ANA ROSSI

Esta crônica trata da cruzada das crianças, uma lenda europeia do século XII, quando crianças de vários lugares da Europa abandonaram suas casas e suas famílias para rumar em direção à Terra Sagrada de Jerusalém, e libertá-la das mãos dos heréticos, tal como fizeram os Templários

O Templário olhou fixamente para aquela longa fila de crianças que seguia, assim, para a Terra Santa. O seu olhar fixou aqueles corpos esquálidos, aqueles olhares presos no horizonte, olhares quase no além, aquele já se confunde com o céu. Estávamos no ano de Cristo de 1212. Aquilo tudo começara de maneira tão desmedida, tão sem planejamento. Desde havia vários meses, o Templário havia observado as crianças partirem de suas casas, assim, sem mais nem menos. Um dia, elas desapareciam para nunca mais voltar. Os pais, desesperados, tentavam impedi-las. Mas elas fugiam de noite, elas fugiam de dia, elas fugiram a qualquer hora, e rumavam em direção ao Sul. Era como se a força sagrada as puxasse firmemente em direção ao Levante, em direção à Terra Sagrada, a terra de Jerusalém. E elas seguiam, sem volta.

Nos vilarejos pelos quais passavam, elas caminhavam silenciosas apesar do murmúrio que as precediam, e elas atravessam os vilarejos sem um olhar sequer, sem uma palavra sequer, a não ser aquele olhar fixo em direção à estrada, e mais além, em direção ao Levante. Sempre em direção ao Levante, aquelas terras onde o sol nasce.

Primeiro, ouvia-se um silêncio. Elas estavam chegando. E depois, ouvia-se:

– Também quero ir !

Os adultos, vendo o silêncio se aproximar, e assistindo àquela multidão de crianças emudecidas se aproximar, corriam para as suas casas. Trancavam portas, janelas. Mas de nada adiantava. Quando a poeira baixava após a passagem da fila de crianças, muitas haviam-se ido.

Eu testemunhei isso, eu testemunhei esse desespero mudo, essa dor de não deixar ir, mas sabendo que, de alguma forma, todos eles iriam, até os menores, até os mais jovens, meninas e meninos, todos eles seguiam com o olhar vidrado, com os olhos arregalados, eles iam até chegar ao mar, rumando em direção às terras ensolaradas do Sul, em direção aos oliveirais, em direção às terras sagradas de Jerusalém.

Aquilo intrigava muitos de nós. Mas, não havia resposta, a não ser aquelas hordas de crianças aumentando, e seguindo em direção ao Sul.

O Templário acompanhava aquele movimento de longe. Ele olhava as crianças em silêncio, e durante um curto tempo, imaginou todos os perigos da estrada. Sim, bem antes daquelas crianças chegaram às terras de Jerusalém, bem antes, milhões de perigos espionavam-na na estrada, bem antes. Mas, sem tomar conhecimento, com o olhar fixo na estrada, sem reclamar de nada, com fiapos no corpo, elas seguiam em frente. Ele sabia que dificilmente as crianças chegariam inteiras lá. Caso tivessem a sorte de escapar dos perigos em terra, não conseguiriam fugir dos perigos do mar, dos piratas e da possibilidade de virarem escravas. Mas, nada disso adiantava. Elas seguiam feito uma longa fila, com seus corpos esquálidos, seus olhares perdidos rumo às terras sagradas de Jerusalém, para além das águas salgadas do mar.