirma:

Agora, tais plataformas são cada vez mais parecidas com um bloco poderoso, com interesses mercantis ocultos, lobistas e projetos de dominação do mundo. A tecnologia digital da atualidade, ficou evidente, não é apenas ciência aplicada, como ainda sustentam as filosofias mais vulgares da tecnologia. Ela é, na verdade, um emaranhado confuso de geopolítica, finança global, consumismo desenfreado e acelerada apropriação corporativa dos nossos relacionamentos mais íntimos. (p. 7).

Para o autor, a existência do Uber e da AirBnb se deve ao “afrouxamento da legislação trabalhista ao redor do mundo”, ao permitir a essas empresas a utilização de “vínculos empregatícios escassos”.  As medidas tomadas após 1945, nos terrenos econômico e político, determinaram a pujança atual dessas tecnologias. Em passado recente, consultores digitais apregoavam as benesses das tecnologias digitais, não atentando (e mesmo não querendo fazê-lo) para seus malefícios. (p. 7)

O autor afirma:

que os dados – e os serviços de inteligência artificial que eles ajudaram a estabelecer – vão se constituir em um dos terrenos cruciais dos embates geopolíticos deste século. Até agora, os principais competidores são bem conhecidos – os Estados Unidos e a China, os dois países com setores tecnológicos mais avançados -, mas é bem provável que outros, como a Rússia e a Índia vão buscar um lugar no pelotão da frente, no mínimo movidos pelo temor de uma dependência excessiva de serviços digitais estrangeiros.   (p. 9)

Infelizmente, para o autor:

as plataformas digitais buscam nos atrair para seus impérios digitais acenando com serviços gratuitos e convenientes – um paradigma quase antitético¹ ao dos direitos digitais. Independentemente de estarem em Seattle ou Pequim, as plataformas digitais ganham dinheiro com a promessa de converter os direitos públicos duramente conquistados – o direito à liberdade de expressão, à segurança, ao transporte – em serviços eficientes proporcionados pelo setor privado, mas desprovidos de garantias. (p. 9-10)

O autor espera que o empresariado desenvolva:

“um poderoso ethos² de dinamismo empresarial, associado ao firme propósito de repensar radicalmente o funcionamento de nossa sociedade e o papel que a tecnologia desempenha nela”. (p. 10)

Morozov afirma que como progressista radical não pode se permitir de descurar e encarar a inteligência artificial como um instrumento poderoso para a democracia. Para ele, os progressistas:

não podem se dar ao luxo de serem tecnofóbicos (…) de rejeitar a inteligência artificial e outras soluções que fazem o uso intensivo de dados porque a Amazon e Alibaba recorrem (à inteligência artificial) para fins execráveis.      (p. 10)

O Brasil é lembrado pelo autor. Ele afirma que foi um dos primeiros países no mundo a reconhecer a “importância da soberania tecnológica”. Foi também “um dos primeiros países do mundo em investir num enquadramento robusto dos direitos digitais – o chamado Marco Civil”. A despeito da crise que assolava o Brasil (esse prefácio foi escrito em novembro de 2018, logo após as eleições presidenciais), esse país jovem e dinâmico não pode descurar do uso sistemático das novas tecnologias.

O autor posiciona-se sobre as eleições brasileiras de 2018 da seguinte maneira:

“Ainda que tenha perdido alguns anos com disputas internas, não há motivo para que abandone a batalha (…) As eleições (no Brasil) de 2018 mostraram o alto custo a ser cobrado de sociedades que, dependentes de plataformas digitais e pouco cientes do poder que elas exercem, relutam em pensar as redes como agentes políticos. (p. 11, negrito nosso)

Para Morozov, o modelo de negócios da:

Bio Tech funciona de tal maneira que deixa de ser relevante se as mensagens são verdadeiras ou falsas. Tudo o que importa é se elas viralizam (ou seja, se geram números recordes de cliques e curtidas), uma vez que é pela análise de nossos cliques e curtidas, depurados em retratos sintéticos de nossa personalidade, que essa empresas produzem seus enormes lucros. Verdade é o que gera mais visualizações. Sob a ótica das plataformas digitais, as fake News são apenas as notícias mais lucrativas”. (p. 11)

