JAIME BRASIL

É impossível entender a atual situação da Amazônia sem debatermos a dependência econômica do Brasil ao chamado grande agronegócio, exportador de commodities.

Não nos enganemos, o objetivo do agronegócio sempre será extrair da natureza aquilo que tem valor monetário imediato, transformar a terra devastada em pasto ou lavouras extensivas, isso sem falar na destruição dos mananciais hídricos que abrigam minerais em seus leitos sedimentares.

É sabido que o Brasil sempre foi exportador de matérias-primas e importador de produtos elaborados, e lembramos que isso é economicamente prejudicial, pois sempre há uma paulatina fuga de capitais. Ou seja, o dinheiro que hoje entra a um custo ambiental e humano incalculável, é muito menor do que o dinheiro que sai para a compra de bens de alto valor agregado, como placas de circuitos e todo o aparato tecnológico essencial para o funcionamento da vida nas sociedades contemporâneas.

Durante quase todo o século XX, houve um esforço do Estado brasileiro para diminuir essa dependência de importações, a começar com as negociações que Getúlio Vargas fez para que tivéssemos a nossa primeira usina siderúrgica: a CSN em Volta Redonda.

Apesar de todas as debilidades e contradições, havia por parte do Estado brasileiro uma vontade estratégica de que nossa economia fosse menos dependente das exportações de produtos básicos e em natura, e que pudéssemos ser mais auto-suficientes do ponto de vista industrial. Tudo isso acabou com o advento do Plano Real, em 1994.

O Plano Real foi festejado por quase todos, quando lançado. Do dia para a noite deixamos para trás uma década de hiperinflação para termos uma moeda estável. O problema é que essa estabilidade foi, e é, mantida à custa da atração de dinheiro estrangeiro.

 A idéia do Plano Real era simples: se tivermos muitos dólares no país, ele fica mais barato em relação à moeda nacional. Até hoje é assim. Desse modo, por conseqüência, pudemos abrir o país para o comércio internacional (a chamada globalização), tendo um dinheiro forte para essas transações. Em resumo: o lastro do poder de compra do Real viria da atração de dinheiros estrangeiros para o Brasil. Mas, como atraí-los?

Em 1994, o Brasil tinha uma grande dívida externa criada pelos governos militares, mas tinha um divida interna (dívida mobiliária) relativamente pequena. E foi a partir daí que o Plano Real se valeu para atrair dinheiro de fora, aumentando a dívida interna. E qual a outra maneira que podíamos lançar mão para trazer dólares para cá? Ora, aumentando as nossas exportações, e é aí que entram as commodities.

Do ponto de vista capitalista, o Plano Real parecia muito bom. O problema é que o endividamento paulatino e crescente da venda e recompra de títulos públicos dependia de altos juros básicos que atraíssem os especuladores, com isso cada vez menos dinheiro sobrava para investimentos. E os Governos FHC e os do PT tinham que criar o tal “superávit primário”, que é um neologismo que, na verdade, significa aquilo que o país deixa de gastar em saúde, educação, segurança e investimentos de infraestrutura para remunerar os banqueiros e especuladores que compravam os títulos da dívida pública interna. Não havendo o dinheiro necessário para educação, ciência e tecnologia, o país ficou ainda mais dependente de exportações de matérias-primas e, pelo mesmo motivo, não conseguiu modernizar seu parque industrial no competitivo mercado globalizado, tornando-se também completamente dependente das importações feitas em dólar, claro.

As sucessivas desvalorizações do Real frente ao dólar deram-se pela descapitalização paulatina do Brasil. Cada vez mais, o governo vê-se obrigado a usar o dinheiro dos impostos para remunerar os rentistas especuladores e, cada vez mais, isso lhes parece insuficiente porque a descapitalização continua. E assim, o Brasil precisa reservar mais e mais dinheiro para manter a confiança dos que especulam mundo afora. É um ciclo vicioso de empobrecimento.

A outra forma de ingresso de dinheiro estrangeiro no país, a exportação de commodities: de soja, carnes, milho, açúcar etc., tornou-se ainda mais necessária e urgente para a mínima sustentação da moeda brasileira.

O modelo de produção de commodities é extremamente danoso ao país e ao povo. Ele parte de financiamento subsidiado por nós, tributos não cobrados dos produtores e que nós pagamos por eles: pouquíssima geração de emprego, altíssima concentração de riqueza e culmina com a destruição do patrimônio natural com as catastróficas conseqüências ambientais.

E é por isso que a Amazônia vem sendo devastada, para sustentar esse modelo econômico insustentável.

Se não sairmos da atual estrutura econômica, que nada mais é do que o modelo neoliberal aplicado aos países do terceiro mundo, não somente a Amazônia inteira será totalmente destruída, como também haverá cada vez menos dinheiro para os serviços públicos básicos e para a garantia dos direitos básicos necessários à dignidade do povo brasileiro.

A questão é: qual o candidato, em 2022, que se atreverá a reformular a nossa economia para que paremos de pagar uma dívida impagável e de destruir o que nos resta de patrimônio natural?

Nós, do campo socialista, não podemos aceitar a continuação desse sistema perverso e que, se não for por nós superado, condenará as futuras gerações a um país ainda mais desigual, pauperizado e ambientalmente aniquilado. É nossa missão gerarmos e defendermos uma alternativa que realmente defenda o povo brasileiro e o meio natural que nos cerca: a vida.