SAMYRA CRESPO

Doutora em história social pela USP (1999) e pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins desde 1987. Também atuou como diretora do Programa Meio Ambiente e Desenvolvimento do ISER (1993-2000), como Secretária Nacional de Relações Institucionais do Ministério do Meio Ambiente (2008-2013) e como presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2013-2016). Atualmente escreve regularmente sobre o ambientalismo no Brasil nos sites jornalísticos Envolverde, Carta Capital e Revista Eco21Publicado originalmente em: O Ecologismo e as configurações do bem e do mal na sociedade contemporânea | Revista ECO21

Valho-me, para as hipóteses que levanto e às conclusões que chego, do estudo longitudinal de minha autoria, intitulado “O que o Brasileiro Pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável”, em formato de enquete nacional (pesquisa quantitativa) e de entrevistas com lideranças(qualitativas), desenvolvido e aplicado de quatro em quatro anos, de 1991 a 2012, completando 20 anos de sondagem e análise de como evoluiu, no País neste período, a agenda ambiental e o ideário de militantes e simpatizantes do ambientalismo. 

Ambientalismo e ecologismo

Embora usados indistintamente para denominar tanto o movimento quanto a ideologia, sociologicamente são coisas diferentes.

O ambientalismo se apresenta hoje como um movimento histórico global e universalizante e extrapola em muito o que poderíamos chamar de “defesa do meio ambiente”, reforçado por agendas governamentais e internacionais orquestradas por organismos internacionais bem estruturados (ONU Ambiente, Banco Mundial, BID, União Européia e um corolário de ONGs com atuação global). Seu “framework” é o desenvolvimento sustentável, termo cunhado em 1987 pelo Relatório Brundtland, preparatório à Rio 92.

As conferências que se seguiram à primeira em Estocolmo, há 50 anos, não são chamadas de Earth Summit por mero caso. Seus documentos, tratados e derivações desenham uma nova geopolítica: ricos ou pobres, democráticos e não democráticos, desenvolvidos ou não desenvolvidos, todos são afetados pela lógica e demandas globalizantes da pauta ambiental, exponencialmente catapultada ao topo da lista dos governos devido à problemática das mudanças climáticas.

O ambientalismo se apresenta como a ideologia que junta num tripé o desenvolvimento socialmente justo economicamente responsável e ambientalmente equilibrado. Sua evolução posterior à Rio 92 demonstra que se trata de um movimento extremamente pragmático que busca revestir seus argumentos de teses e aplicações técnico-científicas, bem como de retórica no plano político.

Já o ecologismo pode ser definido como a dimensão mais utópica do ambientalismo, uma fração deste, nicho ocupado por uma ideologia crítica radical ao capitalismo, ao marco civilizacional ocidental cristão, que divulgaram e reforçaram, durante séculos, a superioridade do se humano sobre todas as outras espécies, colocando-a (a natureza) como objeto de sua vontade, um Éden ao seu dispor.

É interessante observar que o ecologismo está na origem do movimento ambientalista mundial- que remonta ao conservacionismo norte- americano, ao movimento pacificista e anti-nuclear, e ao comunitarismo hippie, todos movimentos de contestação do pós-Guerra, e muitas de suas características “contraculturais” ainda permanecem entre os adeptos.

Esta autoatribuída consciência antecipatória produz um imaginário de caráter trágico, dramático, porque não lida com um problema qualquer, mas com a possibilidade de extinção da vida humana, com a inviabilização das formas de vida como as conhecemos hoje no planeta Terra. Trata-se pois de um drama total: uma vez chegada a situação-limite – ultrapassado o turning point, toda a humanidade será afetada e a sobrevivência da espécie estará em cheque.

Tal perspectiva coloca não só para os ambientalistas ou ecologistas, mas igualmente para toda a sociedade as velhas e conhecidas questões de ordem ontológica, tais como “quem somos?”, para “onde vamos?”, qual o nosso papel na Terra? Qual o sentido da vida?

Encontramos no ideário eclético do ecologismo vestígios de sistemas filosóficos diversos tais como, no plano político os ideais autogestionários dos anarquistas e humanistas do socialismo utópico; no plano científico a ressurgência do holismo que havia perdido terreno para o reducionismo analítico e para o objetivismo científico; uma concepção organicista do mundo e do seu funcionamento como alternativa ao homem-máquina unidimensional, do modelo produtivista industrial.

Uma hipótese chamada Gaia, surgida nos anos 70’com o cientista James Lovelock, oferece nas décadas seguintes, e com o avanço das pesquisas do próprio (com muitas publicações para divulgar sua hipótese), a sugestão teórica e poética “perfeita” sobre uma nova ética, biocêntrica ou ecocêntrica, que pervade e influencia decisivamente o movimento mais radical.

