OMAR DOS SANTOS

Apesar de todas as evidências históricas, a elite brasileira sempre teve muita vergonha de admitir-se politicamente de direita, economicamente atrasada e profundamente reacionária. Da mesma sorte que essa elite sempre demonstrou enormes dificuldades para se assumir brasileira.

Prova inconteste deste comportamento é o fato de hoje assistirmos parte significativa de “nossos velhos e novos ricos”: empresários, artistas, esportistas, intelectuais, cientistas, entre outros, optarem por viver e residir no exterior, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa. Essa gente ganha muito dinheiro no Brasil, carrega-o para o exterior, muitas vezes de forma desonesta e ilícita, e por lá o gasta, deixando no Brasil somente o rastro do desequilíbrio socioeconômico e ambiental. Consequência desta conduta desleal, para dizer o mínimo, resta ao povo fazer o enfrentamento das dificuldades para sobreviver nas condições degradantes impostas, pela exploração injusta do trabalho humano e pela espoliação das riquezas do país.

Tal comportamento é, na verdade, produto da herança histórica de nosso período colonial. De fato, as influências, primeiro de Portugal, depois da França e Inglaterra e, por fim, dos Estados Unidos, pesaram muitíssimo no processo de construção e consolidação da matriz cultural, do caráter e da consciência dessa elite, determinando fortemente a sua maneira de ver e pensar o mundo.

Circunstâncias alheias à sua vontade como distância, situações política e econômica não lhe permitiam viver na Europa, mas Lisboa, Coimbra e Paris palpitavam em seu coração. Assim, por desejos e convicções, ela foi, por muito tempo, mais “europeizada” do que brasileira. Mudou-se o “molde”, mas continua, ainda hoje, o mesmo alumbramento. Tanto o é que o “sonho de consumo” de nossos afortunados, e até da pequena burguesia, é morar em Miami, Paris ou Milão, disputar torneios de esqui nos Alpes, visitar as famosas famílias de patos e ratos de Orlando, jogar nos cassinos de Las Vegas e fazer umas “compritas” em New York.

No Império, os valores vividos e defendidos por nossa elite foram inspirados pela influência europeia, sobretudo, pelas culturas portuguesa, francesa e inglesa. Para a nossa nascente burguesia agroexportadora, o modelo perfeito de civilização eram as sociedades francesa e inglesa, havendo também grande admiração pela cultura lusitana.  Assim, para ela, nada era mais natural que seguir o modelo do colonizador e copiar seus hábitos, gostos e crenças.

Do ponto de vista histórico, nossos antepassados não tiveram nenhuma originalidade, pois a história da humanidade está repleta de exemplos a demonstrar que o colonizado sempre busca absorver, de forma acrítica, os valores e a cultura de seu colonizador, imitando em tudo seu modelo de vida. Com a elite brasileira esse processo não foi diferente e de tão profundo que foi, determina até os dias atuais, seus mais “sagrados” valores morais e comportamentais e suas mais arraigadas crenças filosóficas, políticas e religiosas.

Vivemos em uma sociedade extremamente estratificada, onde os mais poderosos apropriam-se do poder político, econômico e administrativo para controlar tudo. As classes subalternas são sempre influenciadas e vivem absolutamente sob o jugo opressor da elite, que mesmo sem grande poder decisório e quase que sem sentimento de autodeterminação, direitos severamente obstados pelo colonizador e seus sócios, não faz mais do que seguir, “feliz da vida”, arremedando gostos e aceitando mansamente ditames impostos pelos dominadores. Vejam se os fatos não comprovam minhas afirmações.

De início, nossa “grã-finagem” aceitou, e o fez de bom grado, um Cristo loiro e de olhos azuis, e aderiu, de forma incondicional, a um Deus – ranheta, xenofóbico, belicoso e vingativo – buscado em vetustas escritas descoradas por tempos imemoráveis. Adotaram, assim, a caracterização distorcida que os europeus fizeram da personalidade e doutrina do inspirador do Cristianismo.

E prossegue. Para suportar os rigores das temperaturas dos trópicos, essa elite importou a casimira e para suas filhas e esposas, vestimentas que as cobriam dos pés à cabeça. Ainda mais. Para ela, não poderia haver elegância sem casaco de peles, botas de cano longo e pesados chapéus de abas largas, como também era impossível ter conforto em casa sem lareira e sem cortinas de grosso veludo.

