(Terceira parte)

LUIZ ROSSI

As relações promíscuas entre os governos e a burguesia do setor financeiro

Ao longo do mandato dos cinco presidentes norte-americanos, já citados (veja a parte 2 desta análise), sempre houve a procura de profissionais competentes recrutados no setor financeiro. Convidado pelo presidente, o CEO ou executivo de empresa financeira passava a trabalhar em setores estratégicos do setor público. Estes retornavam ao setor financeiro quando terminava sua função no governo ou quando era substituído.

 A “Secretaria do Tesouro” foi uma dessas áreas com cargos fundamentais. Outra área importante foi a diretoria do Banco Central. Um desses membros tornou-se posteriormente presidente do Banco Central – Alan Grenspan. Ele foi, durante muitos anos, dessas um notório defensor práticas financeiras..

Esta situação traz consigo relações impróprias e promíscuas, que passaram a existir em todos os governos. Altos funcionários iam para o governo, depois retornavam ao setor privado. Alguns permaneceram à frente de órgãos importantes durante a gestão de vários governos. E deta forma, as decisões do setor público, de fato, então, acabaram por  subordinar-se às exigências do setor privado.

A desregulamentação sempre foi defendida durante esses cinco mandatos de governos, mesmo com alguns economistas e outros profissionais alertando para o perigo de uma crise. Allan Grespan foi um exemplo emblemático dessa troca-troca. Antes advogado de dirigentes do setor financeiro processados pela justiça, depois foi nomeado para o cargo de presidente do Banco Central. Nouriel Rubini, conceituado economista norte-americano, afirmou que Greenspan sempre defendeu a desregulamentação. Greenspan recusou a ser entrevistado pela equipe do filme-documentário.

Economistas contribuíram para a eclosão da crise capitalista de 2008.

Economistas das maiores universidades dos Estados Unidos eram contratados como consultores para avaliarem a saúde financeira de uma empresa, mediante o régio pagamento pelo trabalho. Os valores pagos pelas empresas do setor financeiro eram muito altos. Um desses consultores afirmou que a economia da Islândia ia muito bem, quando, de fato, esse país entrava em profunda recessão devido à desregulamentação financeira, enriquecendo pessoas do setor financeiro, de um dia para o outro.

Os economistas acadêmicos tinham grande interesse em participar como especialistas do setor financeiro. Embolsavam milhares de dólares. A ética fora rompida e prevalecia exclusivamente o interesse no negócio. Observe-se que em nenhum momento, os economistas acadêmicos alertaram para os perigos da crise. Somente poucos economistas levavam em consideração a qualidade dos produtos e a das empresas do setor financeiro.

Pode-se dizer, desta forma, que os economistas acadêmicos foram grandes arquitetos da desregulamentação financeira. Na ocasião da crise, a maioria dos economistas mais renomados participava dos governos dos Estados Unidos na condição de assessores.

Quando entrevistados, vários consultores de universidade recusaram-se a responder. Outros, o fizeram alegando que não havia nenhum conflito ético entre a profissão de economistas e de administradores de empresas ou consultores, por exemplo, muito embora a situação encontrava-se agravada pelo fato de que muitos produtos financeiros vendidos eram de baixa qualidade.

A alta remuneração e a vida nababesca de CEO

Os banqueiros, os proprietários de empresas de investimentos e os CEO receberam milhares dólares de empresas do setor financeiro. Isto lhes possibilitou a manutenção de um padrão de vida luxuoso. Em poucos anos, se tornavam muito ricos.

The Hamptons, um balneário a duas horas de nova York, era o domínio dos proprietários de empresas do setor financeiro e dos CEO. Lá, eles construíam casas suntuosas e tinham à disposição iates e outras estruturas glamorosas, além de apartamentos de alto padrão em Nova York. Houve o caso de um desses CEO que não tinha apenas um avião, mas cinco deles, dentre os mais avançados tecnicamente.

