Luiz Rossi

                                                                                     Omar dos Santos

Palavras iniciais. Publicaremos nesta edição, a análise do capítulo 10 do livro de Jason Stanley – “Como funciona o fascismo” (Porto Alegre, L&PM, 2020, 4ª edição). A análise será realizada por capítulos, além da introdução e do epílogo. Publicaremos um texto por semana. Cada texto publicado constará de uma primeira parte com os principais conceitos e pontos levantados por Jason Stanley. A participação dos analistas será mínima nessa parte. A segunda parte é de exclusiva responsabilidade dos autores desta análise. Trata-se de compreender o governo do presidente Bolsonaro a partir dos conceitos e opiniões de Jason Stanley: responder até que ponto o presidente Bolsonaro, lentamente e com segurança, está construindo um governo fascista no Brasil.

Palavras de organização. Não mudaremos os grifos em negrito ou itálico e outros pontos presentes no livro. Faremos a nossa citação quando precisarmos.

Quanto à segunda parte, todos os negritos, aspas, itálicos e outros sinais são de responsabilidade dos dois analistas, como não poderia deixar de ser.

A Introdução e os capítulos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, e 9 do livro de Jason Stanley foram publicados nas edições anteriores do TDED.

Arbeit macht frei (p. 152-177)

A frase acima – O trabalho liberta – estava escrita nas entradas dos campos de concentração de Auschwitz e Buchenwald.

Jason Stanley inicia o capítulo falando da diferença de tratamento pelo Governo em relação à situação provocada pelo furacão Harvey, que devastou a cidade de Houston no Texas e pelo furacão Maria, que fez mais estragos do que Harvey em Porto Rico, ilha pertencente aos Estados Unidos.

A jornalista Jenna Johnson publicou um artigo no jornal norte-americano Washington Post em outubro de 2017, em que perguntou à Fred Maddox, residente em Houston, cuja família tinha sofrido o impacto do furação, se “os habitantes de Porto Rico deveriam receber o mesmo tipo de ajuda federal que Houston”. Ele respondeu: “Não deveria depender de nós na verdade. Acho que não. Ele (Trump) está tentando acordá-los: façam o seu trabalho. Sejam responsáveis”. Enquanto a família de Maddox recebeu uma ajuda de 14 mil dólares para serem usados para recuperar os estragos do furacão, “muitos moradores (de Porto Rico) ficaram sem energia elétrica durante meses”. Qual foi a razão para essa descriminação, se Porto Rico e Texas são estados norte-americanos? Porto Rico foi colonizado por espanhóis e a língua oficial é o espanhol e a religião é a católica. São latinos. O Texas faz parte da “nação escolhida” enquanto Porto Henrique não faz parte da nação escolhida (p. 152-153, aspas nossas).

Jason Stanley aborda essa questão da seguinte forma. “Na ideologia fascista, em tempos de crise e necessidade, o Estado reserva apoio para os membros da nação escolhida para o “Nós” e não para o “Eles”. A justificativa é, invariavelmente, porque o “Eles” são preguiçosos, carecem de uma ética de trabalho e não lhes podem ser confiados fundos estatais. Além disto o “Eles” são criminosos e querem viver somente da generosidade do Estado. Na política fascista, “Eles” podem ser curados da preguiça e do roubo com trabalho duro. É por isso que os portões de Auschwitz e Buchewald exibiam o slogan ARBEIT MACHT FREI – O trabalho liberta” (p. 152-153, aspas nossas). No cerne da divisão fascista do entre o “Nós” e o “Eles”, a dicotomia “trabalho duro versus preguiça” está como a “cumpridores da lei versus criminoso”.

O mais aterrador nessas divisões retóricas é que os movimentos tentam transformar os mitos sobre o “Eles” em realidade por meio de políticas sociais (p. 155-156). Hannah Arendt, citada pelo autor, afirma que “Sempre foi uma particularidade muito pouco notada na propaganda fascista a ideia de que eles não gostavam de mentiras, mas propunham deliberadamente transformar suas mentiras em realidade” (p. 156).