A superação da infraestrutura de comunicação política (financiamento público de campanha, tempo de tv do candidato) abriu espaço para essa comunicação política ser feita pelas plataformas digitais. Para o autor, se não for encontrada soluções para essa situação:

“as democracias se afogarão em um tsunami de demagogia digital; esta, a fonte mais provável de conteúdos virais: o ódio, infelizmente, vende bem mais que a solidariedade”. (p. 12)

Ele considera que é necessário livrar a democracia “da influência perniciosa da Bio Tech”. (p. 12)

REFLEXÕES SOBRE ESSE ARTIGO:

Qual é a posição do Brasil, país de grande riqueza e população de mais de 200 milhões de habitantes, no plano geopolítico mundial, no que se refere às disputas de China e dos Estados Unidos em torno das novas tecnologias? Como encarará a entrada de Rússia e Índia nesse clube seleto que disputa, e cada vez de forma mais agressiva, o controle dessas novas tecnologias com repercussão nos planos político, econômico, social e cultural no mundo?

As perspectivas brasileiras são desoladoras em relação a um futuro tecnológico. Não é apenas no governo Bolsonaro – uma tragédia em execução – mas, também, os governos anteriores sempre mostraram-se vassalos dos Estados Unidos durante a República. E hoje, esse país disputa com a China o espólio brasileiro. Nem o governo do ex-presidente Lula considerou as novas tecnologias como fundamentais para o Brasil. Lutou para o Brasil ter um lugar ao sol no mundo, mas como poderá isso acontecer isso sem os poderes que lhe pode conferir as novas tecnologias?

O título do livro de Evgeny Morozov contém a expressão “a morte da política”. Por que a expressão “morte da política” foi escolhida pelo autor como título do livro? E o que significa?

Parto da seguinte afirmação: se os brasileiros trabalhadores e pobres considerassem a Política como uma atividade humana fundamental, certamente o controle político exercido pelas classes dominantes, por alguns setores religiosos, pela mídia comercial hegemônica, seria muito menor. Os trabalhadores e a população mais pobre não discutem política no Brasil e, por isso, são sistematicamente controlados e manipulados, servindo aos interesses dessas classes dominantes.

Qual é, então, a novidade que traz Morozov no quesito “morte da política”?

É que se a Política, entre nós, não tem papel relevante para a maioria da população hoje, com as plataformas digitais como Facebook, Google, Uber, Airbnb e outras, a Política tende a desaparecer completamente. Esse é a tese que Evgeny Morozov e Jody Dean e outros autores defendem de que a maioria das pessoas no mundo está se transformando em servos, reeditando em certo sentido um novo feudalismo, agora com novos senhores, os magnatas das plataformas digitais.

As informações e as análises demonstram que as plataformas digitais têm caráter neofeudal e transformam a maioria da população em servos. Essas plataformas buscam transferir as conquistas fundamentais como saúde, educação da área pública para a área privada. Essa passagem do público para o privado em educação, saúde, segurança pública visa obter lucro com esses setores. A empresa privada, a não ser para a população de alta renda, sempre oferece serviços caros para uma população de poucos recursos e de qualidade suspeita já que o objetivo é o lucro e não a qualidade desses serviços. A maioria da população, principalmente em país como o Brasil, com mais da metade da população vivendo em condições socialmente precária, essa nova situação configura uma tragédia.

NOTAS:

 (¹) Antítese: que constitui ou encerra antítese; antagônico; contrário. (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).

(²) Ethos: “conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento humano (instituições, afazeres, etc) e da cultura (valores, ideias ou crenças) características de uma dada coletividade, época ou região”. “Caráter pessoal: padrão relativamente constante de disposições, morais e afetivas, comportamentais e intelectivas de um indivíduo”. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).                                                                          Aracaju, 10 de julho de 2021