(Primeira parte)

LUIZ ROSSI

1. Introdução, conceitos e primeiras palavras

Inside Job é um filme-documentário da Netflix que trata da crise capitalista de 2008. Recebeu no Brasil o nome de Trabalho Interno.  É legendado. O Diretor do filme é Charles Ferguson e o narrador, o ator norte-americano Matt Demon. É um filme da Netflix, um verdadeiro filme-documentário, uma aula extraordinária sobre a crise capitalista de 2008.

O jornalista A. P. Júnior afirma que o filme trata da “corrupção sistêmica dos Estados Unidos pela indústria de serviços financeiros e as consequências sistêmicas”. Em outros termos, é a corrupção de bancos e instituições financeiras norte-americanas com a cumplicidade dos governos daquele país (Fonte: Economic News, Brasil – Acesso em 22/04/2021).

Este documentário traça as origens da crise dos anos 1980 do século passado, passando pela culminância da crise em 2008, chegando até os dias atuais. O filme aborda fundamentalmente as tramas dos CEOS norte-americanos (Diretor Executivo ou simplesmente para nós o Executivo de uma empresa), a serviço de seus proprietários, que manipularam dados financeiros (ações, seguros, apólices, etc), vendendo-os à população como se fossem títulos de seguros e rentáveis quando não passavam de papéis tóxicos. Isto é, não possuíam cobertura para revendê-los. Eram ações, títulos, seguros sem valor econômico que, quando da crise em 2008, provocaram: a falência de muitas empresas, a compra das mais fracas pelas mais fortes, a enorme perda do investimento de pequenos poupadores, o desemprego em massa.

Mas, por outro lado, observou-se as empresas cada vezes mais poderosas e ricas e os CEOS saindo da crise ainda mais ricos, muitas vezes milionários. A crise atingiu o mundo todo com demissões em massa.

2. O filme apresenta um conjunto de empresas norte-americanas protagonistas fundamentais na crise capitalista de 2008.

São vários tipos de instituições conforme abaixo:

Bancos de investimentoGoldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman Brothers e Meryl Linch. Essas empresas obtiveram recursos de investidores que dispunham de dinheiro sobrando e os emprestava ao mercado (Fonte: BTG Pactual – Acesso em 20/02/2021)

Conglomerados financeiros: CitiGroup e JP Morgan. São grandes empresas reunidas em grupo, geralmente multinacionais que juntam-se para atuar no mercado com mais eficiência e, como não podia deixar de ser, de obter o controle da produção de certos produtos ou serviços (Fonte: Mais retorno – Acesso em 20/02/2021).

Seguradoras de títulos: AIG, MBIA, AMBAC. Trata-se de empresas seguradoras de títulos, que produz seguros pelo qual uma das partes (segurador) obriga-se a indenizar a outra (segurado) em caso de ocorrência de determinado sinistro, em troca de um prêmio de seguro (Fonte: Orlando Seguros – Acesso em 20/02/2021).

Agências de rating: Moody´s, Stand & Pours (S & P) e Ficht. Empresas especializadas que avaliam outras empresas ou produtos, por exemplo, uma ação, atribuindo-lhe um valor de mercado que se expressa, principalmente pela letra A. Três AAA significam (topo da avaliação) de que a empresa ou o produto é de alta qualidade. Assim, o comprador poderá adquiri-lo com segurança (Fonte: Wikipedia – Acesso em 20/02/2021).

3. O filme apresenta um conjunto Conceitos e expressões que precisam ser compreendidas.                     

CEO (Chief Executive Officer) pode ser definido como Diretor Executivo ou Executivo. É o Executivo que administra a empresa em nome do(s) proprietário(s).

Derivativo                                                                                                                  É um instrumento financeiro cujo preço deriva do valor de mercado de um bem que pode ser um título financeiro (ação, obrigação), de um valor financeiro (índices, juros) ou de um valor material (matéria prima, divisas, commodity, metal nobre) (Fonte: Wikipedia – Acesso em 20/02/2021).         

Mercado                                                                                                                         Designa-se mercado todo processo de interação humana de troca voluntária de bens e serviços (Fonte: Wikipedia – Acesso em 20/02/2021). 

Pode-se ter duas definições do conceito mercado. Uma, mercado do ponto de vista sociológico significa a troca voluntária de bens e serviços pelas pessoas, como está exposto logo acima. 

A segunda, quando os meios de comunicação conservadores (emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas, certos blogs, etc) dão um sentido diferente, político, à palavra “mercado”. Escrevem ou falam dessa forma, mas por trás desse termo escondem o significado real que é o controle da economia pelos grandes empresários e seus Executivos.

Assim, quando os jornais ou uma autoridade afirma: “O mercado fez isso”, “os preços subiram porque o mercado quis”, “a Bolsa está em queda”, é preciso considerar quem está por trás.  São os proprietários ou executivos das grandes empresas que determinam e manipulam, por exemplo, preços. São principalmente os bancos e as instituições financeiras, mas também os proprietários das maiores fazendas, indústrias, empresas de serviço, a mídia monopolista.

