JAIME BRASIL

Trago aos amigos e amigas que acompanham o Todo Dia É Dia, texto por mim publicado no periódico Folha de Boa Vista, em Roraima, no ano de 2001. A republicação desse texto tem como objetivo mostrar que, se há 20 anos a idéia era avançar nos temas mais sensíveis da nossa sociedade, hoje o objetivo é resistir contra o genocídio sistêmico e oficializado que acomete os povos indígenas no Brasil de 2021.

O artigo a seguir, antes demonstrar que nossa luta é antiga, é uma prova de que ela continua mais atual do que nunca e que deve iluminar os caminhos futuros:

Mas o índio também possuía uma memória que inquietava e, se não se dava ao hábito de louvar a natureza, reconhecia com veemência o seu direito a ela” (Márcio Souza, Breve História da Amazônia).

Alguns dos grandes filósofos gregos já sabiam que antes de começar um debate é preciso conceituar os principais termos que serão utilizados, as palavras importantes que estarão presentes durante toda a discussão.

Eu, como cidadão nascido em Roraima, sempre me interessei pela questão indígena, e desde os anos 1980 na escola, no ambiente familiar, entre amigos e mesmo em eventos públicos, participei ou fui protagonista de acirradas discussões sobre o tema, acalorados diálogos que, no mais das vezes, nunca conseguiam avançar. Mas, só há pouco tempo, descobri o motivo pelo qual sempre esses colóquios resultaram infrutíferos, o que tornava os debates inúteis, e mais, ficou clara a causa do permanente paralelismo que tornava as minhas idéias inconciliáveis com as dos que me contestavam: é que eu não tinha aprendido a fazer como os velhos sábios gregos, e, portanto, no fundo, a palavra índio significava para os meus interlocutores uma coisa completamente diferente daquilo que pra mim representava.

Pode-se dizer que a cultura escravagista, os longos anos de casa-grande e senzala – essa lógica de que o Brasil e seu povo nasceram para servir ao colonizador, ao explorador, ao conquistador, ao coronel, ao caudilho, a uma minoria que se apropriou e se apropria, subjuga, explora e destrói os recursos naturais e humanos –, contaminou indelevelmente a percepção e a compreensão da maioria dos brasileiros não-índios, dos ditos civilizados. É como se a palavra índio significasse para eles algo que se assemelha a uma coisa, um objeto, uma espécie de “móvel ou eletrodoméstico social“, um bem que deve ter utilidade, que deve permanecer na sala de estar da sociedade enquanto for útil para a nossa lógica social, mas que se torna plenamente descartável quando não mais funciona, e que deve ir para o lixo quando apresenta problemas e começa a incomodar com a sua inadequação “estética” ou com o mau funcionamento.

Para essas pessoas é impossível enxergar os povos indígenas como detentores dos mesmos direitos que elas, mais difícil ainda é que elas compreendam que a isonomia substancial constante na nossa Constituição Federal manda que os menos favorecidos sejam tratados de uma maneira especial, para compensar o seu desfavorecimento. Para elas, os índios não são apenas cidadãos de segunda categoria, são gente de segunda categoria.

Essas pessoas entendem perfeitamente a lógica capitalista da propriedade privada, são leões quando têm um terreno invadido ou uma casa alugada cujo inquilino não honra o pagamento, mas se negam a entender que é preciso ter permissão para entrar em terras indígenas.

A nossa sociedade é rápida em acusar o índio de ser preguiçoso, mas não gosta de assinar a sua carteira de trabalho quando o contrata. Acusa o índio de impedir o desenvolvimento econômico, mas se cala quando as hordas de corruptos se unem para saquear o dinheiro dos nossos impostos, fingindo-se de honestos. Alega que o índio tem alianças com ONG’s estrangeiras, que querem internacionalizar a Amazônia, mas não dá um pio quando grupos europeus tornam-se os maiores latifundiários de terras tituladas no Estado de Roraima, e mais, fala que os minérios que estão nas áreas indígenas estão ameaçados por grupos estrangeiros ligados aos índios, mas silencia quando os políticos da Amazônia propõem projetos de lei que autorizam somente as grandes empresas (a maioria de capital estrangeiro) a minerar nessas áreas. Afirma que o índio é cachaceiro e desordeiro, mas enquanto isso, essa mesma sociedade sonega impostos, liga o som alto do carro, põe em risco a vida de pessoas com malabarismos feitos em motocicletas, automóveis, quadriciclos, lanchas, jet-skis, etc.

Ainda há setores que dizem que os povos indígenas precisam ser “integrados” à nossa sociedade e afirmam que, como estão, poderão ser uma ameaça à soberania nacional, mas não reconhecem que as fronteiras da Amazônia, durante séculos, foram protegidas e vigiadas por índios, e que a expulsão de franceses e holandeses do litoral do Brasil teve o apoio concreto de povos indígenas.

Na verdade, a nossa sociedade se dá o direito de classificar quem é e quem não é índio, de uma hora para outra torna-se uma teórica da antropologia, e afirma que índio é somente aquele que anda nu no meio da selva, que os outros são “cabocos“. É como dizer que um brasileiro que vai para Nova Iorque, que se veste com um sobretudo e come um cachorro-quente não é mais brasileiro. É imperdoável para os não-índios que os índios não absorvam os valores dominantes no capitalismo, e quando absorvem parcialmente, ou totalmente, querem tirar dos índios a sua condição de índios.

A nossa sociedade não admite que os índios sejam iguais a qualquer ser – humano, com seus desejos, suas ambições, suas metas, suas falhas, seus erros; ou são mitificados e idealizados como nos romances de José de Alencar ou não são ninguém. Não admite que os índios nos olhem de igual para igual. Parte da idéia que os não-índios sabem coisas que os índios jamais terão condições de saber.

Essa diferença de compreensão do termo “índio” tem um fundo de caráter ontológico e epistemológico, que leva ao mais profundo preconceito, ao fascismo de querer amputar os membros indesejáveis do “corpo social“. Assim, os não-índios absorvem, mesmo que inconfessadamente, os mesmos valores que fizeram o General Kuster matar milhares de índios no oeste dos Estados Unidos. É a mesma lógica que fez com que o exército brasileiro tratasse os Waimiri-Atroari como trataram, quando da construção da BR-174. Seguem o mesmo pensamento de portugueses e espanhóis de 500 anos atrás que, em nome de Deus ou da Coroa, humilharam e levaram à morte milhões de índios.

Cabocos” somos eu e alguns amigos que temos orgulho das nossas raízes, das influências culturais indígenas que nos fizeram ser o que somos, nem melhores nem piores: seres-humanos como os índios, como você.

Doravante, quando houver qualquer debate sobre a questão indígena em Roraima, é importante perguntar primeiro: o que você entende por índio?                                                                        

Boa Vista (RR), 09 de maio de 2021