JAIME BRASIL

Roraima, terra de Makunaima, da fantástica cosmogonia Yanomami. Terra dos índios do tronco Caribe e Arauak. Terra das águas de Wasaká, do Rio Branco e tantos igarapés. Terra dos grandes platôs, do Monte Roraima e de plácidas savanas.

Aqui é o meu espaço de fala e o meu tempo que cala.

Roraima está na esquina da esquina da esquina do capitalismo, partindo da premissa de que o Brasil está na esquina do capitalismo mundial e a Amazônia na esquina do capitalismo brasileiro. Sendo assim, poderíamos pensar e dizer que tivemos mais tempo para evitar as ações capitalistas mais nocivas e predatórias em relação ao belíssimo e valiosíssimo ambiente que nos cerca. Poderíamos crer que com todo o conhecimento produzido e assimilado no ultimo terço do século passado e nas duas primeiras décadas deste, nenhuma das mazelas e seqüelas das ações reconhecidamente nefastas do capital recairia de forma tão brutal e insana nestas paragens que há até algum tempo estavam praticamente intocadas.

Os estudos não nos serviram de escudo, a ciência não gerou consciência, as leis ambientais de nada serviram. Estamos em 2021, reféns dos plantadores de soja e seus glifosatos cancerígenos, dos garimpeiros e seu mercúrio mortífero, dos madeireiros e suas serras que sibilam como cigarras fúnebres. Tudo como se nada tivesse mudado desde 1500: exportando matérias primas e riquezas à custa da exploração do ser humano e da vida em todas as suas dimensões.

As savanas de Roraima, as matas primárias e secundárias, os igarapés e os rios, tudo está sendo destruído neste momento com mais voracidade do que em outras regiões do Brasil.

Roraima é a comprovação definitiva de que o capitalismo não respeita nenhum valor civilizatório.

Poderia alguém perguntar: e os órgãos de fiscalização? E a Justiça?

Ora, nós marxistas sabemos que o sistema de justiça é apenas conseqüência do sistema sócio-econômico, que os instrumentos legais do Estado são a superestrutura criada a partir da infraestrutura econômica. Se não tivermos uma sociedade justa nas suas bases jamais teremos um sistema de justiça digno desse nome.

O chamado agronegócio com suas monoculturas extensivas e agropecuária de alto rendimento tornaram-se totens sagrados para economia nacional. Mas, como explicar que um modelo de produção que conta com isenção de tributos, com financiamentos subsidiados, que gera poucos empregos e tem seus produtos cotados em dólar – ou seja, que não estão a serviço da soberania alimentar do povo brasileiro –, possa contar com a quase unânime proteção política no Brasil?

O modelo econômico adotado pelo Brasil desde o Plano Real exige que haja ingresso de dólares para garantir o lastro da nossa moeda. O Real se mantém desde sua concepção pela rolagem da dívida interna e externa, um endividamento criminoso que nenhum governo passado ou presente ousou reverter, e pelo superávit na balança comercial. Nosso dinheiro mantém o seu poder de compra pela atração de capital especulativo e pela exportação de commodities, neste caso garantido pela grande produção de soja, arroz, minério de ferro, etc.

Temos a seguinte situação concreta: sustentamos a nossa moeda explorando e matando o nosso povo porque grande parte dos dólares que aqui está é atraído por nossos impostos que são usados para remunerar o capital especulativo que vem do exterior, já a outra parte dos dólares vem para o bolso de poucos latifundiários que destroem e poluem água, terra e ar.

Com muitos dólares no Brasil, ele fica barato, caso contrário fica difícil comprar quase tudo o que precisamos e quase tudo o que precisamos é importado em dólares.

É bom lembrar que todos os governos, inclusive os chamados de esquerda, trataram como sagrado esse verdadeiro moedor de vida chamado agronegócio.

O problema é que ao passo e ao ritmo em que vamos todo o patrimônio natural do Brasil será destruído para que um punhado de dólares garantam as importações de produtos com valor agregado e de alta tecnologia produzidos no exterior.

A única saída, dentro das balizas em que estamos inseridos, é termos um plano nacional de desenvolvimento tecnológico para que possamos produzir bens de alto valor agregado e não dependermos de importações. E para que possamos exportar produtos sem destruir o meio-ambiente precisamos de altíssimos investimentos em educação por um longo prazo, do mesmo modo precisamos revisar e reformular o perfil do endividamento público, justamente esse que tem sugado todo o dinheiro dos impostos deixando o pais com serviços públicos precários, inclusive a educação, que, como já dito, precisaria receber grandes investimentos.

A pergunta é: qual será o candidato em 2022 que terá a coragem de enfrentar esses dois temas, o da dívida pública humilhante e o do agronegócio devastador e envenenador?

As chamadas esquerdas não podem mais passar ao largo desse debate, e mais, é necessário que tenhamos propostas concretas para tirar o país e seu povo desse ciclo macabro que tem transformado o Brasil em um inferno cada vez mais real.

Na prática, a campanha eleitoral para Presidente de 2022 já começou. Precisamos de clareza de propostas para que tenhamos ânimo e engajamento nas mobilizações que serão tão necessárias.

Não podemos nos propor a ser meros administradores do capitalismo em sua fase mais acumuladora e destrutiva, não é pra isso que a esquerda existe.

Rompamos com a lógica neoliberal e passemos a construção do mundo que sonhamos.

Essa é a nossa missão.

Roraima, abril de 2021