Jaime Brasil

Há quase 100 anos, Maiakovski prenunciava as tormentas e a esperança:

“O mar da história

 É agitado.

 As ameaças

 E as guerras

 Havemos de atravessá-las.

 Rompê-las ao meio,

 Cortando-as

 Como uma quilha corta

 As ondas.”    Trecho do poema “E Então, Que quereis?” (1927)

Após atravessarmos tantas tempestades, e ao sabermos que o mau tempo nos espera certamente adiante, o que diria Maiakovski se vivo estivesse hoje diante do “mar da história”?

Por que tantos abandonaram o barco quando mais eram necessários à travessia? O que faz alguém mudar de ideia a ponto de achar desejável o que antes era, por ele mesmo, chamado de injustiça, exploração, crueldade, brutalidade, desamor?

Desde quando aquilo que é errado se justifica apenas porque as tentativas de dar certo fracassaram?

O desejo de revolução não é um capricho, mas sim uma imposição histórica diante da percepção de que o mundo deve, porque pode, ser um lugar bom para todos. Revolução é empatia, é o amor pela humanidade, pela vida que insiste em nos motivar a lutar, encantando-nos com toda a sua beleza e generosidade.

Desde os anos 1990 que nós, os revolucionários, buscamos novos caminhos para a construção da existência plena a que tanto almejamos para todos. Com o fracasso das experiências do chamado “socialismo real”, temos convivido com a tirania imposta pelo “capitalismo surreal”, que aprofunda a exploração dos trabalhadores e a destruição da vida natural, ao tempo em que convence os explorados a naturalizarem sua deplorável condição de vida neste mundo.

Não é surreal que hoje tenhamos trabalhadores que têm a “liberdade” de se submeterem a condições de trabalho sem qualquer tipo de proteção social ou responsabilidade patronal, e mesmo assim o fazem? O que são os trabalhadores “uberizados”, escravos sem senhores?

Não é surreal que o capitalismo tenha conseguido convencer inúmeras populações a eleger os seus próprios algozes? E, pior, algozes que assumiam que agiriam contra os interesses da maioria de seus eleitores.

Não se nos parece surreal que o país que já desponta como a maior economia capitalista do mundo seja conduzido por um Partido Comunista?

As bases da exploração capitalista seguem as mesmas tendo o ser-humano e a natureza como alvos, no entanto todo o resto mudou, as forças produtivas e as relações de produção tomaram formas inimagináveis para os antigos teóricos. O capitalismo mudou e a luta revolucionária precisa se livrar tanto do adesismo e do derrotismo quanto das velhas e viciadas práticas que burocratizaram, engessaram e deformaram movimentos populares transformadores pelo mundo afora. Não devemos lutar para resgatar o chamado socialismo real, mas também não podemos nos propor a sermos meros administradores e humanizadores do capitalismo.

São tempos complexos estes nossos em que vivemos. Muito mais presente e verdadeira faz-se o incontornável vaticínio de Marx diante do descompromisso do capitalismo com a vida e a felicidade: “tudo que é sólido se desmancha no ar”. E, agora, ainda mais rápido que antes, tudo o que nos é mais caro se demonstra etéreo. E é aí que surgem as pessoas imprescindíveis como dizia Brecht em outro festejado poema:

Há homens que lutam um dia e são bons,

há outros que lutam um ano e são melhores,

há os que lutam muitos anos e são muito bons.

Mas há os que lutam toda a vida

E estes são imprescindíveis.

E assim têm sido Luiz Basílio Rossi e Maria José dos Santos Rossi, imprescindíveis!

Diante da luta que jamais abandonaram, atravessam o agitado “mar da história” e nos trazem há um ano o site Todo Dia É Dia, concebido e efetivado por eles e sua filha Maria Sílvia Rossi.

O TDED, como Luiz Rossi gosta de abreviar, reúne matérias, poemas e análises que mais do que uma contribuição objetiva para a transformação que tanto queremos, é a prova viva daqueles que não se esmorecem, e, em si mesmo, faz-se exemplo a ser seguido e que se faz seguir como parte da ação necessária, é a marca de todos aqueles que amam os seres humanos e a vida.

Todo Dia É Dia nasce nesta longa e tenebrosa noite a que estamos submetidos, na fase mais acelerada e agressiva do capitalismo contra os povos e seres vivos do planeta.

Na sua curta existência, Todo Dia É Dia se viu diante dos governos de extrema direita que pululam na América Latina e no mundo. Nasce no fim do cotidiano que conhecíamos e que foi arrebatado por um vírus mortífero, também surgido da irracionalidade capitalista diante de cada pequeno ecossistema e que foi potencializado por governantes genocidas.

O Todo Dia É Dia nasce na noite mas tem a ousadia do dia, do dia a dia revolucionário e libertador de um casal que nunca se dobrou à acomodação e à desilusão e é alimentado por companheiras e companheiros colaboradores e que compartilham da travessia nesse tão agitado mar.

Parabéns ao site, parabéns a todos os criadores e colaboradores.

Avante!.

Jaime Brasil