Nossa elite sempre teve muita admiração pelos hábitos alimentares estrangeiros. Assim, ainda bem cedo, preteriu a riqueza e o sabor da “mesa” nativa em favor do pretenso luzimento conferido pelo exotismo. Trocou as deliciosas frutas e castanhas da terra, o que para ela era comida de pobre e de porco, por tâmaras, cerejas, figos turcos, lima da pérsia e romã. Nos banquetes e saraus servia-se vinhos nobres trazidos das mais famosas regiões da Europa como Porto, Champagne e Toscana para acompanhar finas iguarias como queijos Roquefort, Emmental e Gorgonzola; carne de salmão defumada, faisão, vitela, presuntos e chouriços espanhóis, além, é claro, do imprescindível caviar. Tudo isto importado, literalmente a peso do ouro de Minas Gerais, do ouro negro do Sudeste, o café, e do ouro branco do Nordeste, o açúcar.

Nas artes, a imitação foi muito mais profunda. Admirava-se tudo que fosse estrangeiro. À época, nossa produção artística era – pouco mais do que verdadeiro decalque de obras europeias. A nascente elite brasileira, até a “Semana de Arte Moderna de 1922” que foi, diga-se de passagem, uma insurgência contra esse estado de coisas, só consumia escultura, arquitetura, música, teatro e literatura produzidas nos grandes centros europeus. Ouvia-se, e com deleite, óperas dos grandes mestres de além-mar, só não se entendia uma única palavra do que era cantado. Nos salões sofisticados, dançava-se aos ritmos “enfadonhos” importado das cortes estrangeiras.

Vejamos exemplo dessa subordinação cultural e política. Na construção civil nossos novos ricos pegaram um atalho. As grandes obras particulares ou públicas eram cópias idênticas das europeias, sendo importados não só o projeto, mas os materiais, a mão de obra e até os objetos de decoração. Os frutos dessa quase obsessão se pode ver em igrejas, teatros, edifícios públicos, estações ferroviárias, entre outros, esparramadas por todo o país.

A nobreza empertigada brasileira sempre foi festeira e ostensiva, comportamento esse que era arrazoado na quase doentia imitação das gentes de além-mar, numa espécie de “mimese” transposta para sua vida como tentativa de esquecer sua origem. Nos eventos sociais, dançava-se e comia-se como um autêntico europeu. Em pleno verão, as damas frequentavam saraus e dançavam à moda europeia, vestidas com corpetes e inúmeras anáguas sob vestidos longos e pesados. Afinal, nosso verão parece-se muito com o inverno europeu. Em tal contexto, o nível cultural dos indivíduos era medido por seu linguajar e nos salões e eventos sociais da alta sociedade, a linguagem “oficial” tinha, obrigatoriamente, que conter palavras e expressões estrangeiras, principalmente do latim e francês.

Os valores culturais e as crenças políticas e filosóficas dos colonizadores de acima da linha do equador vincaram os costumes, os hábitos e os gostos da classe endinheirada do Brasil. Desse tempo, carregamos, até hoje, um grande legado que continua presente nos mais variados setores da vida nacional. Esse, mais que influenciar, moldou nossa forma de ser, pensar e agir, determinando desde nossos hábitos alimentares, nossa forma de vestir e falar, nossa educação, nosso aparato jurídico, nosso pensamento político e filosófico e nossa forma de nos relacionar.

Da “Pátria Mãe” herdamos o “hábito”. Ela impingiu à colônia esta fé irracional que pressupõe a ingerência da religião na vida do Estado, fator que tanto estorvou, e estorva até hoje, o progresso do Brasil.

Por sua influência e ação, fomos construindo um modelo de ensino tão atrasado e excludente, cujos resultados catastróficos persistem na educação escolar do povo brasileiro. Este modelo de ensino é um dos maiores responsáveis por nossos “pornográficos” índices de analfabetismo e grau de ignorância. Não há como não creditar ao atraso do processo educacional herdado, e ainda hoje imposto pelos dominadores à nossa elite, o eterno atraso intelectual do povo e atraso tecnológico do país.

Pelos rincões deste Brasil, ainda cultiva-se, com enorme entusiasmo e devoção cerimônias religiosas, folguedos, danças e cantos que herdamos dos patrícios de Camões.

