(Quarta e última parte)

LUIZ ROSSI

As repercussões da crise de 2008 durante o governo do ex-presidente Lula. 

O Partido dos Trabalhadores governou o Brasil de 2003 a 2016.

Em 2016, a ex-presidente Dilma Rousseff foi retirada do poder por meio de um golpe de Estado preparado e executado pelo Congresso, pelo Judiciário e pela mídia hegemônica, capitaneado pelo então vice presidente, a serviço da burguesia brasileira e internacional.

A crise capitalista de 2008, que se espraiou pelo mundo, explodiu nos Estados Unidos quando o PT governava o Brasil. Governava o Brasil o ex-presidente Lula. Como o governo reagiu à crise?

O jornal Le Monde afirmou, em 2009, conforme citação pela BBC Brasil, que o Brasil, sob o governo Lula, teve apenas um semestre de recessão durante a crise de 2008. Isso foi devido a uma série de medidas tomadas para dinamizar mercado interno, dentre as quais a redução de impostos para a indústria de automóveis e eletrodomésticos. O Brasil, como outros países do Sul Global, defendeu um novo modelo que não tivesse as exportações como centro do desenvolvimento, mas tivesse foco no desenvolvimento do mercado interno a longo prazo (fonte: BBC Brasil, de 17/11/2209. Acesso em 14/05/2021).

A reportagem da Agência Brasil vai mais longe ao mencionar outras medidas de contenção da crise:  a redução de impostos para estimular o consumo, o congelamento dos preços de petróleo, o subsídio para as tarifas de energia elétrica e a ampliação das desonerações.

 “A crise global de 2008 desembocou no fim de uma das principais ajudas externas que alavancou o crescimento do Brasil nos anos 2000: o superciclo das commodities. A queda do preço internacional de produtos agrícolas e minerais expõe o país ao que o economista Reinaldo Gonçalves chama de ´vulnerabilidade estrutural`”. Afirma o economista: “Nos últimos 20 anos, o Brasil aprofundou o processo de reprimarização da sua economia, tornando-se um país ainda mais dependente de produtos primários (…) Nenhum grande grupo brasileiro é referência em inovação e tecnologia. Aqui predomina a exploração dos recursos naturais e a gestão de cartéis, isso vai de bancos, passando pelos setores agropecuários, da mineração, até pelo imobiliário” (Agência Brasil, de 15/09/2018 – Acesso em 14/05/2021).

O ex-presidente Lula implementou no Brasil uma política de contenção da crise de 2008, com características anticíclicas. Com isso, o mercado interno tornou-se mais dinâmico. No entanto, essa dinâmica não privilegiou a indústria brasileira. A Agência Brasil afirma: “Como a moeda norte-americana mais barata, os brasileiros passaram a viajar mais para o exterior e a importar mais, deixando a indústria nacional sem condições de competir com os produtos estrangeiros. O fechamento de fábricas aprofundou a desindustrialização do país e levou à dependência cada vez maior de commodities”. Gonçalves, da UFRJ, concorda e confirma que “a cartelização da economia brasileira prejudicou a inovação e os investimentos”(Agência Brasil, Idem)

Embora o governo Lula tenha desenvolvido uma política correta de contenção da crise, os últimos anos de seu mandato, findo em 2010, já sinalizava dificuldades futuras, entre elas, a desindustrialização e a queda dos preços das commodities no plano internacional.  A partir de 2011, com o primeiro mandato completo e com o segundo finalizado prematuramente devido ao golpe de Estado de 2016, a ex-presidente Dilma Rousseff não conseguiu dar nova direção política ao desenvolvimento brasileiro, ficando à mercê da sanha dos golpistas para tirá-la do poder.

O início da execução da pauta neoliberal no Brasil.

Se já antes da crise, a economia dava demonstrações de fraqueza, com os governos de Michel Temer – arauto do golpe, e a eleição de Jair Bolsonaro, a economia brasileira foi submetida à vassalagem dos Estados Unidos, mantendo índices de crescimento irrisórios, quando não negativos.

Temer e Bolsonaro chegaram ao poder para submeter o Brasil completamente às diretivas e às imposições do neoliberalismo, tomando medidas radicais em benefício à burguesia brasileira e internacional, aprovando para tal uma legislação absolutamente antinacional e antipopular.