Este ideário afasta-se do ânimo reformista do ambientalismo pragmático e volta-se com mais força para a utopia de uma revolução verde tout court, que prega o esverdeamento das idéias, da política e das cidades, uma nova maneira de comer, vestir, morar, deslocar-se e se relacionar com os seres cientes e senscientes (animais e plantas).

A Hipótese Gaia, de Lovelock, sustenta que a Terra é um organismo dotado de racionalidade própria, um ser-vivo capaz de “sentir” bem como de reagir às agressões humanas. Segundo Lovelock, o ser humano poderá desaparecer da face a Terra, mas Gaia sobreviverá pois tem recursos para autoregenerar-se e eliminar o que ameaça a sua integridade. Eventos sísmicos das camadas magmágticas da Terra e eventos externos como queda de meteoros e a destruição massiva da biodiversidade em eras geológicas passadas, comprovariam a resiliência de Gaia.

Evidentemente, o ser humano é visto aqui como um predador, uma “praga”, espécie egoísta orientada ou desorientada por um desvio crucial: a sua própria separação da natureza.

A pergunta que redime ou condena: Afinal, todos os seres humanos são maus?

Quem são os “homens de boa vontade” na perspectiva do ecologismo radical e ético, muitas vezes também denominado de “ecologia profunda” (deep ecology)?

Primeiramente são os homens e mulheres num suposto “estado de natureza”, comunidades que vivem uma intensa relação com ela, daí a valorização dos povos tradicionais ou originários; os quilombolas, os índios e os “povos da floresta”, assim denominados também os seringueiros, castanheiros, ribeirinhos e grupos extrativistas. Caciques e lideranças indígenas são convocados para nos municiar desse saber que foi esquecido ou corrompido pelas relações capitalistas com os bens naturais. O fenômeno editorial recente de Ailton Krenak e de seu livro “Idéias para Adiar o Fim do Mundo” são um exemplo disso.

Em segundo lugar são os homens e mulheres que conseguem, por meio da crítica ecologista, libertar-se do modo produtivista e utilitarista de pensar do capitalismo e portar uma consciência de que tudo está ligado a tudo e que existe um “efeito boomerang” na relação predatória com os recursos naturais. Homens e mulheres de todo o mundo e de todas as classes sociais são convocados a aderir a esta consciência e proclamá-la, numa nova mentalidade e novas práticas.

Estes critérios ou fundamentos éticos então, podem ser resumidos no seguinte: a) o respeito e defesa da vida (como milagre, dom, o que dá sentido a tudo), uma espécie de bioética, se quisermos, onde cada ser vivo tem um papel a cumprir, uma função vital, ecológica importante; b) a crença na interdependência de todos os seres vivos, uma visão interacionista e holista dos fenômenos, incluindo o que entendemos por social; é comum referir-se a um planeta doente “porque a humanidade está doente”; c) a crença num razão cósmica e uma razão natural que se comunicam e interagem para garantir a integridade da vida. Vida que se manifesta na natureza que por sua vez integra o ser humano, que ao fim e ao cabo tem apenas a ilusão de que dela se independentizou.

Muitos autores tendem a ver nestes enunciados uma negação da modernidade e uma volta a um ilusório passado edênico. Pessoalmente acho que são na verdade valores pós-materialistas, e que este “reencantamento da natureza” tem muito mais a ver com a pós modernidade do que com a pré-modernidade. Um fator determinante nesta minha conclusão é o fato de que a crítica feroz ao capitalismo não se estende à ciência. Esta última cada vez mais é a ferramenta potente para solucionar os problemas e apontar caminhospara a regeneração do Planeta.

O mal despersonificado

Na ideologia dos ecologistas não há uma tematização explícita do mal, menos ainda uma versão religiosa do mal: seu mundo não é assombrado por demônios. Assim como não personifica o mal, também não personifica o bem, não tem deus nem diabo.

Os ecologistas que analisei, por meio de entrevistas e escritos não são irreligiosos no sentido forte do termo. Consideram-se portadores de uma “espiritualidade”. Espiritualidade essa, no entanto, administrada individualmente, sem subordinação a qualquer instituição.

Pode-se dizer, portanto que espiritualidade entre os ecologistas é uma espiritualidade livre, avessa a dogmatismos e à institucionalização do sagrado. Pode ser definida como uma disposição essencial, individual, para viver uma experiência intensa de sentimento de pertença à natureza e ao Cosmo.

Na natureza não existe o mal: existem razões biológicas, evolutivas e ecológicas que justificam o comportamento de animais e plantas, lembrando que somos parte disso.