Mas, na opinião deste cronista, a maior herança deixada por eles foi, sem nenhuma dúvida, esta cultura patriarcal, machista e preconceituosa, que continua aferrada na alma de nossa gente, coisa que tanto nos dificulta construir uma sociedade mais justa, solidária e pacífica.

Se no primeiro instante da formação desta nação, a aura portuguesa se fez mais forte e mais influente, e isto é até natural posto ser Portugal seu “primeiro invasor”, contudo, no decorrer do tempo, o domínio lusitano tornou-se insuficiente, talvez pela distância geográfica e fragilidade dos laços políticos e econômicos entre os dois povos, já que suas relações eram sustentadas pela imposição das vontades da “matriz” e por um regime violento de exploração. Mesmo assim, não se pode negar sua decisiva importância para o subdesenvolvimento deste país. Dessa forma, nossa elite, primeiro em estágio econômico puramente extrativista, depois oligárquico exportador e, finalmente, no manufatureiro, continuaria em sua senda de copiar os colonizadores exploradores e opressor.

Como a França, vivemos a Belle Époque com todo o ardor e nos apaixonamos perdidamente pelo modus vivendi dos gauleses. Deles incorporamos valores políticos e jurídicos importantes que podem ser verificados na definição e elaboração do arcabouço do Direito e de nossas primeiras constituições.

Dos britânicos, herdamos o embrião de nosso modelo industrial e comercial, embrião porque o modelo não prosperou. Mas suas influências foram sentidas, sobretudo, na construção de ferrovias e na importação de serviços e equipamentos pelo Brasil. Do ponto de vista político, filosófico e econômico, a Inglaterra exerceu grande influência na formação do pensamento de nossa elite, iluminando a concepção e o desenvolvimento do sistema de relações produtivas e de propriedade brasileiro. Como contrapartida, nossa classe dominante “ajudou” aquela nação trocando parte significante de nossas riquezas por serviços, equipamentos e bens supérfluos. Chegamos, por mais disparatado que possa parecer, a comprar patins para esquiar na neve e a cumprir o ritual do chá das cinco num ambiente beirando os 40⁰ C.

Da mesma idade do Brasil, os Estados Unidos da América exerceram, desde muito cedo, grandes influências políticas e econômicas em nossa elite dirigente, sendo por isto outro grande inspirador de nosso modelo de organização socioeconômica e política do Estado.

Para ter-se ideia do grau de influência norte americana em nossa elite, lembremos aqui um exemplo muito claro dela. Quatro dias após a proclamação da República, José Lopes da Silva Trovão, liderando uma grande comissão, apresenta ao Presidente, de forma retumbante, seu modelo de bandeira, que era inspirado, para melhor dizer, era uma cópia quase exata da bandeira americana. Como ela, a dos republicanos tinha fundo verde, seis listas horizontais amarelas e um quadrado de fundo azul colocado à margem superior esquerda, preenchido por 21 estrelas brancas representativas das unidades federativas da época. Daí por diante, todos sabemos a história.

O que levou este artigo a visitar esse passado foi a intenção de ajudar o leitor a recuperar parte da história da formação de nossa nação para contextualizar, na dimensão temporal, o real papel desempenhado por nossa elite nesse processo. Nesta tarefa, faz muito sentido lembrar um velho ensinamento: “Um povo que não conhece sua história está fadado a cometer os mesmos erros do passado”. Embora sendo o mesmo “de senso comum”, ajuda a entender muitos dos “porquês” de sermos, até aqui, uma sociedade tão propensa ao “adesismo” inconsequente e individualista.

Nesta perspectiva, pode-se afirmar sem receio, que como fez-se no passado, a história de fascinação da elite brasileira por tudo que vem de fora continua a influenciar, mais ainda, continua a determinar a formação de uma sociedade que cada acredita piamente na utopia de que fora daqui existe um mundo no qual o horizonte está logo ali no fim da reta e todas as nuvens já foram embora para sempre. Senão como explicar a continuação deste processo?

Com relação ao sentimento de menosprezo por tudo que é do Brasil, inclusive seu próprio “povão”, eu diria que a elite piorou muito. Ela continua a pregar modelos de conduta que, para ela, constituem o único caminho para uma pessoa ter sucesso na “vida” e desenvolver-se culturalmente. Pensemos em alguns fatos que vivenciamos em nosso dia a dia.

