Maria José dos Santos Rossi

Uma palavra inicial. Maria José dos Santos Rossi faz comentários (antes e depois) sobre o poema O AMOR, de Kalil Gibran.

Em tempos de pandemia vale fazer uma reflexão sobre o amor.

O Coronavírus, minúsculo por natureza, deixou o mundo de joelhos. As nossas dificuldades apresentaram-se de tal forma que as pessoas dizem “não podemos mais”. Todos os dias temos informações, as mais díspares, sobre a doença, com desinformações através das notícias falsas. O egoísmo recrudesceu a tal ponto que não nos importamos mais com os nossos familiares, temos medo dos amigos, pensamos apenas em cada um de nós; burlamos as filas da vacina e não pensamos em proteger as pessoas que não conhecemos. Não praticamos os códigos sanitários preconizados pela ciência. É uma situação realmente inusitada. Os sistemas montados para regular a economia, a política, o social, o cultural estão desmoralizados e não sabemos quais são as condutas consideradas “normais”.

Enfim, a pandemia devastou-nos e despiu-nos de toda polidez que achávamos que tínhamos. Deixou-nos nus e sem possibilidade de escondermo-nos de nós próprios. Os valores estão desacreditados e temos dificuldade de pensar o que somos, para onde vamos e como viveremos o futuro.

Mesmo as religiões, em sua grande maioria, estão orientadas para a materialidade das coisas, pois religiões são agrupamentos hierarquizados que muitas vezes ajudam-nos a colocar as nossas diferentes máscaras nos diferentes papéis que exercemos, a fim de protegermo-nos do mundo.

Não estamos aqui falando de “religiosidade”, que é outra coisa. Entendemos por “religiosidade” uma forma de conduta guiada por valores  éticos e morais que representam as virtudes necessárias a uma vida social.

Considerando que todos somos iguais e as desigualdades não são mais do que formas de apropriação indevida da riqueza e de exploração, a minoria  que detém a riqueza dita a vida para os que não possuem riqueza e poder.

Temos a oportunidade de encontrar um poema de um pensador que pode nos guiar. Esse pensador é libanês, nasceu no século 19 e morreu no 20.  Os seus escritos são verdadeiras pérolas de reflexão.  Estamos falando de Khalil Gibran e de seu poema “O Amor”.

No mundo de hoje, espelhar-nos e orientar-nos no poema “Amor” de Khalil Gibran, é a maneira de combatermos essa situação para vivermos em um mundo com mais respeito e amor.

Eu não sou poeta e nem filósofa para fazer aqui uma exegese do poema. Sou uma cidadã preocupada com a situação em que vivemos.

Para mim, suas palavras vão além de qualquer religião, podendo ser refletidas por pessoas religiosas ou não, desde que tenham a necessidade de sentir-se humana, solidária, fraterna e em busca de seu lugar no mundo.

Vejamos, então:

Amor –  Khalil Gibran

Então, Al-Mitra disse, «Fala-nos do Amor.»   

Ele ergueu a sua cabeça e olhou sobre o povo, caindo sobre eles uma grande quietude.

Então, numa voz majestosa disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,

Embora os seus caminhos sejam duros e inclinados

E, quando as suas asas vos abraçarem, rendei-vos,

Apesar da espada que se esconde por entre as suas penas vos poder ferir.

Quando o amor vos falar, acreditai nele,

Apesar da sua voz poder despedaçar os vossos sonhos, como a nortada devasta o jardim.

Pois mesmo quando o amor vos coroar, também vos crucificará. Assim como ele vos faz desabrochar, também é ele a fazer a vossa poda.

Mesmo quando ele se elevar até ao alto da vossa copa, e acariciar os vossos mais delicados ramos que balançam ao sol,

Assim também descerá até às vossas raízes, e as abanará na sua união à terra.

Como gavelas de milho ele vos reunirá sobre si mesmo.

E vos debulhará até vos despir por completo.

Peneirar-vos-á para vos remover a casca.

E moer-vos-á até à brancura.

Amassar-vos-á até que estejais moles e dóceis

E lançar-vos-á ao seu fogo sagrado, para que vos torneis pão abençoado para o sagrado banquete de Deus.

Todas estas coisas o amor vos fará para que possais conhecer os segredos do vosso coração, e para que, com esse conhecimento, vos torneis um pedaço do coração da Vida.

Mas se, no vosso medo, buscardes apenas a paz e os prazeres do amor,

Então é melhor cobrirdes a vossa nudez e passar longe da eira do amor,

Tereis um mundo sem estações, onde podereis rir, mas não completamente, e podereis chorar, mas nunca por inteiro.

O amor apenas se dá a si mesmo e nada toma senão de si mesmo.

O amor não possui nem pode ser possuído;

Porque o amor se basta a si próprio.

Quando amardes, não digais «Deus está no meu coração», mas antes «Eu estou no coração de Deus.»

E não penseis que é possível dirigir o rumo do amor, pois se o amor vos achar dignos, será ele a dirigir o vosso rumo.

O amor não deseja senão realizar-se.

Mas se ao amar, necessitardes de desejos, então que sejam estes:

Derreter e ser como um ribeiro que corre e canta a sua melodia na noite.

Conhecer a dor da ternura em excesso.

Ser ferido pela vossa própria compreensão do amor;

E sangrar espontânea e alegremente.

Acordar ao amanhecer com asas no coração e dar graças por mais um dia para amar;

Descansar ao meio-dia e meditar no deslumbramento do amor;

Regressar a casa ao entardecer com gratidão;

E adormecer com uma oração por aqueles que o vosso coração ama e uma canção de louvor nos vossos lábios.

Fonte: Khalil Gibran, in “O Grande Livro do Amor” (tradução de 
José Luís Nunes Martins).

Neste poema que é um chamamento para cada um de nós, o poeta alerta-nos sobre as dificuldades do amor, como uma via de mão dupla. É uma força interna que leva-nos a superar as nossas dificuldades e nunca desistir dele, mas que possibilita-nos também tropeçar nas nossas inconstâncias e em nossas inseguranças.

O autor diz-nos que o amor coroa-nos e crucifica-nos. Que pode despedaçar os nossos sonhos, mas também é um corretor de nossa rota, contribuindo para o nosso crescimento, pois percorre todo o nosso ser, deixando a nu as nossas máscaras. Não se trata aqui do amor sexo, pois essa é apenas uma pequena faceta dele, nem tampouco do amor que espera retribuição, pois esse é apenas uma mostra do nosso egoísmo.

Para atingir a plenitude em nós, o amor é infinito e dirige todos os nossos desejos e nossa vontade de servir.

Nesse tempo em que vivemos a pandemia com as dificuldades que conhecemos e enfrentamos, o medo, a raiva, a depressão, a ansiedade, o egoísmo exacerbado, a arrogância, a vontade de passar sempre na frente dos outros, de sentirmo-nos melhores e mais importantes do que os outros, temos que modificar o nosso olhar que geralmente é de dentro para fora e fazermos o contrário: olhar para dentro de nós e constatar qual é a nossa situação em relação ao Amor Universal, o amor que nos ensina que “Façamos aos outros o que gostaríamos que fizéssemos conosco mesmo”.

Aracaju, 02 de maio de 2021