Michel Temer, presidente golpista teve um papel fundamental no início da privatização da Petrobrás, na venda de refinarias que resultam hoje na alta de preços de combustíveis no país; na venda de áreas do Pré-Sal à multinacionais estrangeiras a um preço irrisório, áreas estas que já tinham sido identificadas por grupos de pesquisas técnicas da Petrobrás; na reforma da Previdência, que retirou direitos dos trabalhadores em beneficio dos patrões; na aprovação do “teto de gastos” que impossibilita que professores, pessoal da saúde  e outros profissionais tenham a recuperação das perdas causadas pela inflação. É o congelamento dos salários.

O governo Bolsonaro é um desastre para a população e para o Brasil

O governo Bolsonaro, eleito em 2018 na extensão das tramas da Lava Jato lideradas pelo Judiciário e patrocinado pela grande mídia, representa a continuação do entreguismo iniciado por Michel Temer, em doses cada vez mais violentas. O presidente reforça a vassalagem em relação aos Estados Unidos, subordinando os interesses nacionais do Brasil àqueles; utiliza-se do negacionismo para confundir a população brasileira, colocando-a à mercê do vírus. O governo não só não assumiu o combate ao patógeno por meio de uma estratégia nacional como também antagonizou com governadores e prefeitos, dificultando a construção e implementação de um plano de compras de vacinas, o que resultou na a morte evitável de milhares de brasileiros.

 A entrega do Ministério da Economia a Paulo Guedes sinalizou o domínio do governo pela burguesia nacional e internacional. Isto porque Paulo Guedes é formado na Universidade de Chicago, centro de propagação do ultraliberalismo ou neoliberalismo no mundo. O objetivo passou a ser a privatização de todas as empresas estatais, mesmo aquelas estratégicas para o desenvolvimento brasileiro, incluindo-se a rede de postos de distribuição da Petrobrás, menina de ouro na produção de lucro. A privatização da Embratel, dos bancos públicos, dos Correios deve constituir um dos próximos passos do governo Bolsonaro.  As privatizações, para personagens como Temer, Bolsonaro, Guedes e outros, irão resultar no aumento da dependência do Brasil às potências mundiais, como mero produtor de commodities, consolidando-o como um país semi-colonial. O Brasil, como servo dos interesses internacionais, torna-se cada vez mais uma presa fácil para as potências hegemônicas do Ocidente e do Oriente.

Como fica o Brasil frente ao pacote econômico do presidente Biden?

A partir de Temer e Bolsonaro, o Brasil passa a seguir fielmente a cartilha  da doutrina neoliberal, aquela que torna países dependentes e suas populações cada vez mais pobres, excluindo-se as elites econômicas, que muito lucram com este processo.

A doutrina neoliberal afirma que o mercado deve ser o condutor da economia e não o Estado; que as empresas públicas, mesmo as estratégicas para o desenvolvimento do país, devem ser entregues a empresários; que a educação e a saúde públicas devem ser pagas, negando o direito à população de acesso gratuito a esses direitos universais.

Enquanto este cenário se agudiza no Brasil, nos EUA, o pacote econômico que presidente Biden inicia, pode representar um possível desmonte da doutrina neoliberal e o reforço do Estado. Neste pacote há previsão de recursos no total de 4,15 trilhões de dólares (20,7 trilhões de reais) para o combate da pandemia e investimentos em infraestrutura (fonte: Brasil de Fato, com redação da Opera Mundi, em 21/04/2021 – Acesso em 16/05/2021).

A proposta de Biden pode ser apresentada a partir de 6 pontos principais: 1. Um novo pacote de estímulo para a economia; 2. A geração de empregos para impulsionar a indústria nacional; 3. O aumento da previdência e do salário mínimo para reduzir o processo de empobrecimento da população; 4. O arrocho fiscal; 5. A guerra comercial com a China e, 6. A redução do custo “saúde” para a população (Cecília Barria, da BBC News, de 10/11/2020 – Acesso em 16/05/2021).

Concluímos afirmando que, enquanto o governo brasileiro vem radicalizando cada vez mais a execução da política neoliberal, o governo Biden, dá indícios de mudanças no rumo neoliberal, com o reforço do Estado e com investimentos vultosos em infraestrutura, no controle da pandemia e na melhoria das condições econômicas e sociais do mercado interno.

Quais são os impactos, no Brasil, desta mudança de rumos empreendida pelos EUA ? Será que um governo entreguista como o atual no Brasil vai mudar de rumos? Acredito que não – é melhor tirar o cavalinho da chuva.

Aracaju, 16 de maio de 2021.