Luiz Rossi

                                                                                    Omar dos Santos

Palavras iniciais. Publicaremos nesta edição, a análise do capítulo 9 do livro de Jason Stanley – “Como funciona o fascismo” (Porto Alegre, L&PM, 2020,4ª edição). A análise será realizada por capítulos, além da introdução e do epílogo. Publicaremos um texto por semana. Cada texto publicado constará de uma primeira parte com os principais conceitos e pontos levantados por Jason Stanley. A segunda parte é de exclusiva responsabilidade dos autores desta análise. Trata-se de compreender o governo do presidente Bolsonaro a partir dos conceitos e opiniões de Jason Stanley: responder até que ponto o presidente Bolsonaro, lentamente e com segurança, está construindo um governo fascista no Brasil.

Palavras de organização. Não mudamos os grifos em negrito ou itálico e outros pontos presentes no livro. Fizemos a nossa citação quando precisarmos.

Quanto à segunda parte, todos os negritos, aspas, itálicos e outros sinais são de responsabilidade dos dois analistas, como não poderia deixar de ser.

A Introdução e os capítulos 1, 2, 3, 4 5, 6, 7 e 8 do livro de Jason Stanley foram publicados nas edições anteriores do TDED.

Sodoma e Gomorra (p. 139-151)

No capítulo 2 do livro Mein Kampf, Adolf Hitler fala que nasceu em pequena cidade no interior da Áustria e, posteriormente, foi morar em Viena, considerada (…) uma “cobra venenosa”, já que entendia que para “conhecer suas presas venenosas, é preciso viver lá” (…). No livro, Hitler denuncia em Viena, a falta de orgulho nacional alemão. Acima de tudo, Hitler despreza Viena por seu cosmopolitismo, sua mistura de diferentes grupos culturais e raciais:

“Eu odiava a mistura de raças que havia na capital. Odiava o conglomerado de tchecos, poloneses, húngaros, rutenos, sérvios, croatas e, acima de tudo, a excrescência fungiforme sempre presente de judeus e mais judeus” (p. 139-140).

O fascismo abomina as cidades maiores por serem centros cosmopolitas onde convivem pessoas geralmente de origens diversas, mantendo maior liberdade. É nelas que as mulheres, de maneira geral, têm mais condições de trabalhar fora, o que significa a diminuição do poder patriarcal.

Por outro lado, os fascistas cultuam as cidades pequenas, local de manutenção da tradição e prevalência do poder patriarcal. Consideram que essas regiões são mais puras pois guardam mais os valores tradicionais. Para a ideologia nacional/socialista “os valores alemães puros eram valores rurais, próprios da vida camponesa; as cidades, ao contrário, eram locais de corrupção racial, o puro sangue nórdico era conspurcado pela mistura com os outros” (p. 140).

Os fascistas consideram que é a zona rural o local da pureza da população e é de onde fluem os impostos para as cidades. Para eles, são os impostos obtidos nas zonas rurais que enriquecem as cidades. “A política fascista defende que uma economia globalizada causa danos nas atividades das zonas rurais, somando a essa idéia foco nos tradicionais valores rurais de autossuficiência, que supostamente são ameaçados pelo sucesso das cidades liberais, tanto do ponto de vista cultural quanto econômico”. (p. 144.) Um estudo citado pelo autor, realizado no estado de Minnesota, Estados Unidos, demonstra a ignorância ou má fé dos fascistas quando afirmam que os impostos pagos pelos agricultores tornam as cidades mais ricas e que não há nenhum retorno em benefícios à zona rural por esses impostos. Esse estudo afirma, ao contrário, que “Minnesota, cidade motor econômico do estado, gera recursos financeiros de impostos que fluem para todos os cantos do estado” (p. 145).

Para os fascistas, a diversidade dos grandes centros urbanos, com sua concomitante tolerância em relação à diferença, é uma ameaça à sua ideologia. Sua política tem como alvo as elites financeiras, pessoas ´cosmopolitas`, pessoas liberais, bem como minorias religiosas, étnicas, sexuais. Em muitos países, esses grupos são marcadamente urbanos. As cidades, portanto, servem como alvo substituto para os inimigos clássicos da política fascista” (p. 148).

Os fascistas consideram a nação como a instituição nobre porque ela possibilita a existência de “indivíduos autossuficientes que, coletivamente, optam por se sacrificar por um objetivo comum de glorificação étnica ou religiosa”. O Estado é o inimigo, pois ele é constituído pelo conjunto das instituições que governa e administra a nação através de sua infraestrutura pública. As pessoas buscam no Estado as condições para a sobrevivência. É nas cidades onde o Estado viceja como mais facilidade, é lá que há mais investimentos públicos, o que significa mais benefícios para a população (p. 149).

Bolsonaro e a pureza da raça no Brasil. Como ?