Os jornais, revistas e, principalmente as grandes redes de TV conservadoras procuram isentar esses personagens do aumento de preços, da queda da Bolsa, e até de golpes de Estado, como aconteceu com a deposição da ex-presidente Dilma Rousseff, em julho de 2016. Mas são eles que influenciam, quando não determinam, o que o parlamentar conservador defende e decide, como o juiz (parcial) julga e como o Executivo age.

Mas, é importante distinguir os empresários de pequeno e médio portes daquele grande empresário, que controla efetivamente o mercado.  

Desta forma, o “mercado” de que fala a imprensa é fruto da atuação política desses poderosos proprietários que controlam no Brasil através das emissoras rádios, jornais e revistas e redes de televisão, não só mas também pela compra de espaços publicitários dessas mídias. São esses personagens, poderosos, que manipulam e influenciam as pessoas a adotarem certa forma de pensar que chega a ser contra o próprio interesse, influenciam a compra de algum bem ou serviço mesmo que a pessoa não tenha necessidade.

Classe Social. As sociedades atuais estão divididas em classes sociais. Uma definição objetiva e clara de classe social é dada pelo “Dicionário de Política”: os estudiosos de “diversas tradições políticas e sociais (…) estão de acordo em pensar que as classes sociais são uma consequência das desigualdades existente na sociedade” (N. Bobbio e outros. Brasília, Editora da UnB, 1986, p. 169, 2ª edição).

Para o “Dicionário de Ciências Sociais”, a expressão classe social tem sido usada de forma mais estrita para “designar todas as famílias ou indivíduos numa sociedade ou comunidade, de igual status ou prestígio” ou seja, “a mesma quantidade relativa de poder, renda, riqueza, prestígio” (Coordenação Geral de Benedicto Silva. Rio de Janeiro, 1987, 2ª edição).

Para o “Dicionário de Língua Portuguesa”, “classe social numa sociedade estratificada, grupo ou camada social que caracteriza por seu nível de vida, seus direitos ou privilégios e, em especial, pelo papel que desempenha na produção econômica”. O mesmo Dicionário acrescenta: classe social é, “segundo o marxismo, cada um dos grupos que ocupam uma função distinta dentro da infraestrutura econômica – seja como proprietários de meios de produção, seja como produtores diretos ou trabalhadores – em uma sociedade passada ou presente que tenha ultrapassado o estágio de organização tribal. Classe trabalhadora (…) constituída de pessoas cuja única fonte de renda é a sua própria força de trabalho, sem portanto possuir ou controlar o capital ou os meios de produção” (Antonio Cândido e outros, Instituto Houaiss, Rio de Janeiro, 2004, p. 736).

3. O Estado de Bem Estar Social

A situação da economia capitalista entre os anos de 1945 e o final dos anos 1970 / início dos anos 1980 foi de prosperidade. Trinta anos de prosperidade (1945-1975), a partir da Segunda Guerra Mundial, marcou o sistema capitalista. O Estado tinha um papel fundamental ao regular a economia e distribuir os recursos para a sociedade de forma mais equilibrada. Os sistemas de saúde, de educação e os salário permitiram que os trabalhadores em geral pudessem contar com remuneração que lhes permitia viver com dignidade. O grande defensor do Estado regulamentado e interventor foi o economista e teórico inglês John Maynard Keynes (1883-1946).

O setor financeiro que abrange bancos e outras instituições financeiras era rigidamente controlado pelo governo e pela sociedade através de medidas constitucionais e legislativas. Estas protegiam os poupadores (que comprassem ações, títulos ou outros instrumentos financeiros) da ganância dos proprietários e dos CEOS, impedindo que manipulassem esses instrumentos financeiros, com prejuízo para os poupadores.

Para a professora de História, Juliana Bezerra, “o Estado de Bem-Estar Social (do inglês Welfare State) se caracteriza pela intervenção do Estado na vida social e econômica. Portanto, o Estado intervém na economia para garantir oportunidades iguais para os cidadãos através da distribuição de renda e a prestação de serviços como saúde e educação”. A professora detalha: “Extensão de empresas em setores estratégicos”, “criação de serviços públicos e gratuitos”, “8 horas de trabalho”, “proibição do trabalho infantil, seguro desemprego e Previdência social” (Fonte: www.todamatéria.com.br – Acesso em 23/02/2021).

Nos 30 anos de prosperidade, o Estado (e não a empresa privada) detinha o controle da economia. As empresas eram rigidamente controladas.  O setor financeiro, principalmente os bancos comerciais, de investimento, que recebiam dinheiro da população eram cuidadosos no uso desse dinheiro. Os poupadores das pequenas quantias podiam tranquilizar-se com a certeza de que receberiam a renda de sua aplicação. Se houvesse qualquer situação irregular, os CEOS e proprietários dessas instituições eram processados quando constatadas irregularidades e as empresam recebiam multas de alto valor. Nos países europeus, com a vigência do Estado de Bem-Estar social, o Estado intervinha na economia, controlava os ganhos do empresariado, o que beneficiava o conjunto da população.

Veremos, nas próximas publicações, as implicações desta crise.

Aracaju, 23 de abril de 2021