Como explica Arendt, na fala de Stanley, “A irrealidade fascista é um prelúdio da política fascista. A política fascista e a conduta fascista não podem ser facilmente divorciadas uma da outra. A forte tentação para aqueles que empregam a política fascista, quando assumem o poder, é a de usar essa posição de poder para tornar suas declarações fantásticas, cada vez mais plausíveis” (p. 157).

A política fascista fundamenta-se na divisão da população através dos preconceitos e discriminações. Em muitas partes do mundo, ao ir para a prisão, o negro recebe o estereótipo de criminoso, como se ele fosse perigoso por ser negro. O fundamento do racismo é o fato em sí de ser negro. A ida à prisão é o detalhe. Essa fórmula torna-se um estereótipo que o Estado coloca no peito do negro para identificá-lo como perigoso. De fato, os negros são excluídos antes mesmo de irem para a prisão. Isso dificulta o acesso ao trabalho e, muitas vezes, para sobreviver ou fugir de uma situação vexatória, o negro retorna ao crime e as vozes racistas (re)afirmam que isto acontece por ele ser negro. Essa situação acontece não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil.

A socióloga Devah Pager, da Universidade de Harvard, citada pelo autor, escreve que “o encarceramento se torna um rótulo para os indivíduos, assim como acontece com os recém formados no ensino superior ou beneficiários de assistência social”. Ela afirma que “A ´credencial negativa` associada a um antecedente criminal representa um mecanismo único de estratificação, na medida em que o Estado que certifica determinados indivíduos de forma a qualificá-los para discriminação ou exclusão social” (p. 160).

Segundo Jason Stanley, o rótulo de “violentos e preguiçosos”, dado por brancos aos negros, surgiu no início da colonização dos Estados Unidos, quando esses atributos eram usados para sujeitá-los e submete-los à escravidão. Esses estereótipos continuaram a existir após o fim da escravatura. Naquela época, e os estereótipos fazia com que os negros, condenados pela justiça, fossem arrendados para empresas mineradoras e siderúrgicas onde eram submetidos a tratamento de horror, quando não morriam. Nos Estados Unidos, os negros condenados sofrem há muito tempo dessa discriminação e violência. O autor conclui: “Os mecanismos subjacentes ao encarceramento rácico em massa de americanos negros fazem parte de uma longa tradição de justificar o estereótipo dessa população como preguiçosa – isto é, incapazes de conseguir emprego simplesmente por falta de vontade” (p.161-162).

Segundo Jason Stanley, nas décadas de 1970, 1980 e 1990 nos Estados Unidos, a política “dura com os crimes”, forma violenta de tratar os condenados, foi abranda por pressão dos dois principais partidos. “No entanto, o que não acompanhou essa mudança foi a consciência de que as motivações subjacentes às retóricas e às políticas de crime duro eram fascistas, criadas para estabelecer uma dicotomia entre ´Nós` e ´Eles` e reforçar estereótipos hierárquicos preexistentes” (p. 164).

Stanley também analisa a relação do fascismo com os sindicatos. “Nos sindicatos em funcionamento, os cidadãos brancos da classe trabalhadora identificam-se com os cidadãos negros da classe trabalhadora, em vez de ressentirem-se deles. Os políticos fascistas entendem a eficácia que essa solidariedade tem em resistir às políticas de divisão e, portanto, procuram desarticular os sindicatos. Apesar de condenar as ´elites`, a política fascista procurar minimizar a importância da luta de classes” (p. 165).

O sindicato é o principal mecanismo que as sociedades descobriram para vincular pessoas que diferem em vários outros aspectos. Os sindicatos são fontes de cooperação, de comunidade e de igualdade salarial, bem como mecanismos para fornecer proteções às vicissitudes do mercado global. De acordo com a política fascista, os sindicatos devem ser esmagados para que os trabalhadores individuais tenham que se virar sozinhos no mar do capitalismo global e passem a depender de um partido ou líder (fascista). A aversão pelos sindicatos é um tema tão importante na política fascista que o fascismo não pode ser totalmente compreendido sem um entendimento disso” (p. 165, parênteses nossos).