Não se encontra nas narrativas ecologistas uma explicação moral para o fato de que os seres humanos, justamente os mais dotados em termos de raciocínio e cultura, tenham se desviado do caminho certo, ou seja, se separado da natureza. A explicação para o desvio é cultural. Na cultura o problema surgiu, não na natureza, e na cultura deve ser resolvido.

Para os ecologistas, embora não haja o mal como entidade autônoma, ou personificada, nem a maldade como um atributo inerente à condição humana, é reconhecida uma série de males em “atos praticados” pelos seres humanos contra seus semelhantes contra a natureza.

Todo ato de crueldade contra o próximo, e contra animais e plantas; todo ato violento – a guerra, o terrorismo, a destruição em massa – são vistos sempre como resultado da ética instrumental, aplicada e aperfeiçoada pelo sistema capitalista de produção. Os males são produto da cultura, e se manifestam em atos de soberba, na ilusão da autosuficiência, no desconhecimento de sua “animalidade” e da sua dependência da natureza e de suas leis.

O desperdício, o consumo predatório do recursos não renováveis, as práticas biocidas se devem à ignorância – deficit de consciência ecológica – e aos “maus conselheiros”: modelos mentais e de comportamentos, opções culturais que em algum momento da história os seres humanos fizeram.

À guisa de conclusão

Ao identificar a crise ambiental como uma crise planetária, na qual estão imersas todas as sociedades, mesmo aquelas que não a causaram, o ecologismo também afirma um projeto total. O que o coloca numa posição bem peculiar no universo de movimentos sociais e religiosos ditos pós-modernos. De modo geral, os projetos pós-modernos, e por conseguinte suas ideologias, não têm pretensão de realizar uma nova síntese da cultura, bem ao contrário, não raro afirmam identidades de minorias, da diversidade cultural e dos direitos individuais. A pós- modernidade é assim a afirmação da possibilidade da consciência fragmentada, do relativismo ético e moral.

Ao promover a crença de que tudo está ligado a tudo, ao proclamar a totalidade como a medida do ser humano, o ecologismo se diferencia dos movimentos de cultura fragmentários, característicos do pós- modernismo, conforme estabelecido em ampla bibliografia (Bauman, Lapouge, Domenico De Masi, Umberto Eco, Giddens). Nesse sentido, é preciso prestar atenção ao discurso do ecologismo sobre si mesmo e sobre a afirmação de que o movimento nasceu na “crise de paradigmas” – e na necessidade de constituir um outro, o paradigma ecológico.

Em que se resume este novo paradigma? À primeira vista, uma série de rupturas e de “costuras” inusitadas para um herdeiro da cultura moderno- iluminista: a) a ruptura com a razão dicotômica que opõe religião e ciência, racionalidade e intuição, afirmando em seu lugar o princípio da complementaridade; b) ruptura com o modelo mecanicista do mundo, substituindo-o por um modelo organísmico, onde cada uma das partes carrega informações do todo, não constituindo qualquer delas uma entidade autônoma; c) ruptura com o reducionismo analítico que privilegia as partes e não o todo, necessidade de envidar esforços para compreender as realidades complexas.

Para os ecologistas, a ciência ocidental passou por três estágios: o do infinitamente pequeno, o do infinitamente grande, tendo chegado o momento do infinitamente complexo. Complexidade que está em todos os seres em todos os fenômenos. Lovelock, Lyn Margulis, Maturana, Rachel Carson e outros que se seguiram em propostas mais ousadas são vistos como a “nova ciência”.

Em termos de ocupar um espaço no “mercado das almas” (expressão utilizada pelo historiado José Murilo de Carvalho para descrever o embate concorrencial das religiões no Brasil), o ecologismo não ameaça, muito ao contrário, atrai simpatizantes em todas as alas religiosas, exceto entre as mais antidarwinistas (negaciocinistas em geral).

Não é por acaso que se tornou bem vinda e aliada de peso a Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, primeiro aceno consistente da Igreja Católica para condenar o desenvolvimento econômico socialmente injusto e às custas da destruição do meio ambiente.

Com os argumentos listados neste artigo e as pistas de pesquisa apontadas, posso afirmar que o ecologismo tem muitos mais embates dramáticos nas frentes e arenas políticas no futuro próximo, do que no plano religioso. Os males da civilização por ele identificados requerem uma mudança não cosmética, mas bastante radical do nosso modo de reproduzir a vida e de sustentar uma população que vai somar nove bilhões em breve.

Terão ambientalistas e ecologistas sucesso? É uma história fascinante em curso, e todos somos, de certa forma, protagonistas..

(**) esta é uma segunda versão de artigo originalmente escrito em 1997, para a coletânea “O Mal à Brasileira”, organizada por mim e pelas antropólogas Patricia Birman e Regina Reyes Novaes, editada em dois volumes pela EduUerj, 1997