Maria José dos Santos Rossi

PhD, professora aposentada da UnB

“… Como professora e escritora creditou, investiu poder às palavras e imaginou que esse poder fosse capaz de transpor o limite do Imaginário e causar impacto sobre condutas individuais mudar ações, comportamentos de outrem. Como mulher de prestigio, talvez tivesse sentido a oportunidade de falar as suas pares, chamando-lhes à necessidade de se instruírem pela leitura menos romântica, imaginando que isto as faria deixar de ser o que considerava “bibelôs ou simples administradoras de casa…”

Assim se expressa a historiadora Karla Leonora D. Nunes em sua tese de mestrado sobre Antonieta de Barros, ao ler sua obra e estudar sua biografia. Pois ser professora era a única profissão possível para as mulheres, tida como vocação e sacerdócio.

“Educar é ensinar aos outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços; é transportar às almas que o Senhor nos confiar, à força insuperável da Fé.”

Antonieta de Barros, em seus escritos.

O Dia do Professor é comemorado em todo o país no dia quinze de outubro mas nem as professoras e professores e nem os estudantes sabem que a inventora desse dia foi uma grande heroína brasileira, a primeira deputada negra do Brasil – ANTONIETA DE BARROS.

Quais foram seus feitos e sua história?

Antonieta de Barros filha da ex-escrava Catarina, nasceu em 11 de junho de 1901 na cidade de Desterro, como era chamada a hoje cidade de Florianópolis. O nome do seu pai, segundo os historiadores não aparece no seu registro de batismo na Cúria Metropolitana. O ato foi realizado pelo padre Francisco Topp. Mas sabe-se que seu pai cedo faleceu e se chamava Rodolfo de Barros.

Nos documentos do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, citados pelo jornal El País, na coluna Opinião, citado por Aline Torres, encontram-se as notícias sobre Antonieta de Barros. Aline Torres é jornalista e criadora da “Construtores de Memórias”, uma agência de narrativas, especializada em transformar lembranças afetivas em livros, reportagens e documentários.

A mãe Catarina, lavadeira, era ligada à família de Nereu Ramos, uma das mais tradicionais do Estado. Antonieta de Barros tinha uma irmã, Leonor de Barros. Filha de família pobre, negra e ex-escrava, a sua mãe recebeu uma ajuda de Vidal de Ramos (pai do deputado Nereu Ramos), para quem trabalhava como lavadeira, serviço comum às mulheres negras libertas da época. Com essa ajuda, abriu uma pequena pensão para estudantes no centro da cidade. Foram esses estudantes que ensinaram as letras, já tardiamente, à curiosa Antonieta.

Ela continuou estudando e queria se tornar advogada. Mas à época era proibido às mulheres fazer curso superior; às mulheres era apenas permitido fazer o curso normal e ser professora.

Antonieta, alfabetizada, foi para uma escola particular e dois anos mais tarde entrou no curso primário.  Conseguiu ingressar na Escola Normal aos 17 anos. Dessa forma deu asas aos seus sonhos de ser professora e educadora. Antes mesmo de tornar-se professora, já mantinha com sua irmã Leonor um curso denominado “Curso Particular Antonieta de Barros”. Esse curso funcionou até 1964.

Com sua competência como professora – sua fama era de excelente professora – tinha como objetivo de vida combater o analfabetismo em adultos. 

Lecionou também para as elites nos Colégios Sagrado Coração de Jesus, Dias Velho e Catarinense.

Formou-se professora primária mas não se limitou apenas ao magistério. Tornou-se oradora, jornalista, escritora e militante na ‘Liga do Magistério’.

Sua defesa acirrada pela educação possibilitou-a a ocupar as páginas dos jornais. Virou cronista e contribuiu com a imprensa durante 23 anos, escrevendo mais de mil artigos em oito veículos e criou a revista Vida Ilhoa.

Ingressou no Partido Liberal Catarinense, em 1934 levada pela mão de Nereu Ramos. Assim candidatou-se e elegeu-se deputada na Assembléia Legislativa do Estado. Dedicada às causas do magistério, enquanto deputada, instituiu o dia 15 de outubro como o dia estadual do Professor.

Dos seus opositores homens brancos, tanto nos jornais como nas bancadas da Câmara, ela ouvia que:

mulheres não deveriam opinar, pois nasceram para servir”, “que a Natureza não dá saltos, cada ser deveria conservar-se no seus setor, pois a finalidade da mulher é ser mãe e ser rainha do lar”

e também ouviu que:

não seguisse o exemplo de Anita Garibaldi, uma vagabunda.”

