JAIME BRASIL

O mundo acabou. Para além das profecias escatológicas é importante entender que o mundo já era. Mesmo antes desta trágica pandemia, o mundo já havia acabado.

Nasci na Amazônia há cinco décadas e vivi em um mundo que do ponto de vista ambiental e social se difere completamente deste que estamos vivendo.

Karl Marx, ao contrário do que muitos pensam, não foi um panfletário que passou a vida toda sonhando com um mundo perfeito. Marx dedicou a maior parte da sua obra a desvendar e explicar como o capitalismo funciona. Qualquer economista intelectualmente honesto sabe que a melhor maneira de entender o funcionamento do capitalismo é lendo Marx.

Marx dizia que o modo de produção capitalista não tinha comparação com os modos de produção anteriores e que o capitalismo ganhava de lavada de qualquer outro modo de produção anterior a ele, sendo que a capacidade do capitalismo de produzir riquezas era tão grande que as alterações sociais e ambientais também seriam imensas, e assim tem sido.

É verdade que Marx, apesar de reconhecer todas as qualidades do capitalismo –  digo, em relação à sua capacidade de produzir riquezas em uma escala nunca antes sonhada pela humanidade –, tinha profundas críticas sobre a forma como o capitalismo se organizava para essa tremenda produção. E mais, avisava que as consequências sociais e ambientais do desenvolvimento do modo de produção capitalista seriam catastróficas para a humanidade e para o planeta caso não conseguíssemos superar o capitalismo a tempo.

A quantidade de mercadorias que o capitalismo é capaz de produzir é, sem dúvida, exuberante, apesar de toda a descartabilidade intencional e desperdício dos produtos e alimentos. O problema é que o sistema capitalista – é dizer: as relações de produção que operam as forças produtivas e os meios de produção, que constroem as infraestruturas e superestruturas das sociedades, organizadas em Estados – tem como características incontornáveis a exploração cada vez maior do ser-humano, a acumulação sem freios da riqueza produzida coletivamente nas mãos de cada vez menos pessoas, a necessidade de controle de cada vez mais fontes de energia por parte dos mais poderosos, o uso da guerra como instrumento de dominação  econômica e política daqueles países que a ele não se submetem.

Vivemos uma verdadeira tirania mundial do mercado, do capitalismo sobre os povos e sobre a biosfera.

Estamos vivendo desde o começo do século XX o que podemos chamar de fase monopolista do sistema capitalista. Se os críticos de Marx dizem que o socialismo não deu certo, muito mais utópico é acreditar no liberalismo, na livre concorrência e no livre mercado. Está claro que tudo, tudo no mundo econômico é controlado por pouquíssimas pessoas. Elas controlam as fontes de energia, as matérias-primas, os preços pagos pela mão-de-obra, e, finalmente, definem qual o valor que você pagará por cada produto ou alimento. Como diz-se popularmente: está tudo dominado. O preço da sua gasolina, do arroz, do carro, da carne, etc.; tudo, afinal, é cartelizado e monopolizado por poucas pessoas no mundo.

É da natureza do sistema capitalista a necessidade do crescimento infinito, como se isso fosse possível, e, ao tempo em que ocorre há a “incorporação” das empresas menores pelas empresas maiores, ou seja, a destruição paulatina dos pequenos pelos grandes.

Um estudo insuspeito, apresentado pela OXFAM – Comitê de Oxford de Combate à Fome – em Davos, justamente no Fórum Econômico Mundial que reúne os maiores capitalistas do planeta, e que foi publicado nos principais jornais do mundo diz que, pasmem! : “os oito homens mais ricos do mundo possuem tanta riqueza quanto as 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre do planeta”.

Quer mais? Segundo a mesma organização, 1% das pessoas do planeta possuem a mesma riqueza que os outros 99%. Isso mesmo, 99% por cento das pessoas do mundo trabalham para enriquecer 1%.

Não é apenas uma desigualdade absurda, é simplesmente da natureza do capitalismo que esse tipo desigualdade chegue a esse ponto e se aprofunde ainda mais.

O neoliberalismo tem muito a ver com isso, foi essa “sofisticação” recente do sistema capitalista que fez com que esse 1% da população, bilionária, tivesse a renda aumentada em 182 vezes entre 1988 e 2011, segundo a própria OXFAM.

Durante a pandemia do Covid-19, apesar de toda a retração da economia mundial, os 20 indivíduos mais ricos do mundo aumentaram em 1,77 trilhão de dólares as suas fortunas no final de 2020, 24% a mais do que no final do ano anterior.

Nesta semana a mesma OXFAM, em seu relatório “O Vírus da Desigualdade”, afirma os países pobres levarão 14 (quatorze) anos para compensar as perdas econômicas ocasionadas até agora pela pandemia. Enquanto isso, os bilionários acumularam 3,9 trilhões de dólares entre 18 de março e 31 de dezembro de 2020.

Não haverá paz no mundo enquanto uma desigualdade nessas proporções perdurar.

Marx avisava em seus textos que o mundo cairia na barbárie, no caos, na violência sem freios, nas guerras fratricidas e entre nações e países, caso a humanidade não ultrapassasse o modo de produção capitalista.

O que temos hoje é um desenvolvimento tão grande das forças produtivas, da tecnologia, que o trabalho humano é cada vez mais dispensável, pois as máquinas e robôs o substituem, a não ser que o trabalho humano seja tão precarizado a ponto de ter as características de uma verdadeira escravidão. É o que hoje chamam de “uberização” das relações de trabalho. O desemprego e a “neoescravização”, portanto, não dependem apenas do humor do mercado. Trata-se de uma questão estrutural do próprio sistema capitalista.

O sistema em que vivemos não faz mais nenhum sentido. Temos abundancia de bugigangas para comprar, mas não há distribuição de riquezas. Temos excesso de virtualidade e a deterioração das relações afetivas. Criamos máquinas para diminuir a carga de trabalho, mas trabalhamos cada vez mais. Todos são convidados a participar do sistema, mas cada vez menos pessoas conseguirão. Tudo isso nada mais é do que o esforço do sistema para se manter funcionando, para que as pessoas participem do circo do consumo, ainda que à custa de sua própria escravização e da exploração perversa e despudorada do seu suor.

Diante de todas as maravilhas tecnológicas, criadas pelos trabalhadores e disponíveis para o uso da humanidade, não devemos mais lutar para dividir o trabalho, isso não é necessário, o nosso desafio é dividir a riqueza e o bem-estar.

Por isso digo que o mundo acabou. Porque o sistema em que vivemos não tem mais respostas a dar às atuais e futuras gerações.

De certeza mesmo, a seguir como vamos, temos apenas a desigualdade, a violência que nasce da desigualdade, a opressão estatal para manter a ordem social injusta, o esforço dos que têm mais para manter o Estado funcionando para garantir seus lucros; o envenenamento e a contaminação do ambiente que nos cerca; a descrença dos mais jovens diante de um mundo que o melhor que lhes oferece é a escravização e a exploração de suas vidas até a morte; as guerras dos países a mando das corporações em busca de recursos energéticos e de matéria prima.

O mundo acabou. Precisamos recriá-lo.                                                                          

Boa Vista (RR), janeiro de 2021