Hanna Arendt argumenta, no livro clássico as “Origens do totalitarismo” citado pelo autor, que “o fascismo exige que os indivíduos em uma sociedade sejam ´atomizados´, isto é, devem perder a conexão mútua existente entre suas lideranças. Os sindicatos criam laços mútuos ao longo de linhas de classe e não de raça ou religião. Essa é a razão fundamental pela qual os sindicatos estão na mira da ideologia fascista” (p. 166).

Segundo Jason Stanley, o fascismo desenvolve-se com mais desenvoltura em países com maior desigualdade econômica. Quanto maior é o número de sindicatos, maior é a igualdade entre as pessoas porque os sindicatos unem os trabalhadores, independente de raça, religião e opção política e assim contribui diretamente para a melhoraria das condições sociais, econômicas e políticas da sociedade  (p. 166). Assim é que Archon Fung, cientista político de Harvard citado pelo autor, afirma que “países com alta densidade sindical têm baixa desigualdade de renda (Dinamarca, Finlândia, Suécia e Islândia), os países de alta desigualdade também têm baixa densidade sindical (EUA, Chile, México, Turquia)”, na qual pode-se acrescentar o Brasil.

Os sindicatos são uma arma poderosa contra o desenvolvimento de uma esfera econômica desigual. Como o fascismo prospera em condições de incerteza econômica, onde o medo e o ressentimento podem ser mobilizados para colocar os cidadãos uns contra os outros, os sindicatos de trabalhadores protegem-se contra a possibilidade de a política fascista criar um ponto de apoio para desenvolver-se” (p. 167).

É interessante destacar o que aconteceu no Sul dos Estados Unidos ainda no século XIX, após a guerra civil entre o Norte e o Sul. W. E. B. Du Bois, já citado por nós anteriormente, afirma que durante a reconstrução (negra) houve uma mudança profunda, quando os negros foram eleitos para o governo provincial. O autor cita uma afirmação de Du Bois na qual “(…) tal poder nas mãos dos trabalhadores do Sul que, com liderança inteligente e altruísta e um ideal esclarecedor, poderiam ter reconstruído os fundamentos econômicos da sociedade sulista, confiscado e redistribuído a riqueza e construído uma democracia racial e industriosa para as massas” (p. 167).

Mas, por que esse movimento democrático, sob a liderança dos trabalhadores, foi destruído?

Jason Stanley afirma, citando argumentos de Du Bois: “O Sul foi dividido por ressentimento racial, com brancos pobres temerosos de perder seu lugar na hierarquia social acima dos negros recém emancipados”. Para impedir tal iniciativa que beneficiava os trabalhadores em geral, os industriais do Norte (capitalista) em aliança com o poder latifundiário branco sulista, utilizando-se do ressentimento dos brancos pobres, tudo fizeram “para esmagar qualquer aparência de um movimento trabalhista inter-racial, e, com isso, o que teria sido uma força poderosa para a igualdade econômica”.  Jason Stanley conclui que “Quando trabalhadores brancos pobres não têm identificação de classe com trabalhadores negros pobres, eles recaem em linhas familiares de divisão racial e ressentimento” (p. 168).

Podemos utilizar os argumentos de Jason Stanley sobre o papel do sindicato nos Estados Unidos para melhor compreender melhor a situação dos sindicatos em uma sociedade que escolheu um fascista para governar o Brasil. São informações, dados e opiniões úteis para esta análise. Nesta perspectiva, uma das tarefas cruciais dentre as tantas que o momento histórico impõe a todos quantos estão dispostos a trabalhar para a libertação do Brasil do obscurantismo e do iminente risco de cair nas mãos de um governo abertamente totalitarista é a de restaurar as organizações sindicais para devolver-lhes o poder.

Nos Estados Unidos, as falas racistas são publicizadas. Jason Stanley compartilha o caso de um personagem racista do sul dos Estados Unidos, Vance Muse, que afirmou em declarações públicas, após a Segunda Guerra Mundial que terminou em 1945:“De agora em diante, mulheres brancas e homens brancos serão forçados a fazer parte de organizações com macacos negros africanos, que eles terão que chamar de “irmão” ou perder seus trabalhos. (…) Eles me chamam de antijudeu e ‘anticrioulo’. Veja bem, nós gostamos do crioulo – em seu lugar. (…) (sou) um sulista defensor da supremacia branca”.