O enorme poeta Manuel Bandeira, num poema em homenagem à Camões, predizia:

“Não morrerás sem poetas nem soldados

A língua em que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.”

Triste engano do poeta.

Atingimos, nos tempos atuais, a mais hedionda invasão de termos e expressões de tudo que é origem, não obstante a nossa língua ter, na grande maioria das vezes, até mais de uma possibilidade de tradução. Há ainda outra questão mais grave. Não bastassem os grotescos erros gramaticais cometidos a Última Flor do Lácio, não me restrinjo ao uso da norma culta, por despreparados usuários como jornalistas, comunicadores midiáticos, profissionais graduadas, administradores em geral, dirigentes políticos etc., os quais tentam ainda justificá-los com discurso da necessidade de atualização da língua e de sua adequação à globalização, mas falo de casos simples do cotidiano. A Língua Materna é constantemente invadida por – modos e modas – modernas de fala estranhas a ela, como consequência temos um já acentuado processo de desfiguração e destruição de sua eficiência e beleza. Estamos vivendo um momento em que falastrões despreparados, bem à maneira dos “apátridas”, de todos os credos e profissões, estão impondo ao povo um idioma alternativo para cada área da atividade humana. Assim temos o Economês, o Juridiquês, o Politiquês, o Informatiquês, o futebolês, dentre outros.

Se quisermos avaliar com mais profundidade as referidas e terríveis consequências deste comportamento para a língua, basta prestarmos atenção nos textos escritos e falados, veiculados diariamente tanto pela mídia impressa, falada e televisada quanto por este formidável recurso que é a internet e suas redes sociais, mas que entre nós tem servido para acelerar o processo de deformação da Língua Portuguesa e de aprofundamento do analfabetismo funcional. É preciso que entender que tal fenômeno não se restringe às camadas mais humildes da população, mas alcança, em grande escala, as pessoas dos mais altos níveis socioculturais e de todas as áreas de atividade, sobretudo, técnicos em computação, jornalistas, profissionais sociais e produtores de comunicação social.

Só para ilustrar minha opinião, vejamos alguns aspectos desta questão. Quando um cidadão não poliglota anda pelas ruas do país ou quer comprar um produto feito no Brasil, certamente passará por enormes dificuldades para entender nomes de empresas e produtos, tal é a abusividade e os erros cometidos no uso de estrangeirismos como se não houvesse norma gramatical que regula o uso da língua. Buscando tornar o nome de seu estabelecimento ficará mais “beautiful” e “chic”, ideia movida pela admiração ao adventício, seus donos exageram no emprego de neologismos impróprios e desnecessários, derivações e composições incorretas, as quais, na maioria das vezes, tornam a marca e a publicidade absolutamente inócuas.

Ainda mais pernicioso para nossa língua é o inadmissível e criminoso uso desses expedientes em textos noticiosos, educativos e científicos por empresários, comunicadores e pelas próprias autoridades governamentais brasileiras. Para nós, “cidadãos mortais”, ler esse tipo de literatura é tarefa que requer dicionários e tradutores e, em muitos casos, um assessor linguístico para que possamos entender alguma coisa.

Hoje recebemos nossa comida trazida pelo motoboy que trabalha no Ifood ou vamos ao self-service para abrilhantar o halloween. A grã-finagem brasileira “decreta” que gostoso mesmo é hot dog, cheeseburger, guacamole, mas para agradar o paladar mais refinado, nossa elite recomenda as maravilhas como escargot, caviar, castanhas etc.

O currículo que não têm expressões como startups, CEO, designer, portfolio, expertise,etc. fica sem chance de arranjar qualquer emprego.

Passa o tempo e as coisas só se agravam. Parece que nestas terras tupiniquins prevalecerá sempre o provérbio popular, que diz: “Quem nasce para ser conduzido, jamais será condutor”. Modernamente, isto a partir da primeira metade do século XX, nossas elites, e a banda da sociedade conservadora dominada por ela, estabeleceu um verdadeiro “caso de paixão” pela cultura yankee. Na medida em que nos libertamos, um pouquinho só, das velhas amarras culturais europeias, passamos a ser influenciados pelos americanos do norte, cujo poder possibilitou uma influência, que embora dê-se em tempo histórico menor, é tão contundente e até mais nociva do que as anteriores.