Antonieta de Barros, entretanto não se intimidava. Era mulher de fibra. Respondia sempre que “as mulheres não deveriam ser virgens de idéias.”

Era respeitada, honesta e humana. Enquanto deputada, escreveu dois capítulos da Constituição  do Estado de Santa Catarina sobre Educação e Cultura e Funcionalismo.

Foi destituída do cargo pelo golpe Estado de Getúlio Vargas, em 1937.  Mas ainda em 1937 publicou o seu único livro “Farrapos de Idéias” sob o pseudônimo de Maria da Ilha.

Brilhou na política e foi eleita novamente deputada em 1947. Foi nessa legislatura que fez o projeto – o feriado escolar do dia do professor –  pela Lei no 145 de 12 de outubro de 1948, em Santa Catarina.

A data foi oficializada depois para todo Brasil, em outubro de 1963, pelo Presidente João Goulart, portanto 20 anos depois.

Contexto histórico

Nossa Senhora do Desterro como era chamada a atual Florianópolis era território Guarani. Foi povoada em 1675, pelo bandeirante Francisco Dias Velho, que veio da Capitania de São Vicente. Ele apossou-se das terras com sua família e uma comitiva de 400 pessoas, a maioria indígenas e negros escravizados.

Ao longo do tempo, os traços africanos da população foram apagados e a presença negra não é nem mesmo lembrada pela história popular no estado. Hoje, o Estado de Santa Catarina é considerado o Estado com a maior população dita branca do país.

Segundo Torres, no Livro ‘Negro em terra de Branco” – de autoria de Joana Maria Pedro, Ligia de Oliveira Czesnat, Luiz Felipe Falcão, Orivalda Lima e Silva, Paulino Francisco de Jesus Cardoso e Rosângela Miranda Cherem – no Planalto Serrano de onde veio Catarina (a mãe de Antonieta de Barros), a população negra chegava a 20% da população total.

Os autores acima indicam que a economia da província baseava-se nas funções de pesca de peixes e baleias. Os negros escravizados ali se encontravam trabalhando, mas também exercendo os ofícios de sapateiros, pedreiros, marceneiros, ferreiros e soldados. Eles também serviam para os cuidados domésticos da elite burocrática e militar, e como lava-pés e cadeirinhas.

Roberto Wildener, segundo Torres, refere-se ao relato do naturalista Langsdorff, em 1803, no seu livro “Navegadores e Exploradores de Santa Catarina”:

“A quantidade de escravos negros de ambos os sexos que se veem aqui é estranha aos olhos desacostumados de um europeu qualquer. Despertou-me revolta especial quando vim pela primeira vez a Nossa Senhora do Desterro e vi grande número dessas criaturas abandonadas, nuas, deitadas frente às portas de ruas laterais e oferecidas à venda. Apenas as regiões púbias estavam cobertas com um velho pano rasgado que após alguns dias eram substituídos por um grosseiro tecido azulado.”

Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni, jovens sociólogos da USP em 1960, deixam claro para o mundo acadêmico no com o livro “Negros em Florianópolis”, os preconceitos de cor e o quanto Santa Catarina esforçou-se para ser a “Europa dentro do Brasil”.

As campanhas abolicionista não eram feitas para melhorar as condições dos negros. Tinham a esperança de um “branqueamento” da população ansiando por uma modernidade econômica onde “o negro não cabia”. Tanto isso é verdade que os abolicionistas não lutaram nem por retratação histórica e nem por melhores condições de habitação, educação e trabalho para os negros alforriados. Eles foram jogados à própria sorte depois da abolição da escravatura. Não se tem notícias de alguma ação no sentido de oferecer aos alforriados melhores condições de vida.

Entretanto, nos portos onde chegavam os imigrantes açorianos, depois os alemães e italianos, os negros eram estivadores. Mas, no início do século XX, a modernização procurou “limpar” do centro da cidade os casebres dos negros. Criou-se a lei das tábuas. O governo dava tábuas para os negros construírem os seus casebres, à condição de serem longe do centro da cidade. Então eles foram alojar-se nos morros e surgiram as comunidades do Morro da Caixa D’água, da Coloninha e do Continente. Depois surgiram clubes como União recreativa 25 de dezembro, Brinca Quem Pode, Flor da Mocidade, Flor do Abacate, Tiramão.

Surgira uma intelectualidade negra com professores, jornalistas, poetas, compositores, músicos. Oradores da geração de Antonieta como, Ildefonso Juvenal da Silva, Trajano Margarida, João Rosa Júnior, Amália Efigênia da Silva, Maria da Rosa Lapa, Dermeval Cordeiro dos Santos, Maria Carlita, Dorvalina Machado Coelho e Maria Venânia. Esse intelectuais eram costumeiramente desdenhados pela elite branca (Torres op. cit.).