Esse ódio brutal ao negro, explicitado pela supremacia branca, era fruto da existência de uma lei que permitia aos negros os mesmos direitos que dava aos trabalhadores brancos (p. 169).

O autor afirma que “as leis de direito ao trabalho (nos Estados Unidos) foram originalmente promovidas numa linguagem que refletia com exatidão os ataques de Hitler contra os sindicatos em Mein Kampf.  No entanto, seu plano antissindicalista, explicitamente fundado no desejo de manter a hierarquia racial branca e impedir a solidariedade entre as raças e religiões, saiu em grande parte vitorioso nos Estados Unidos de hoje” (p. 170).

Mas por que os fascistas costumam tachar certos grupos de “preguiçosos” ? O que há por trás dessa forma de classificar esses grupos se, como sabemos, a preguiça não é atributo de nenhum povo em particular ? (p.170).

Jason Stanley afirma que “Os movimentos fascistas compartilham com o darwinismo social, a idéia de que a vida é uma competição pelo poder, segundo a qual a divisão dos recursos da sociedade deve ser deixada para a livre concorrência do mercado. Os movimentos fascistas compartilham seus ideais de trabalho duro, iniciativa privada e autossuficiência. Ter uma vida digna de valor, para o darwinista social, é ter superado os outros pela luta e pelo mérito, ter sobrevivido a uma feroz competição por recursos”. Nesta visão, os que não conseguem competir, por falta de recursos ou por outra razão qualquer, “não merecem os bens e recursos da sociedade”.

AAssim, os fascistas querem justificar o fato de certos grupos serem chamados de preguiçoso por eles, devendo, por isto, serem alijados dos recursos disponíveis (p. 170-171). Os nazistas consideravam “os cidadãos portadores de deficiência como desprovidos de valor, pois para a ideologia nacional-socialista”, eles não traduziam “a importância das contribuições do indivíduo para a sociedade, através de seu trabalho”. Para eles, quem depende do Estado, é deficiente, “não tem valor algum”. Exemplo disso é a lei promulgada pelos nazistas em 1933, “determinou a esterilização de cidadãos deficientes, sendo seguida pelo programa secreto T4, que asfixiou com gás milhares de cidadãos alemães com deficiência, e, finalmente, em 1939, os médicos foram ordenados a matá-los todos” (p. 171).

Para os fascistas, não há contradição entre o autoritarismo e os valores de uma sociedade do livre mercado. Consideram ser a empresa capitalista um local onde impera a autoridade a partir da existência de uma hierarquia que desce do topo até a base. A ideologia fascista não é “anti-individualista“, muito pelo contrário, ela louva o individualismo presente no mercado, no qual a competição do mais forte elimina o mais fraco (p. 172-174).

Jason Stanley afirma que “o liberalismo econômico vincula a liberdade e a virtude à riqueza. De acordo com esse princípio, a pessoa “ganha” a liberdade acumulando riquezas por sua capacidade de lutar. Aqueles que não “ganham” sua liberdade dessa maneira, não a merecem”. Por isso, os fascistas aceitarem a política neoliberal vigente em grande parte dos países do mundo. Nesse caso, os bem postados na hierarquia econômica – as megaempresas – ganham “rios de dinheiro“, durante eventos como uma pandemia. Para os seus chefes, o atraso de nações, de comunidades e de pessoas tem a ver com apenas com a própria incompetência (p. 172).

(…) “Na ideologia fascista, todas as instituições, da família à empresa, passando pelo Estado, seriam administradas de acordo com o princípio do Führer. O pai, na ideologia fascista, é o líder da família e o CEO é o líder da empresa. O líder autoritário é o pai ou o CEO do Estado. Quando os eleitores de uma sociedade anseiam por um CEO como presidente, eles estão respondendo a seu próprios impulsos fascistas implícitos” (p. 176).