Como Bolsonaro resolve essa equação? Mais da metade da população brasileira, mais precisamente 56,1%, segundo o IBGE, é de origem negra. Como se sabe, na região sul lá existe uma relativa semelhança de cor, mas que não é homogeneidade. Nessa região convivem populações de origem italiana, alemã, polonesa, ucraniana, negra, indígena e asiática. Veja acima que Hitler não apreciava os nacionais do leste europeu, como ucranianos, poloneses etc. O mesmo acontece em relação à população do Nordeste e do Norte do Brasil, onde a maioria é de origem negra e indígena.

Desta perspectiva, a solução desta equação só é possível com a mudança de um de seus termos, ou seja: colocando como base o proprietário rural, geralmente branco.

O governo Bolsonaro tem sido ativo no ataque aos indígenas. Ele incentiva fazendeiros, grileiros, empresas multinacionais, garimpeiros a invadir terras indígenas, destruir florestas, assassinar líderes comunitários e poluir rios. Isso já acontecia anteriormente, mas em menor escala, já que os governos tinham o mínimo de decência para controlar essa destruição. Mas atualmente, o governo está deixando a Amazônia, principalmente, uma terra arrasada para a plantação de grãos, a instalação de grandes fazendas para criação de gado, a caça de minérios pelos garimpeiros e a ocupação das terras públicas pelos grileiros.  Nesse crime contra a nação e seu povo, o único objetivo é o lucro pela venda, muitas vezes pelo contrabando, dos produtos para o mercado nacional e internacional. Para isso as florestas são arrancadas, e com elas o Brasil e o mundo perdem a maior, a mais rica e a mais complexa biodiversidade do planeta. Esta floresta é uma riqueza única, que pode gerar benefícios incalculáveis de forma permanente para a população brasileira e estrangeira.

Esse processo de inimaginável perversidade contra o Brasil e sua gente, que é estimulado, apoiado e protegido pelo presidente Bolsonaro e sua gente. O seu projeto acaba com a fertilidade do solo, extermina insetos e dizima a maioria das espécies animais nativas. E desta forma, o mundo todo fica mais próximo de um cataclismo de proporções inimagináveis, em escala planetária. Neste processo, o povo brasileiro perde o respeito do resto do mundo, perde um ativo econômico decisivo na competição capitalista e, longe de ser um exagero, coloca em risco sua própria condição de existir como nação autônoma.

Mas, Jair Bolsonaro não fica por aí. Ao visitar um quilombo afirmou que os homens negros “pesam “ 7 arrobas”  e “nem servem para a procriação” ao mesmo tempo em que, nesses locais, fazendeiros são incentivados por ele a tomar a terra de quem a ocupa secularmente – os quilombolas.

Ao longo do tempo, Jair Bolsonaro tem sido pródigo em manifestações patriarcalistas. Ele não admite que as mulheres deixem o lugar de cama e cozinha e lutem por sua independência e acessão social e política. Não suporta a ideia de emancipação e independência da mulher como não admite que a mulher seja dona de seu corpo. Ele ataca as mulheres brasileiras da maneira mais vil e sórdida. Como deputado, em discurso na câmara federal, atacou uma deputada dizendo que não a estupraria por ela ser feia. Em outra ocasião, afirmou que tinha quatro filhos varões, mas que ao conceber o quinto, teve um momento de fraqueza, e gerou uma menina.  Atacou uma jornalista com insinuações sexuais.

O ataque aos movimentos sociais é igualmente intenso. Bolsonaro colocou um negro chamado Sérgio Camargo como presidente da Fundação Palmares. Esse personagem afirmou que o movimento negro é constituído de uma “escória maldita” e que mãe de santo é “macumbeira”. Mesmo com essas declarações e outras, o presidente Bolsonaro o mantém na presidência do órgão, o que fortalece o seu apoio ao racismo no Brasil.

Por último, os ataques à Democracia são frequentes, pelo presidente Bolsonaro. Quando a viúva do Cel. Brilhante Ustra visitou o Palácio do Planalto, o presidente considerou esse personagem como “herói nacional”. Como sabemos esse verdugo foi um dos maiores torturadores do Brasil à época da ditadura militar brasileira.

Esse conjunto de citações tem o objetivo de demonstrar a personalidade do presidente. Pugna tomar a terra dos indígenas, vital para sua sobrevivência; ataca os quilombolas, zombando deles quanto à sua masculinidade; considera que as mulheres têm que se aterem à uma condição de cuidar da família patriarcal; destrói as florestas, fonte de inesgotável riqueza, para obter lucro imediato; tece elogios a um dos maiores torturadores do Brasil, morto há poucos anos. 

O fascismo separa claramente o “Nós”, os que estão no caminho certo e o “Eles” que estão separados da nação para serem criticados, vigiados, combatidos e, se for o caso, destruídos. 

Não há neutralidade possível diante das atitudes patrocinadas pela presidência do Brasil. De fato, essa política de destruição – por isso o nome do capítulo – promovida pelo presidente do Brasil, precisa ser compreendida e combatida.

                                       Aracaju e Taguatinga (DF), 8 de dezembro de 2020