A faina de Antonieta de Barros

Não é difícil imaginar as dificuldades pelas quais Anonieta passou. Ela era apenas “aceita” ou “tolerada” pela elite branca por sua competência e sua destemida coragem. Entre os problemas por ela enfrentados pelo fato de ser negra registra-se, em 1951, um incidente com o médico Osvaldo Rodrigues Cabral (importante historiador catarinense então deputado estadual pela UDN).

À época o Sr. Irineu Bornhausem estava à frente do Executivo do Estado e alguns dos seus projetos sobre educação foram  analisados e criticados pela Professora Antonieta de Barros. Ela escrevia crônicas em 8 jornais sem jamais referir-se à sua cor.  O Deputado Cabral então referiu-se aos seus escritos como “intriga barata de senzala”.

A resposta veio de imediato e foi de alto nível:

“Mas onde foi isso? Na Alemanha de Hitler? …Discordar das nossas considerações é direito de toda gente e, principalmente, dos que militam na situação, embora certos fatos, cuja cristalinidade e transparência impõem silêncio, para evitar que sejam mais focados. Por que desce o deputado a apanhar as nossas ideias esfarrapadas? … Onde a intriga? Não existiu. Não é de nosso feitio essa modalidade de comportamento. Somos leais. Leal e agradecida. Sempre fomos E é uma característica dos negros. Fizemos do Magistério o nosso caminho, e agimos sempre respeitando a professora que não morreu em nós, ainda, graças a Deus. Como, pois, a intriga? Compreendemos que a delicada sensibilidade do nobre deputado tenha sofrido diante daquela frase. Sua excelência para a felicidade de todos quanto são arianos – apesar de portador de um diploma de jornalista – não milita no ensino público. Dizemos felicidade porque, à sua Excelência, falta uma das qualidades do professor: não distinguir raças, nem castas, nem classes…” (O Estado, 06/05/1951).

Encerrou sua extensa crônica com um enfático “Não voltaremos ao assunto”.

Em 1922, na semana de Arte Moderna, ela fundara o jornal “A Semana” do qual foi diretora, desde a sua criação até 1927. Nesse jornal, ela escrevia suas crônicas expressando seus ideais, especialmente, em torno da educação, da política da emancipação feminina e o combate ao racismo. Escrevia também no jornal Vida Ilhoa em 1930. Publicou suas crônicas nos periódicos Vida Acadêmica, Correio do Estado e o Estado.

Ela optou sempre pela imprensa pois achava que atingia um público mais numeroso. Escrevia sobre aspectos da cotidianidade da cidade, sobre assuntos nacionais e expressava sempre ensinamentos de cunho moral. Era muito preocupada com o pacifismo, com a necessidade de uma campanha nacional de alfabetização. Também ocupava-se de assuntos referentes às diferenças sociais e com os papéis sexuais. Defendia o acesso das mulheres ao ensino superior, coisa que ela não teve oportunidade de cursar. Via nessa lacuna a dificuldade das mulheres não poderem ascender aos grandes horizontes. Às mulheres de Santa Catarina era facultado apenas ir até o Curso Normal.

Ela propugnava pela abertura do ensino para todas as pessoas de todas as classes sociais e, sistematicamente, para as mulheres pois só assim as pessoas poderiam se tornar cidadãs e cidadãos. Somente através da cultura seria possível a independência moral e educadora. Criticava também atos do governador o que lhe valeu várias críticas e acusações.

Vítima de complicações diabéticas, Antonieta de Barros faleceu em 28 de março de 1962.

Ela destacou-se pela política e pela sua competência como professora. Antonieta empresta o seu nome à Medalha do Mérito Antonieta de Barros pelo seu exemplo de vida, prêmio criado pela Secretaria de Políticas de Promoção e Igualdade racial voltada para comunicadores negros brasileiros.

Em 2015, a cineasta paulista Flávia Person construiu um documentário que leva o nome Antonieta, resgatando a história desta filha de escravos alforriados que tornou-se a porta-voz de sua comunidade que, muitos anos atrás, defendia bandeiras até hoje válidas como – Educação para todos, Emancipação feminina, Valorização do negro e de sua cultura na construção do Brasil. (V. Antonieta de Barros, em: /literafro/autoras/57- antonieta de barros; e http:/www.letras.ufmg.br/literafro/.                                                                        

Aracaju, 25 de novembro de 2020