O Governo Bolsonaro

As falas públicas do presidente Bolsonaro tem influenciado a população, acentuando preconceitos. Bolsonaro afirmou que os homens quilombolas pesam várias arroubas e ele não acreditava que pudessem produzir filhos. Na prática, para Bolsonaro, os quilombolas são “Eles”, e segundo ele “são preguiçosos”. À medida que Bolsonaro insiste nesta visão de mundo junto à opinião pública, pessoas começaram a concordar que, de fato, os quilombolas são “preguiçosos” e que não possuem “fertilidade suficiente para gerar filhos”. Com este tipo de afirmações, Jair Bolsonaro avança na sua estratégia de criar proximidade do “Nós” e gerar distância do “Eles”, conforme mostram pesquisas recentes continuam mostrar a avaliação a Jair Bolsonaro chega a 37% de bom e ótimo.

O jornalista Reinaldo de Azevedo publicou, em 14 de dezembro de 2020, um artigo em que informa que na campanha eleitoral de 2018, os empresários afirmavam que votariam em Bolsonaro porque não queriam votar no PT. Contudo, o jornalista questiona esta justificativa argumentando que havia outros candidatos tanto de centro-direita como de direita para se votar. “Tratava-se obviamente de uma mentira: votaram em Bolsonaro não porque ele fosse a contenção possível contra a esquerda. Também não confiavam na sua competência porque seus discursos eram um misto de afasia, anacolutos e coisas absolutamente incompreensíveis.”

O jornalista continua: “Os reaças delirantes gostavam, de verdade, das obscenidades ideológicas que ele dizia: da homofobia; da misoginia; do desrespeito aos pobres, aos negros e aos índios; da patologia antiambientalista; do discurso armamentista. E continuam a gostar. Só isso explica que 58% dos empresários achem o seu governo ótimo ou bom”.

E termina o artigo, perguntando “Ótimo e bom em quê?

Como explicar que um personagem genocida e incapaz de planejar o enfrentamento da pandemia no Brasil, que profere discursos ideológicos que semeiam mentiras e estimulam divisões, que realiza ataques pessoais à torto e à direita, pode ser o presidente de uma nação com mais de 200 milhões de habitantes e consegue ter o apoio significativo da população e contar com 58% de aprovação dos empresários?

Como entender que um presidente e seu governo, responsáveis pelo desemprego de quase 14 milhões de brasileiros, pela redução de 20,1% da renda mensal do trabalhador, pela quase completa destruição do parque industrial do país e pela volta de 48% da população para abaixo da linha de pobreza, possa continuar a ter esses altos índices o apoio tanto das classes mais necessitadas quanto dos extratos mais abastados da população?

Certamente a resposta não é simples. Mas apresentamos algumas explicações.

Parte desses apoiadores, o chamado “núcleo duro” do “bolsonarismo”, são pessoas orgânicas da extrema direita, isto é, pessoas que concordam realmente com a política fascista. Em passado recente, não costumavam mostrar a cara nas eleições. A partir da crise de 2014, os “armários” foram abertos e essas pessoas começaram a manifestar-se, geralmente de forma violenta, exacerbando o ódio pelo Brasil afora, principalmente pelas mídias sociais com a utilização, à larga, as fake news.

A grande porcentagem de apoiadores de Jair Bolsonaro, oriundos das classes dominantes e média, apoiam o presidente pelas razões apontadas pelo jornalista Reinaldo Azevedo, mas também o apoiam porque essa burguesia tem um medo doentio de que candidatos com bases democráticas e populares venham governar o Brasil. O seu liberalismo ostentado como a cauda de um pavão é, na verdade, um liberalismo de “quarto mundo”, associado a um “entreguismo” feroz, um racismo violento e um conservadorismo anacrônico e sádico. Pontue-se que o liberalismo vigente em países capitalistas avançados mantem-se anos-luz à frente deste liberalismo “chinfrim” praticados pela burguesia brasileira e pelos “CEO” remunerados à preço de ouro.

A mídia tradicional (rádio, televisão, jornal e revista) também contribuiu para que um presidente com essas características governe o Brasil. Na campanha eleitoral de 2018, a mídia tradicional lançou rosas e perfumes, palavras bonitas e exortações para que o eleitorado apoiasse o então  candidato de perfil fascista. Não importava o que o candidato proferisse em discursos e nem os malfeitos que insinuasse realizar se eleito presidente. Naquele momento, a mídia considerava prioritário enlamear a esquerda e o PT, para que seu candidato vencesse. Hoje, a maioria dessa mídia “chora pitangas” devido ao descalabro e caos em que nos encontramos, inclusive à incúria no planejamento do combate ao Covid-19, uma face à criminosa incompetência ou safadeza pela morte de mais de 200 mil brasileiros associada aos caos em que está o planejamento para a vacinação da população. As redes de TV denunciam e os grandes jornais exibem editoriais furiosos contra o presidente neste tema mas, convenientemente, esquecem-se de realizar uma autocrítica de seu apoio neste passado recente.

