TAINÁ ROSSI

Entre os diversos temas debatidos em sala de aula, o Fracasso Escolar constitui um dos mais pertinentes.  Percebi que não apenas é um tabu, mas que também contém diversos medos advindos de experiências passadas na escola. Esta reflexão foi empreendida para identificarmos os pontos importantes do Fracasso Escolar em relação ao nosso próprio fracasso. Como a atividade foi feita individualmente, houve maior espaço para que fôssemos mais verdadeiras conosco mesmas.

Dessa maneira, consegui perceber que o que eu considero fracasso está intimamente relacionado com a minha própria experiência na escola. Contando um pouco mais sobre o que aconteceu comigo naquela época, posso resumir em algumas palavras: esforço, timidez, diferença, apoio familiar, bullying, insegurança.

Para melhor entendimento deste processo, vou contextualizar. Eu venho de uma família bastante intelectual, que preza pelo desenvolvimento acadêmico. Dessa forma, desde muito cedo aprendi a estudar sozinha e conseguir excelentes notas. Ao mesmo tempo, considero que somos uma família peculiar. Nosso conhecimento geral é bastante ampliado comparado a outras famílias e isso, de certa maneira, distanciou-me de crianças da minha idade – eu era muito diferente. Esta situação possibilitou uma brecha para fazerem bullying comigo, o que me fez ser ainda mais introvertida e tentar, a todo custo, moldar-me para ser aceita.

O fato de não ter um acompanhamento psicopedagógico escolar potencializou essa experiência da pior forma possível. Isso sim é um grande Fracasso Escolar : fechar os olhos para o que realmente acontece quando a competitividade excessiva é incentivada entre as pessoas. Por experiência própria, vejo que causa traumas profundos nas pessoas e que elas carregam essas inseguranças, pela vida, até hoje.

Um outro ponto importante é que vivemos em uma sociedade que considera fazer psicoterapia um sinal de fraqueza. Esse fato acontece tanto na escola quanto na família. No entanto, isto que implica em outro fracasso pois, querendo ou não, distancia as pessoas de seu lado empático. Somdo a isso, vemos nas famílias o escanteamento das crianças para os eletrônicos. No entanto, o não saber lidar com outras pessoas gera profundo isolamento e fobia social. A maior parte do tempo que, em outra situação, seria destinada à convivência social, mesmo que familiar, passa a ser utilizada para ficar conectado à internet.

Essas questões, além de alguns outros fatores, geram e contribuem para o Fracasso Escolar : a falta de respeito nas relações entre docente e discente, a formação incompleta de docentes para a vida real, a falta de acompanhamento familiar e a falta de comunicação e atenção pela escola. Considero que esses foram os principais pontos que me afetaram e, mais do que aplicarem-se somente a mim, pude verificar que afetavam colegas meus também.

Essa situação é também amplificada devido ao contexto pandêmico em que vivemos. Não tem havido aberturas para exercer a docência. Pela minha experiência pessoal em dar aulas, vejo que isso potencializa alguns fatos em mim: eu, infelizmente, não consigo dar atenção a cada aluno com empatia. De fato, na sala de aula existe um coletivo, composto por diversos indivíduos que precisam de atenção individualizada. No entanto, quando a pessoa não chama atenção, ela acaba sendo deixada de lado na dinâmica da escola. Esse é um desafio para o docente que está acompanhando a turma.

Dessa maneira, entramos no ponto do Meu Fracasso Escolar. Dando aulas, percebi alguns pontos que posso considerar como fracassos e, com isso, a partir de então, consegui enxergar o que posso melhorar. A auto consciência e a atenção para conosco é fundamental para entendermos que temos pontos positivos e negativos e que podemos trabalhar para melhorar progressivamente. É um processo.

Vejo que é necessário, ademais, aprender a separar mais e melhor a minha vida pessoal da profissional. Para minha satisfação, esse ponto já está sendo trabalhado, potencializado por disciplinas da faculdade em que estudamos diversas metodologias da educação. Dessa maneira, entendo que é possível mudar as metodologias que adoto em sala de aula para melhorar o processo e os resultados. Questões como estas contribuem para o meu aprimoramento individual.

Adentrando o tema dos tabus, existem ideias associadas pelas pessoas ao fracasso, embora eu não concorde. Eu discordo, por exemplo, de que escola sem disciplina rígida não tem efetividade no ensina aos aluno. Não é porque uma escola não adota a metodologia tradicional e conservadora que ela não é competente em desenvolver o aprendizado dos discentes. Pelo contrário, cada vez mais, é possível verificar que metodologias diferentes das tradicionais acabam sendo mais humanas e que preparam as pessoas para a vida, ao invés de focar a atenção tão somente à prova de entrada na faculdade ou universidade. Metodologias mais conservadoras e tradicionais tem contribuido para dificuldades, por exemplo, em lidar com a liberdade de expressão individual dos alunos e coletiva da turma, por exemplo. São metodologias que tendem à repressão e isso amplifica os riscos de fracasso escolar.

Concluo que há muitos pontos a serem investigados e discutidos em relação ao tema abordado. Como os Fracassos Escolares atingem os discentes, mas também os docentes, é importante que este tema seja discutido de forma aberta e recorrente, para deixar de ser um tabu. Isso poderá promover o auto conhecimento, auxiliando no aprimoramento individual e coletivo no encontro de novas soluções.