Eles participavam de clubes exclusivos, tendo à sua disposição prostitutas de alto preço e utilizavam-se de drogas. Kristin Davis era uma proprietária de um clube exclusivo que agenciava prostitutas cujo cachê chegava a 1.000 dólares por hora. Ela oferecia a essas pessoas papel timbrado que lhes permitia abater essas despesas junto às empresas como consertos de computador, por exemplo.

Dirigentes de entidades internacionais e economistas alertaram para o perigo de uma crise do capitalismo

Encontramos economistas e dirigentes de instituições internacionais que preocuparam-se com o tamanho da crise que surgia no horizonte do capitalismo norte-americano. Mas, em nenhum momento, houve um dos presidente norte-americano que tenha adotado alguma medida. Todos estes permaneceram quietos, associados aos dirigentes das grandes empresas financeiras.

O economista-chefe do Fundo Monetário Internacional – FMI – Raghuram Rajan (2003-2007) foi um dos que afirmaram que o sistema financeiro não dava segurança. Diversas vezes, dirigentes do FMI afirmaram que a dinâmica imposta pelo setor financeiro era extremamente perigosa.

Sempre que havia críticas contra a forma de atuar do sistema financeiro, uma autoridade estatal ou um dirigente, afirmava que o sistema funcionava adequadamente e não necessitava de nenhuma mudança. Allan Grenspan, como presidente do Banco Central norte-americano, quando alertado para uma possível crise, sempre defendeu a forma como o sistema financeira funcionava, com o apoio das autoridades governamentais.

As despesas das empresas com lobistas

O setor financeiro empregava nesse período 3.000 lobistas para atuarem nas casas legislativas e em órgãos governamentais para conseguir negócios vantajosos e driblar qualquer medida que fosse contra o sistema financeiro. Entre 1998 e 2008, o setor financeiro gastou 5 bilhões de dólares para financiar candidatos durante as campanhas eleitorais que se comprometessem a proteger os interesses das empresas financeiras.

A fração financeira da burguesia empregava milhares de pessoas e gastava milhões de dólares durante as campanhas eleitorais a fim de introduzir pessoas de confiança nos governos, corromper autoridades, incluídas, os parlamentares, com o objetivo de manipular a população, ganhando seu apoio ideológico e seu voto para o candidato do setor financeiro. As redes de rádio, jornais e tv tiveram importante papel em alcançar esses objetivos.

Na da crise de 2008 houve muitos perdedores e poucos ganhadores

No dia 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers pediu falência. Essa crise já vinha se manifestando há alguns, mas ainda em pequena escala, a exemplo dos anos entre 2001 e 2007. A explosão da crise aconteceu em 2008. Empresas como a GM e a Chrysler estiveram próximas da falência.

Com a crise, as ações e outros papéis financeiros despencaram no mundo todo, causando prejuízo a milhões de pequenos e médios poupadores. Houve uma imensa destruição de riquezas, milhões de trabalhadores perderam o emprego e 50 milhões de pessoas despencaram para a pobreza. Outros milhões de norte-americanos perderam a casa financiada, pois não tinham mais condições de pagar aos bancos as prestações devidas, alguns milhares destas passando a sobreviver em tendas para poder sobreviver, já que não possuíam mais casa.

Mesmo com a explosão da crise capitalista de 2008, as agência avaliadoras ou agências de rating continuaram a avaliar com a nota máxima papéis financeiros tóxicos, como certas ações, por exemplo, a despeito da situação de pânico vivido naquele momento.

O governo Bush correu para socorrer o sistema financeiro, injetando nele 700 bilhões de dólares a fim de que a crise não aumentasse ainda mais e que empresas norte-americanas desaparecessem durante a crise. Mas, mesmo nesse momento, os CEO continuaram a receber polpudos honorários, enquanto milhões de pessoas nos Estados Unidos e no mundo, perdiam seus empregos, suas casas, suas rendas.

      Aracaju, 09 de maio de 2021