Neste aspecto, merece ainda destaque a contribuição de órgãos superiores da magistratura, principalmente do Supremo Tribunal Federal – STF que desempenhou um papel marcadamente de militante político, quando deveria ser um órgão com posição claramente jurídica. O que a sociedade espera e a Constituição determina dele é um comportamento institucional firme. Mas, ao contrário, a Suprema Corte frequentemente vacilou frente aos desafios postos pelo Executivo e pela mídia no desempenho de sua responsabilidade maior de defender, de forma inconteste, as liberdades e a democracia. Presenciamos a perda de rumo em várias ocasiões, afastando-se do caminho determinado pela Constituição brasileira.

Nesta análise que busca compreender a situação brasileira, é necessário enfatizar o papel militante do Judiciário e do Congresso Nacional em todo este processo. A Operação Lava Jato, comandada pelo ex-juiz Sérgio Moro, foi instrumento poderoso para o processo desatinado de politização da Justiça e de destruição da reputação de empresas, a pretexto de combater, segundo eles, a corrupção. O Congresso Nacional foi um ator fundamental na violação das liberdades e da democracia brasileira. Juntamente com o Judiciário e as mídias tradicionais, apoiou o candidato Bolsonaro e foi instrumento importantíssimo para a concretização do golpe de Estado contra a presidente Dilma Rousseff. Esses entes colaboraram com o STF e as Forças Armadas, principalmente o Exército, na tarefa espúria de impedir que o ex-presidente Lula fosse candidatasse à presidência em 2018, quando tinha reais condições de vencer o candidato com características fascista, Jair Bolsonaro. Além disso, entre os anos de 1918 a 2020, o Congresso Nacional, o Judiciário e as mídias tradicionais contribuíram ativamente para “violar“e “estuprar” os direitos dos trabalhadores, aprovando uma legislação antipopular, antidemocrática e integrista, sempre apoiada pelas burguesias brasileira e internacional.

Mesmo no caos em que vivemos neste momento (dezembro de 2020), em que pese a existência de mais 50 (cinquenta) pedidos de impeachment do  presidente Bolsonaro, o presidente da Câmara Federal Rodrigo Maia mantém uma posição intransigente de não colocar o impeachment em pauta. Ele afirma que não se pode tirar o foco do combate ao vírus, quando sabemos todos muito bem que um tema não impede o outro. Pelo contrário, este debate possibilitará a discussão de um perfil presidente da República minimamente decente e competente pode combater o Covid 19 e dirigir a Nação.

Ademais, é importante destacar, como o faz Jason Stanley em relação aos Estados Unidos, que a política de discriminação racional também guarda relação com o tema das drogas. No Brasil assim como nos Estados Unidos, a política de combate ao consumo de “drogas” é uma política fascista, que procura controlar a juventude negra e não apenas o uso mesmo que em quantidades mínimas. A violência policial é a ferramenta que a classe dominante adota usualmente para esse controle, e a violência institucional dirige-se principalmente contra os jovens negros. O governo Bolsonaro tem buscado legitimar e normalizar esta violência. De fato, com a eleição de Bolsonaro para presidente da República, a política de controle e repressão adquiriu outras formas. A recente denúncia de que o Ministério da Justiça criou um órgão clandestino para identificar como perigosos jovens antifascistas e outras pessoas como professores que lutam contra o governo também é identificada como política fascista.