O império se impõe. Seu avassalador poder econômico toma conta de toda a América. De certa maneira, os corações e as mentes dos latino-americanos entregam-se à maneira de viver dos filhos do Tio Sam. A direita brasileira entrega-se e integra-se ao modelo de pensar e agir dos norte americanos. E salve a América! Mas a do Norte.

Esse ordenamento histórico de valores impostos pelas nações imperialistas à nossas elites, e por elas transmitidos ao resto da sociedade brasileira, dificulta a formação de uma identidade cultural, contribui para a deformação do caráter moral e impede a formação de uma consciência política crítica e genuína do povo brasileiro. Esta elite é, portanto, a classe que têm mais responsabilidade no trabalho de encaminhar, de forma democrática, os rumos do desenvolvimento sociocultural, político e econômico da nação. Como nos ensina Marx, “As ideias dominantes de uma época, são as ideias das classes dominantes”.

Nesta perspectiva, não se comete injustiça alguma ao se creditar à conta desta elite, dois “Pecados Capitais”. De um lado, ela entregou-se ao fascínio de modelos de sociedade estranhos à nossa natureza e cultura e à nossa realidade. Do outro, com essa forma de pensar, inconveniente, para dizer o mínimo, contaminou parte significativa das classes sociais mais subalternas com uma espécie de aversão a nossos valores nacionais. Com tal conduta, ela foi, e continua sendo, a responsável pela formação de uma sociedade majoritariamente composta por indivíduos conservadores, autoritários e antinacionalistas. Sem nenhuma dúvida, nossa elite é a responsável exclusiva por este verdadeiro embevecimento que parte de nosso povo tem pelo que é estrangeiro.

É nessa trilha de sua história – e por sua exclusiva conta – que peregrina uma sociedade com traços e valores dos nativos, os verdadeiros donos da terra, africanos e europeus, acentuada minoria, formando um amálgama que, ao longo do tempo, tem dificultado uma formação singular, com marcas intrínsecas de genuína brasilidade. Esta impossibilidade certamente contribui em muito para alimentar o desinteresse de nossas elites pelo Brasil. Tal formação fez e faz desenvolver um sentimento antinacionalista, adventício e entreguista, que tem retardado, ou mesmo impedido, o processo de desenvolvimento do país. Encontramos marcas desse retardamento na organização do Estado brasileiro, em seu processo de industrialização, na educação e na distribuição da renda, entre outros fatores.

Em resumo, podemos afirmar que a pluralidade de influências e inculcações de valores ideológicos e culturais dos colonizadores, as quais deram-se em graus variados ao longo do tempo, foram determinantes na formação do que é e do como pensam nossas elites.

A têmpera e a prática desta classe são marcadas por um nível de ressentimento e de mágoa contra o Brasil e contra o seu povo que só pode ser explicado como uma resultante da formação histórica sob a qual foi forjada. Só este tipo de formação pode justificar a existência de uma elite tão bolorenta, atrasada e caduca que ostenta, despudoradamente, sentimentos de ódio e desprezo para com os que lhes são diferentes. Só o fenômeno da construção sociocultural, política e econômica deste país pode justificar a arrogância e pusilanimidade das classes dominantes brasileiras. A matriz dessa direita, que aprendeu a aviltar e a odiar a outra parte do povo é, sem nenhuma dúvida, nossa elite, cujo padrão de conduta marca-se pela vocação entreguista, pelo sentimento antidemocrático e antinacionalista e pela natureza golpista.

Nesta perspectiva, embora que dito em outra perspectiva, a da classe média, é oportuno ademais estender o ensinamento da grande escritora e filósofa Marilena Chauí à nossa elite:

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista; é uma abominação ética porque é violenta; e, é uma abominação cognitiva porque é ignorante.”

Por fim, quando a maioria esmagadora dos dirigentes políticos, empresariais e religiosos insistem em colocar a culpa dos problemas do país nas costas do povo, sobretudo, dos mais deserdados, que a parte sábia e honesta da sociedade diga, com todas as forças, e uso aqui a expressão de Leonel de Moura Brizola, “um rotundo não”. Se há alguma culpa da gente simples, humilde e trabalhadora nesta história, é a de não ter reconhecido seu poder e sua força e a de não ter colocado um “bridão” nesta elite. Pois é ela quem conduziu e conduz nossa nação por estes caminhos tão dolorosos e deploráveis que seguimos.                                                                             

31 de maio de 2021.