JAIME BRASIL

O que é subjetividade? Laconicamente alguém poderia dizer que é aquilo que depende do sujeito e não do objeto (realidade).

Até que ponto a realidade molda nossa subjetividade e até onde a subjetividade molda a realidade?

Existe uma realidade concreta, incontornável às interpretações humanas ou tendemos sempre a perceber o mundo e seus conhecimentos através de um filtro cultural?

O que explicaria acontecimentos históricos como a eleição de Bolsonaro à presidência diante de todos os explícitos elementos objetivos de que ele seria catastrófico para a imensa maioria do povo brasileiro? E mais, o que explica a manutenção, segundo pesquisas, de algo em torno de 25% de aprovação?

Quem poderia nos esclarecer o que motiva um trabalhador defender a perda de seus próprios direitos trabalhistas, ser explorado por algum aplicativo de entrega e ainda assim se sentir “empresário” de si mesmo?

Por que a identidade social e coletiva das pessoas foi substituída por uma perspectiva individualista e de competição solitária?

É comum vermos nos canais de entretenimento e nos discursos de empreendedorismo a velha comparação entre os seres humanos e animais selvagens, onde afirma-se que assim como na natureza, nós, humanos, devemos usar a capacidade de destruir ou dominar o menos forte, o pequeno, e que somente os mais vorazes sobreviverão (sejam pessoas, empresas ou países) e vencerão, e que temos que agir como predadores de outros seres humanos. A isso dá-se o nome de “darwinismo social”, uma deturpação ideológica manipulada pelos capitalistas, esses sim, selvagens, destruidores e vorazes. Essa pseudo teoria tenta dar um ar de objetividade à guerra pelo dinheiro e pelo lucro a qualquer custo, sustenta que a realidade é assim e deve ser assim. E esse é um bom exemplo de como o capitalismo transforma a mais profunda ilusão ideológica, uma subjetividade, em uma aparente verdade objetiva. Afinal, não é justamente a cooperação, a solidariedade, o compartilhar conhecimentos e as ações conjuntas que trouxeram a humanidade ao patamar de desenvolvimento em que se encontra?

A subjetividade é tão importante que todo ditador sabe que a maior ameaça que pode existir contra ele são as idéias contrárias, críticas e visões de mundo que divergem do poder central. Mas, no capitalismo o grande dogma e a grande religião é o dinheiro e a busca pelo acúmulo, essa é a grande subjetividade capitalista e a grande ditadura que massacra impiedosamente aqueles que não se dobram totalmente ao “deus dinheiro”, e assim são tratados os inadaptados e as minorias que ainda não absorveram a subjetividade capitalista, a exemplo dos indígenas e quilombolas.

Para o restante das pessoas, as distrações de entretenimento distanciam o pensamento crítico da subjetividade capitalista, e o tempo de vida das pessoas é gasto com a exploração do seu trabalho para a compra de bens supérfluos ou descartáveis e o tempo vago é absorvido pelas telas cheias de frivolidades e inutilidades. Tempo não é dinheiro, tempo é vida, e a vida dos povos tem sido apenas um instrumento de enriquecimento dos donos do mundo capitalista.

O certo é que, objetivamente, como Marx afirmara, vivemos em um mundo de abundancia material que jamais houve no passado da humanidade, com condições de alimentar, abrigar e levar saúde e educação a cada ser humano da Terra. Também, objetivamente, estamos vivendo em um mundo que se autodestrói, que aprofunda as desigualdades sociais, as injustiças, que promove guerras fratricidas e que ameaça a própria existência da raça humana e da vida em geral na biosfera. Assim, pergunta-se, por que os povos do mundo não se alçam contra tudo o que há de errado e usam a imensa evolução das forças produtivas (da tecnologia) para superar o capitalismo, e, assim, termos uma vida confortável e saudável? Por quê?

Essa justamente tem sido a grande derrota das esquerdas na guerra contra esse sistema capitalista destruidor e insano. Perdemos, até agora, todas as batalhas no campo da subjetividade.

As experiências socialistas não produziram socialistas, grande parte dos atuais partidos ainda que apegam a consignas e dogmas que remetem justamente às experiências socialistas que falharam.

Não conquistaremos corações e mentes apenas com discursos abstratos, o cotidiano de todos é capitalista, e, cotidianamente o capitalismo fecha portas e janelas para outros horizontes e nos consome no labirinto da sobrevivência e da satisfação do fetichismo que as mercadorias estimulam.

A superação do capitalismo não virá de uma minoria de iluminados que tem a pretensão de dizer a todos como viver neste mundo. Precisamos atualizar o marxismo teoricamente e mudarmos a velha práxis supostamente revolucionária, já tão viciada e desgastada.

O socialismo não é o sistema do desperdício, mas também não pode ser o da extrema austeridade, ou da escassez. O socialismo não deve ser o sistema do moralismo comportamental, da caretice, ou do trabalho alienado e excessivo.

O socialismo deve ser o sistema da abundância, da alegria, da criatividade, do tempo livre, do prazer e do amor. Temos condições materiais, objetivas, para construirmos subjetividades que contemplem a construção de uma outra sociedade realmente distante das categorias de avaliação e comparação capitalistas.

Se queremos libertar os povos do mundo do jugo capitalista, precisamos, antes, libertar as nossas mentes e nossos corpos da mesmice teórica e pratica que nos tem conduzido à derrota e ao erro.