Parte significativa da população pobre apoiou Bolsonaro nas eleições de 2018. Colaborou com essa situação o apoio da grande imprensa e as próprias dificuldade do Partido dos Trabalhadores que, embora na Presidência da república a partir de 2003, sucumbiu às tentações de institucionalização de seus quadros superiores, moldando-se à forma de atuação da burguesia. Face a isso, deixou de priorizar as bases populares para ter delas o necessário apoio em momentos de crise como aconteceu a partir do governo de Dilma Rousseff. Desta forma, erros políticos e administrativos cometidos pelo Partido dos Trabalhadores e pela esquerda também auxiliaram ao apoio ao Governo Bolsonaro. Nesta contexto, na gestão de Jair Bolsonaro a ajuda emergencial durante a pandemia o granjeou com o apoio de parte importante da população mais pobre e mais necessitadas.

É importante assinalar que a política adotada pelo “bolsonarismo” é o neoliberalismo, na forma mais violenta de exploração dos trabalhadores. Por isso, o governo recebe apoio do empresariado brasileiro, que tem as características elencadas acima.  

O jornalista Breno Altman, editor do Ópera Mundi, declarou ao Portal Brasil 247 em 23 de agosto de 2020, que dois fatores explicam a melhoria da aprovação de Bolsonaro nesses últimos tempos. O primeiro refere-se, segundo Altman, à “renda mínima emergencial”. A situação em que a população mais pobre vivia e vive é a de uma grave crise em duas dimensões: a econômica, causada pela perda de renda e pelo desemprego galopante e a sanitária causada pela pandemia que já matou mais de 200 mil pessoas, uma tragédia. Ele afirma que “a chegada de uma renda mínima de R$ 600 não é pouca coisa nesses setores, então ali apareceu (Bolsonaro) com um cantil de água para quem estava morrendo de sede”. Com essa água emergencial, que não foi iniciativa dele, “o governo federal ganhou o apoio dessas pessoas”.

Breno Altman afirma também que o medo de morrer não provocou um choque na sociedade. “Com 110 mil mortes as pessoas estão indo aos bares, aos restaurantes, às praias, saindo às ruas. É a naturalização da pandemia. O Bolsonaro apostou nisto e ganhou a aposta porque ele imaginou que o medo das pessoas em relação a perda de renda e de emprego seria maior do que o medo de morrer” (acesso em 30 de agosto de 2020).

A Gama Revista de 16 de setembro de 2020 apresenta um longo artigo – “Nossas Escolhas” – em que trata do impacto da pandemia sobre as pessoas, denominado “Epidemia da exaustão”.  Selecionamos a parte abaixo para apresentar a vocês com o nome de “A surpreendente fadiga da epidemia”, o relato da Revista Gama:

O cansaço pode estar por trás de aglomerações em praias e bares, festas clandestinas e outros comportamentos que deixam os especialistas perplexos. “Houve uma histeria coletiva, que acabou com os estoques e álcool gel no início da pandemia, quando nem havia transmissão comunitária no Brasil e agora, com a média de 700 óbitos por dia, as pessoas saem sem máscara, descuidam da higiene e não observam o distanciamento. É como se elas tivessem cansadas e decretassem o fim da pandemia por conta própria”, afirma o infectologista Alexandre Naime, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. “O cérebro se confunde na avaliação do risco. Após seis meses de epidemia, a ameaça deixa de ser levada a sério e passa a ser considerada algo normal. O discurso antagônico dos políticos – um negando a gravidade da doença, outro defendendo medidas restritivas – estimula essa confusão. A chamada fadiga do cuidado leva a relaxar na prevenção. ´Mas o vírus está presente e não é hora de vacilar´”, insiste o infectologista. “Flexibilização não é o mesmo que normalização: usar máscaras, reforçar a higiene e evitar aglomerações continuam sendo essenciais” (acesso em 23 de setembro de 2020).

Nesse momento, aumenta o número de casos. Nas últimas 24 horas (de 14 para 15 de dezembro de 2020) o número de vítimas atinge a cifra de 964 mortes. Durante a pandemia o total de mortos chega a 182.799.

Os especialistas afirmam que, com um governo desse naipe e com a total irresponsabilidade de grande parte da população, o número de mortos durante as festas de final de ano baterá recordes (informações obtidas junto ao olhardigital.com.br de 15 de dezembro de 2020, acesso em 16 de dezembro de 2020). Os hospitais, em várias cidades brasileiras, já estão em seu limite de atendimento na data de hoje.

Aracaju e Taguatinga (DF), 16 de dezembro de 2020.